Uma série de lançamentos recentes no Brasil – de Anelis Assumpção e Russo Passapusso a Pitty e Lenine, passando pelos clássicos Jorge Ben e Noriel Vilela – mostram que a volta da música em formato vinil já é uma realidade para diferentes gêneros e gerações no país.

Lá fora, a regra se repete e o topo das vendas de LPs reúne ícones da modernidade, como Daft Punk e Justin Timberlake, e lendas como Beatles e Jimi Hendrix. Um estudo recente mostra que a venda de vinis no mercado norte-americano cresceu impressionantes 33% entre 2012 e 2013.

E no Brasil? Por aqui as vendas de vinil estão em claro crescimento. A carioca Polysom – única fábrica de vinil da América Latina – anunciou um aumento surpreendente de 126% nas vendas de discos somente entre os meses de março e abril desse ano.

“Acompanhando o que vem ocorrendo no mundo, o crescimento de vendas é espantoso. Num mercado em que todos os formatos de música caem, à exceção do streaming digital, o vinil vem ‘nadando de braçadas’, com crescimento de mais de 50% ao ano”, explica João Augusto, da Polysom.

Somente em 2013, a empresa vendeu um total de quase 59 mil unidades – cerca de 40,5 mil LPs e 17,8 mil compactos. Comparando o período com o mesma época do ano passado, houve crescimento superior a 81%.

A Polysom foi fundada em 1999, em um momento em que a indústria fonográfica abandonava o vinil para se dedicar aos CDs. Fechou as portas em 2007, mas já no ano seguinte os proprietários da Deckdisc fizeram a aquisição oficial da fábrica, reformaram o espaço e remontaram todo maquinário, incluindo prensas, compressores e motores. Foi reativada em 2009 e, em 2012, registrava um lucro de 13,55%. Hoje, fabrica compactos (7”) e long plays (12”) em diferentes cores, e os LPs podem ser de 140 ou 180 gramas.

O LP mais vendido da Polysom é “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben Jor. “Provavelmente porque foi um dos primeiros lançamentos da série Clássicos, através de licenciamento da Universal Music”, conta João Augusto. “Outros títulos vêm vendendo com bastante consistência, como Novos Baianos, Moacir Santos, Chico Science & Nação Zumbi, além de alguns discos fabricados por independentes com tiragens bem altas”.

Nos EUA, Radiohead lidera o ranking de discos vendidos em vinil, com 64 mil LPs vendidos em 2011. O segundo do ranking é o também contemporâneo Black Keys. Beatles ficou em quarto.

“Nota-se um número maior de lançamentos, não só de clássicos mas de música moderna também. E isso tem ajudado no crescimento do mercado”, analisa o representante da Polysom. “Com mais oferta, o consumidor se sente seguro para comprar um toca-discos e investir em vinil”.

O aumento de interesse pelo formato vinil também afetou as plataformas de venda online. Em um ano, o site de comércio eletrônico Mercado Livre registrou um aumento de 6% nas vendas de vinil. Somente em 2013, as vendas no formato responderam por 27% do volume em seu setor de música no Brasil.

Outro movimento que se notou a partir do aumento da produção de vinil no país é a quantidade de selos brasileiros que só lançam discos nesse formato, tanto nacionais quanto internacionais. O Vinyl Land existe desde 2008 e é focado na nova música brasileira: já lançou Curumin, Lucas Santtana e Tulipa Ruiz no exterior. Os selos Brasilis Grooves, Somatória do Barulho e Goma Gringa misturam clássicos e modernos e lançaram aqui no Brasil desde reedições em vinil de Di Melo, Noriel Vilela, Paulo Bagunça e Fela and Africa 70 até Metá Metá, Thiago França e Elo da Corrente.

Segundo José Augusto, o público não é só de colecionadores ou saudosistas, como se falou durante muito tempo. “Somos surpreendidos todos os dias por gente muito jovem aderindo ao vinil”.

Rodrigo de Andrade, idealizador e fundador do 180 Selo Fonográfico, confirma: “Uma parte expressiva dos nossos consumidores são jovens que cresceram em meio aos CDs e MP3s e apenas agora estão percebendo essa qualidade de áudio superior e a riqueza e profundidade presente nos discos”, conta. Apenas um ano desde o seu primeiro lançamento em vinil, o selo já tem oito títulos no catálogo.

“O vinil tem crescido muito, encontrado novo mercado”, analisa Flavio Scubi, da Scubidu Records. De nicho, ele admite, mas um mercado interessante de fãs que estão dispostos a investir mais para ouvir seu artista preferido com o calor que só um bolachão tem. “É um formato que privilegia quem ouve música de uma maneira especial, com atenção, diferentemente dos MP3s que ouvimos em nossos celulares por aí, com péssima qualidade”.


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Jornalista, responsável pelo conteúdo nas mídias sociais do Brasil Music Exchange, um projeto da BMA - Brasil Música e Artes em parceria com a Apex- Brasil.

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