O meio é a mensagem, já dizia Marshall McLuhan em um dos maiores clássicos da literatura sobre comunicação e cultura, publicado em 1964. A tradução de Understanding Media, que ao pé da letra quer dizer “Entendendo os meios de comunicação”, foi para nós Os meios de comunicação como extensão do homem, que ganha um novo contorno em dias de convergência de mídias, conteúdos, redes e telas.

Há um problema de entendimento por parte dos governantes sobre os limites de regulação entre TV aberta, por assinatura, pública, digital, Internet, rádio, rádio comunitária, imprensa (revistas, livros e jornais),  telecomunicações, tablets, fibra ótica, cabos condutores de eletricidade. A coisa se complica ainda mais quanto inserimos na discussão cross media, conteúdo nacional, majors, conglomerados globais de mídia, classificação etária, propriedade intelectual, financiamento e incentivo à cultura.

Tudo isso agora está misturado, vinculado, junto, embolado, convergente. Impossível regular um sem entrar no campo do outro, pensar a tecnologia sem tocar no conteúdo, o meio sem a mensagem. O conteúdo já não está totalmente sob controle, as novas mídias já estão, em parte, nas mãos dos sistemas de controle. A legislação não dá conta de acompanhar a evolução desse processo. Nem aqui, nem na China.

O novo capítulo da novela inclui as recentes declarações do ministro Paulo Bernardo, que se aproxima cada vez mais da ideia de convergência e cultura digital que a própria ministra Ana de Hollanda, pelo menos por enquanto. O ministro usa twitter, participou do Campus Party e já traz um discurso que chama de volta para si a responsabilidade de conjugar conteúdo com tecnologia (como se essas coisas já não fossem partes de mesma coisa).

A Folha de S. Paulo divulgou nesta quinta-feira (20/1) a informação de que o setor de radiodifusão brasileiro pode passar a ser fiscalizado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Segundo o jornal, o Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, estuda a possibilidade de transferir as atribuições ao órgão, que poderá multar emissoras de rádio e TV em casos de descumprimento de normas técnicas.

Em dezembro de 2010, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) apresentou uma proposta de criação de uma nova agência para regular o conteúdo das emissoras de rádio e TV, a Agência Nacional de Comunicação (ANC), que substituiria a Agência Nacional de Cinema (Ancine). O projeto também prevê novas regras para regulação da mídia, mas recebeu críticas de instituições ligadas às empresas de comunicação. A proposta foi entregue à presidente eleita Dilma Rousseff para que decidisse se encaminharia ou não para avaliação do Congresso Nacional.

A querela está muito longe de se resolver, pois as discussões avançam e os interesses dos vários players envolvidos na peleja fazem da gestão política desse mercados uma verdadeira Torre de Babel. Acompanharemos os próximos passos do governo e do mercado em busca de uma convergência mais, digamos, convergente.

*Com informações da Folha de S.Paulo e Portal Imprensa.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

2Comentários

  • gil lopes, 20 de janeiro de 2011 @ 21:28 Reply

    Al Gore em São Paulo:
    “Defendam a internet. Ela não pode ser controlada por governos ou grandes corporações. A internet é do povo.”
    “A forma como se usam as ferramentas tecnológicas é absolutamente importante. Sigam seus corações e mantenham os sonhos das pessoas vivos, não deixem que a rede seja controlada”, afirmou.
    “Quando alguém tentar impedir que vocês acessem um conteúdo, protestem. Em paz, mas protestem”, disse Berners-Lee.

    Diante do impacto avassalador das novas tecnologias nas culturas dos países…ainda não sabemos como nos relacionar com tudo isso. O discurso das “Liberdades” agora parece soar…muito estranho.

    Se somente um conteúdo é capaz de circular e produzir riquezas, condenando os demais ao ostracismo…como tratar tudo isso? Direitos autorais sobre o que? Que meios temos para produzir direitos? Quem os tem?

    Defender a internet ou nos defender? O que Gilberto Gil quis dizer quando perguntou se o caminho seria seguir esse modelo?…E Mautner quando disse: ou o mundo se Brasilifica ou é nazismo?

  • Vicente Melo, 30 de janeiro de 2011 @ 20:06 Reply

    Leonardo e Gil, calma, não é com essa enorme colher de pau que vamos mexer nessa panela.
    A mensagem contida na vigência dos novos meios está sendo assimilada, já promove as mudanças pertinentes e discussões sobre esse novo tempo. Isso é Mcluhan.
    Porém, o meio não se mistura a mensagem. A proliferação dos meios tecnológicos é sempre muito bem vinda, justamente porque supera os controles hoje exercidos por algumas corporações e governos sobre as mensagens, ou seja, os conteúdos.

    As informações estão a cada dia mais livres e disponíveis para todos, pois os meios tecnológicos permitiram que fosse servida mais uma fatia do bolo da liberdade.

    Para obter direitos sobre os meus conteúdos, posso utilizar os meios disponíveis no mercado, inclusive os tecnológicos.

    Como os meios são públicos, a serviço da massa, carecem de controle público, para manterem-se a serviço dos interesses públicos. Censura é outra coisa.

    Vocês sabem muito bem e podem explicar tudo direitinho para evitar a mistificação.
    Portanto,vamos cumprir as regras da casa, ser gentil,jogar limpo, ficar no assunto e não temer a liberdade.

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