O relacionamento entre decisores do investimento em cultura e produtores culturais é corriqueiro no dia a dia do setor cultural brasileiro e o diálogo entre eles foi apontado pelos entrevistados pelo Panorama Setorial da Cultura Brasileira como ponto fundamental para o desenvolvimento e consolidação da cultura.

Porém, na abordagem da pesquisa percebeu-se que decisores e produtores têm referenciais, valores e crenças muito distintos. O primeiro passo para diminuir esta distância é o entendimento das diferentes perspectivas, suas divergências e concordâncias.

Um ponto comum para os gestores e decisores do investimento em cultura entrevistados, tanto da iniciativa privada quanto do setor público, é a necessidade de profissionalização do produtor cultural. Esses decisores acreditam que não há interesse do produtor em conhecer/considerar suas necessidades; este comportamento do produtor cultural não é visto com bons olhos.

Nas entrevistas com os representantes da iniciativa privada caracterizou-se que a visão sobre o produtor cultural depende do nível de relacionamento profissional estabelecido entre eles. Para que o produtor cultural atenda à demanda das empresas, é preciso um maior grau de profissionalização, investimento em formação e desenvolvimento de habilidades que dizem respeito à gestão de projetos. Sugerem-se fundos especiais de apoio aos pequenos produtores pra que eles possam realmente se tornar grandes depois.

Nas entrevistas com os representantes do poder público, verificou-se que a maior parte das percepções acontece pela distância entre os decisores e gestores do investimento em cultura e os produtores. Os pontos de contato são, em geral, desenvolvidos por editais públicos e outros instrumentos legais, distanciando os atores e criando ruídos de comunicação entre eles. Infere-se que, com isso, qualquer tentativa de trabalho conjunto não consiga desenvolvimento pleno.

Ainda para o poder público, o produtor cultural é peça fundamental no desenvolvimento da cultura no País. É uma pessoa que corre atrás, que busca o melhor para a cultura do País, que conhece o meio cultural, mas que necessita de maior profissionalização.

Profissionalismo – Como ficou evidente, a tônica na percepção do trabalho do produtor cultural pelos entrevistados é seu processo de profissionalização. De forma muito objetiva, os gestores e decisores do investimento em cultura sugerem que há a necessidade de incremento na profissionalização dos produtores culturais. Compreendem que sem formação orientada para gestão, sem maior capacitação não há desenvolvimento no setor. Os conflitos são iniciados prioritariamente por divergência de interesses e resolvidos com diálogo e trabalho conjunto. Mais uma vez, evidenciam-se a importância dos pontos de contato e a atenção aos canais de comunicação para favorecer o relacionamento.

Para a iniciativa privada, o profissionalismo dos produtores culturais é considerado baixo, principalmente no que diz respeito à capacidade de gestão de projetos culturais. Os conflitos baseiam-se nos interesses distintos da empresa (comercial) e do produtor (artístico) e acreditam no diálogo como a principal maneira de resolver estes conflitos. Porém, quando o diálogo não acontece, o projeto tende a não receber financiamento.

O setor público infere que a formação do produtor é crescente, e que este ator está em vias de profissionalizar-se. Porém, ainda é limitada e deficiente sua capacitação e o processo de aprimoramento deveria ser contínuo. Conflitos surgem por problemas nas políticas de incentivo, falta de compreensão dos papéis (de parte a parte) e divergência de interesses. Com menor incidência, o oportunismo dos produtores, ou seja, a tendência a sacrificar os princípios do projeto cultural para conseguir o dinheiro, favorece os conflitos. Estes conflitos são resolvidos com cooperação e trabalho conjunto.

No Panorama Setorial da Cultura Brasileira ficaram evidenciadas algumas dificuldades de relacionamento entre produtores culturais e gestores e decisores do investimento em cultura. Sem a compreensão e o reconhecimento da importância de cada ator por todos os participantes da cadeia produtiva, o desenvolvimento do setor fica comprometido. Tanto produtores têm que compreender o papel e legitimar a importância de patrocinadores e governo bem como estes devem reconhecer a importância e necessidades dos produtores.


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Gestora cultural, pesquisadora e coordenadora da publicação Panorama Setorial da Cultura Brasileira 2013/2014.

3Comentários

  • Lernie, 18 de dezembro de 2012 @ 15:30 Reply

    (..) o profissionalismo dos produtores culturais é considerado baixo, principalmente no que diz respeito à capacidade de gestão de projetos culturais.(..)

    Esses “atores” poderiam ser mais bem delimitados, no sentido de o produtor ser apenas produtor, e não gestor. Evidentemente que caracteristicas de gestão são muito importantes, e até vitais, também para o produtor e que tal estruturação soa até utópica na nossa realidade, mas havendo uma diferenciação entre o PRODUTOR Cultural e o GESTOR Cultural, com especializações específicas de produção e de gestão, talvez o profissionalismo fosse maior.

    • Mauricio, 3 de janeiro de 2013 @ 15:56 Reply

      Existem algumas tarefas diferentes que na maioria das vezes são exercidos pela mesma pessoa:

      1) Criação do projeto
      2) Cadastramento e aprovação em editais culturais e/ou cadastramento e aprovação em legislações de incentivo fiscal
      3) Negociação e Captação de recursos para a produção
      4) Pré-produção
      5) Execução (ou Produção)
      5) Controller de despesas, visando a prestação de contas
      6) Apresentação das contas

      A Gestão do Projeto é o controle de todas estas etapas, criando um Cronograma de Execução de todas partes, alocando recursos humanos e financeiros e acompanhando a execução do Projeto como um todo, do início ao fim.

      Alguns Produtores contratam pessoas ou empresas para realizarem alguma destas tarefas especificamente. Mas se ele controla o todo, mesmo subcontratando serviços ou pessoas, ele é o Gestor do Projeto.

  • Luan Campos, 28 de dezembro de 2012 @ 7:38 Reply

    O primeiro fator para o desenvolvimento dos produtos culturais no Brasil já existe: temos qualidade, boa safra de produtores culturais. No entanto, dependemos ainda da profissionalização do setor. É preciso entender que a junção entre marketing e produção cultural é totalmente possível. Basta que os poderes público e privado tomem iniciativas para que os produtores não fiquem reféns apenas de editais do governo, e, o público, de práticas populistas como o Vale Cultura. Capacitar os bons profissionais que temos hoje para que insiram uma visão mercadológica sobre as produções é ensinar a “pescar o peixe” e garantir a independência que quem sabe fazer e vive de cultura.

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