A grande onda de shows internacionais vindo para o Brasil nos últimos anos não é por acaso. Com a crise econômica, o público dos EUA e da Europa deixou de ir a shows. E, neste cenário, o Brasil se destaca como um dos países menos afetados pela recessão e com público ávido por entretenimento. É o novo pote de ouro da indústria.

Ainda assim, os brasileiros sofrem com os preços dos ingressos, muito mais altos que em outros lugares do mundo. Show da cantora Katy Perry em Los Angeles em agosto, por exemplo, custa de US$ 35 a US$ 50 (de R$ 55 a R$ 80). Em São Paulo, em setembro, o mesmo show sai de R$ 200 a R$ 450, mais taxa de conveniência (20% do ingresso) e entrega (R$ 18 em domicílio; R$ 3 na bilheteria).

De um lado, os produtores alegam que os custos no Brasil são mais altos e que impostos e aluguel de equipamentos são os reais responsáveis por ingressos tão caros. De outro, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e o Procon garantem que essas empresas praticam ações consideradas abusivas.

“Qualquer ação que discrimine o consumidor em detrimento do outro, como a pré-venda de ingressos para portadores de cartões de crédito específicos, é considerada ilegal pelo Procon”, diz Renan Bueno Ferracioli, diretor de fiscalização da entidade.

Já que as práticas são consideradas irregulares, por que persistem? Segundo Ferracioli, o Procon questiona a legitimidade da taxa de conveniência baseada em percentual, há muito tempo, e já multou essas empresas, mas não pode impedi-las desta prática.

Livro – Recém-lançado nos Estados Unidos, o livro “Ticket Masters: The Rise of the Concert Industry and How the Public Got Scalped”, dos jornalistas Dean Budnick e Josh Baron, conta histórias sobre como a indústria de shows cresceu e começou a prejudicar cada dia mais o público.

Segundo os autores, a fusão da Ticketmaster, maior companhia de venda de ingressos do mundo, com a Live Nation, maior produtora de shows no planeta, em 2009, piorou as coisas ainda mais. “É um monopólio agressivo. Eles organizam e vendem os ingressos dos maiores shows, cobram o que querem e o público tem de aceitar”, disse Budnick à Folha de S. Paulo.

Budnick afirma que, nos Estados Unidos, a Ticketmaster serve de “cambista” de seus próprios ingressos no site TicketsNow, que também pertence à empresa, mas é usado pelo público para vender ingressos que sobraram. “Os melhores lugares raramente estão à disposição do público”, argumenta.

A empresa aplicaria ainda um método pouco ortodoxo para descobrir quanto o público pagaria por shows concorridos, leiloando ingressos para shows de Madonna, Shakira, Red Hot Chili Peppers e Roger Waters. Apesar das críticas, o ex-presidente da Ticketmaster, Sean Moriarty, que renunciou em 2009, disse que considerava a prática justa.

“Descobrimos que essas práticas são aplicadas no mundo todo por grandes produtoras”, disse Budnick.

No Brasil, a Ticketmaster usa o nome Tickets For Fun. A Live Nation, desde 2008, é representada pela Time For Fun (T4F), antiga CIE.

Hoje, a T4F atua ainda no Chile e na Argentina é a maior produtora de shows da América Latina, com lucro de R$ 569 milhões em 2010. Em abril deste ano, a empresa abriu seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo e levantou R$ 540 milhões para investir na expansão para Peru e Colômbia.

Além disso, produtoras novas também estão investindo pesado e abocanharam shows de bandas independentes, como a XYZ Live, do grupo ABC, de Nizan Guanaes, e a Geo Eventos, criada no ano passado, que trará o mega festival norte-americano Lollapalooza ao Brasil em 2012.

*Com informações da Folha Online


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

3Comentários

  • juca muller, 26 de julho de 2011 @ 18:07 Reply

    Gostei da sua coluna

  • Por um mundo (da cultura) melhor? Um debate sobre a lei Rouanet, 7 de novembro de 2011 @ 12:09 Reply

    […] O mesmo tipo de tratamento deve ser posto em prática na questão da meia entrada para o ingresso a eventos culturais. Nos dias de hoje, a maioria dos eventos culturais (shows, peças de teatro, cinema, etc.) vem utilizando o preço da meia entrada como base de cálculo para equilibrar suas planilhas de custos, fazendo com que o preço cheio seja na verdade o dobro do que deveria ser. Tal política também necessita ser revista, pois, assim como aconteceu com os incentivos fiscais, percebeu-se a ocorrência de vícios, como mostra o artigo “Brasil atrai indústria de shows com ingressos mais caros do mundo” do site Cultura e Mercado (leia aqui). […]

  • Por um mundo (da cultura) melhor? - Música e Tecnologia, 17 de novembro de 2011 @ 13:34 Reply

    […] O mesmo tipo de tratamento deve ser posto em prática na questão da meia entrada para o ingresso a eventos culturais. Nos dias de hoje, a maioria dos eventos culturais (shows, peças de teatro, cinema, etc.) vem utilizando o preço da meia entrada como base de cálculo para equilibrar suas planilhas de custos, fazendo com que o preço cheio seja na verdade o dobro do que deveria ser. Tal política também necessita ser revista, pois, assim como aconteceu com os incentivos fiscais, percebeu-se a ocorrência de vícios, como mostra o artigo “Brasil atrai indústria de shows com ingressos mais caros do mundo” do site Cultura e Mercado (leia aqui). […]

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