A potencialização do audiovisual brasileiro - Cultura e Mercado

A potencialização do audiovisual brasileiro

O roteirista Leandro Saraiva fala sobre a Fábrica de Idéias Cinematográficas, um projeto que aponta novos caminhos para a produção audiovisual, vinculando-a com o ensino

Leandro Saraiva é roteirista e pesquisador especializado em dramaturgia e documentário. Foi roteirista da terceira temporada da série televisiva “Cidade dos Homens”, exibida pela Rede Globo, e do longa-metragem “Salam, Saara” (de Estevão Pantoja e Regina Casé), atualmente em pré-produção.
Foi consultor do programa DOC-TV, do Ministério da Cultura e TV Cultura, ministrando oficinas de formatação de projetos e atuando como assessor pedagógico do workshop para os vencedores do concurso. Graduado em Ciências Sociais, é mestre e doutorando em cinema pela USP e autor do “Manual de Roteiro” (editora Conrad).

Leandro também está envolvido na FICs (Fábrica de Idéias Cinematográficas), um projeto de potencialização do audiovisual brasileiro que irá realizar em abril dois cursos de criação cinematográfica, desenvolvidos em um formato diferenciado, onde os participantes vão criar um roteiro, desde o primeiro dia de curso, a partir de conceitos técnicos ensinados na prática da elaboração. Ao final do processo, o participante terá assinado em conjunto um roteiro de ficção ou documentário e estará apto a trabalhar profissionalmente como roteirista.

CeM: Para começar, explique resumidamente o que é a FIC’s e como surgiu a iniciativa.

LS:
A FICs é uma agência de produção de processos de produção. Isso quer dizer que elaboramos processos capazes de dar conta de projetos específicos. Esses projetos podem ser de mercado ou não, podem se restringir a uma especialidade ou não. Depende. Formamos a idéia da percepção de que a especialização, se tratada de forma exclusivista, tende à repetição. Assim, por exemplo, quando elaboramos o ambiente de ensino e criação coletivo do workshop de roteiros Cidade de Deus, compusemos uma equipe variada de professores, estimulamos e inserimos nos materiais de debate tanto conteúdos de técnicas de roteiro quanto pesquisas antropológicas e distribuímos bolsas para grupos populares organizados, visando enriquecer o conjunto de visões mobilizadas.

CeM: O roteiro é o tema central dos novos cursos propostos pela FICs. Por que essa escolha, levando em consideração o objetivo da FICs de potencializar o audiovisual brasileiro?

LS: Acreditamos, por um lado, que o roteiro é a base de um bom filme. Por outro lado, nos parece que o ensino e a discussão do roteiro, não só no Brasil, tende à burocratização, a um conjunto de ” macetes” e de pretensas ” regras”, no que não acreditamos. Acreditamos em reunir pessoas que se complementem, e num processo coordenado de comunicação criativa. Ou seja, em perguntas de orientação da formulação de visões próprias e originais, e não em fórmulas.

CeM: Como os dois cursos de criação cinematográfica se diferenciam e inovam em relação a outros cursos de roteiro?

LS: Em primeiro lugar são ambos cursos práticos de longa duração. Os cursos práticos tendem  a ser oficinas concentradas. Isso pode funcionar para se aprender a operar um software de edição. Mas não para criar um roteiro. Um roteiro ou um projeto de documentário demanda um tempo de criação específico, que teremos nesse curso. Além disso, ambos enfatizam a criação coletiva. Tal como Vertov, acreditamos que o homem se multiplica e aperfeiçoa em contato com outros homens. Acreditamos que a boa criação surge de um bom ambiente criativo, com muito debate e diálogo. É isso que estamos criando nos cursos, um ambiente de alunos previamente selecionados que possam criar coletivamente. Por fim, o papel do professor. Nós definimos como coordenação de criação, e não de definidores de regras e aferidores de sua pretensa correção. Trocando em miúdos, nosso processo pedagógico se baseia num conjunto estruturado de perguntas que o roteirista irá fazendo ao seu material.

CeM: Além dos cursos, quais serão as outras ações da FICs?

LS: Queremos aproximar o pensamento da prática. Aproximar o ensino da produção. Sendo assim, todas as nossas atividades de ensino estão vinculadas à produção audiovisual. O curso de documentário será aproximado do documentário “Apartados”, um filme de longa metragem que estamos iniciando. O curso de roteiro de longa metragem resultará em um roteiro que pretendemos produzir. Além disso, estamos relançando o site Cinemático,  de notícias sobre oaudiovisual independente.

CeM: A Economia Criativa é dos assuntos mais relevantes atualmente para o setor cultural, especialmente nos países em desenvolvimento, e a FICs pode fazer interface com ela. Como se daria esse processo?

LS: A idéia de criação em colaboração, potencializada pelas relações por via digital, pode ser a base para empreendimentos criativos com resultados efetivos em termos econômicos. Claro que para isso é necessário planejamento estratégico com participação e investimento estatal, inclusive. Nós acreditamos que podemos contribuir com isso com experiências piloto. Mas é importante, em termos estratégicos, NÃO acreditar que “cada um fazendo a sua parte o Brasil vai”. Não vai. Vai é continuar dominado pelos oligopólios. Hoje, com toda a efervescência estimulada pela criação com tecnologias digitais, o gargalo está na distribuição, controlada por grupos com grande concentração de capital. È isso que precisa ser driblado. Se, como pais, formos competentes e criativos, cosntruíremos um modelo capaz de captar talentos, hoje fora dos circuitos, e amalgamá-los a estratégias de produção e distribuição inovadoras. Se, além disso, formos responsáveis em termos históricos, teremos que fazer desse processo mais do que um negócio. Teremos que usar esses novos recursos de comunicação para potencializar um projeto de nação, que é econômico mas é também “civililizacional”, baseado na inclusão econômica e na destruição da homogenização cultural imposta pela força do capital concetrado.

CeM: A FICs pretende atuar não somente na produção cinematográfica, mas tambem na sua difusão. Que canais podem ser utilizados para fazer essa produção chegar ao público? E quais os principais papéis que a Internet pode representar nesse caminho?

LS: Em termos bem gerais, o mercado cinematográfico tem que ser desfetichizado. Ele é a apenas um janela de exibição – isso, inclusive, é bastante óbvio para os agentes econômicos mais poderosos, que usam as salas de exibição como alavanca para outros mercados e produtos. Mas não se trata somente disso. È preciso pensar em outras formas de comércialização, mas também em formas de distribuição não-comerciais. Nada impede – a não ser os modelos de financiamento em vigor – que um projeto de realização audiovisual inclua um site de pesquisa e debate do tema do filme, inclusive com desdobramentos de comunicação não-comercial – junto, por exemplo, à rede de Pontos de Cultura que o Ministério da Cultura vem construindo.

CeM: Como o modelo da FICs serve de combate à exclusão digital?

LS: Estamos convencidos que, em termos de comunicação social para além dos monopólios de mídia – cinema incluído –  o caminho estratégico são redes de produção e distribuição ligadas por internet, e com sedes locais enraizadas em grupos de produção relacionados às especificidades locais e/ou estético-formais (comunidades sociais, culturais ou artísticas que se relacionem em rede com outras). O desafio é tornar isso efetivo. Temos que partir das possibilidades existentes e relacioná-las com possibilidades emergentes. Pretendemos estabelecer já nos cursos de criação deste ano uma política de bolsas que seja o germe desses formatos de criação inclusiva.

CeM:  Você atuou no programa DOC-TV, uma experiência de parceria entre a TV pública e o produtor independente. O projeto seria igualmente bem-sucedido em uma emissora privada e mais comercial?

LS: Creio que sim. O DOC-TV é uma experiência do tipo que agrada a FICs, de colaboração cruzada –  no caso entre produtores independentes e TVs públicas – além da inteligência mobilizada nas oficinas com candidatos e com os vencedores. Além disso, combina as atividades artesanais dos realizadores com um programa de comercialização coletiva. Tudo isso poderia ser desenvolvido e ampliado em TVs abertas. Mas para isso, as TVs teriam que apostar num modelo mais descentralizado de produção, que inclua a produção independente, o que não é comum na nossa história de mídia oligopolizada.

CeM: Você foi roteirista da série “Cidade dos Homens”, exibida pela Rede Globo e considerada como um dos melhores programas a surgir na televisão aberta nos últimos tempos, num momento em que o debate sobre a TV Digital reforça a discussão sobre a baixa qualidade geral da programação da tv brasileira. Somente a entrada de novos players poderia reverter esse quadro? Em sua visão, por que a ausência de mais programas como “Cidade dos Homens”?

LS: È um risco para as TVS a abertura à produção independente. È preciso coragem, e a Globo teve a coragem de apostar no projeto da O2. Que, inclusive, destoa muito do estílo ascéptico comumente associado à emissora. O resultado foi um sucesso, uma prova de que é sim possível fazer diferente e melhor, e que aquele papo que o consumidor só quer mais do mesmo é balela. Recentemente tivemos um exemplo ainda mais radical, com a exibição de “Falcão”, uma produção da CUFA, dirigida por MV Bill e Celso Athayde, no “Fantástico”. Os quadros de Regina Casé, produzidos por sua produtora Pindorama e veiculados no mesmo “Fantástico” são outro exemplo muito bem sucedido de qualidade e pluralidade, inclusive social, na TV aberta, assim como vários programas especiais produzidos pela Casa de Cinema, da qual Jorge Furtado é sócio. São programas que apontam para um outro modelo de TV.

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