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Acervo digital é mais caro que o de papel

A boa reportagem de Patricia Cohen, para o jornal Estado de São Paulo, nos faz questionamentos quanto ao método de arquivamento em mídias digitais. Outra questão que salta, é como guardar arquivos concebidos e guardados originalmente em tecnologias hoje ultrapassadas. Onde arquivar, um material de um disquete cinco polegadas? Vale a leitura.

Em meio ao material de arquivo de Salman Rushdie em exposição na Universidade Emory, em Atlanta, há capas ilustradas de seus livros, diários escritos à mão e quatro computadores Apple. Os 18 gigabytes de dados contidos neles parecem prometer aos futuros biógrafos e estudiosos de literatura um verdadeiro país das maravilhas digital: vastos arquivos organizados que podem ser facilmente pesquisados em poucos cliques.

Mas, como a maioria dos paraísos rushdieanos, esse idílio digital tem seu próprio conjunto de problemas. Como as bibliotecas e os arquivos de pesquisa estão descobrindo, o material “nascido digital” – criado inicialmente no formato eletrônico – é muito mais difícil e caro de ser preservado do que se supunha.

Rascunhos, correspondência e comentários editoriais produzidos eletronicamente, com os quais poetas contemporâneos, romancistas e autores de não-ficção parecem se preocupar tanto, são apenas uma série de dígitos – os binários 0 e 1 – gravados em disquetes, CDs e discos rígidos, que se estragam muito mais rápido do que o papel. Mesmo que essas mídias de armazenamento sobrevivam, o implacável avanço da tecnologia pode significar que equipamentos e softwares mais antigos deixem de existir. Imagine ter um disco de vinil, mas nenhuma vitrola.

A luta contra a extinção digital passa por perguntas difíceis: como definir o que deve ser preservado, como deve ser essa preservação, e como tornar esse material disponível? “Não há dúvida de que essas questões têm tirado o sono de muita gente”, disse Anne Van Camp, diretora dos Arquivos da Instituição Smithsonian e membro de uma força-tarefa que estuda os aspectos econômicos da preservação digital.

Metodologia. Apesar de os computadores serem usados cotidianamente há duas décadas, os arquivos de escritores estão apenas começando a chegar aos acervos. Na semana passada, o Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, de Austin, anunciou a compra do arquivo de David Foster Wallace, que cometeu suicídio em 2008. A Emory montou em fevereiro uma exposição com seu acervo de Rushdie e, no ano passado, pouco antes de morrer, John Updike enviou 50 disquetes de 5,25 polegadas à Biblioteca Houghton, em Harvard.

Leslie Morris, curadora da Biblioteca Houghton, disse, “Ainda não desenvolvemos uma metodologia” para processar esse material. “Armazenamos os disquetes em nossa seção climatizada, e torcemos para que Harvard defina logo alguns procedimentos universais.”
Entre os desafios estão a contratação de arquivistas familiarizados com a informática; a aquisição do equipamento e da experiência necessários para decifrar, transferir e obter acesso aos dados armazenados em formatos tecnológicos obsoletos; o desenvolvimento de um sistema de proteção contra alterações e apagamento acidentais; e a definição de como organizar o acesso de forma a torná-lo mais útil.

Na Biblioteca Emory, os computadores de Rushdie confrontaram os arquivistas com um dilema: apenas copiar o conteúdo dos arquivos ou tentar também recuperar a aparência e a organização dele.

Por causa do interesse especial da Emory no impacto da tecnologia no processo criativo, a diretora interina do Acervo de Arquivos Manuscritos e Livros Raros, Naomi Nelson, disse que os arquivistas decidiram recriar a experiência e o ambiente eletrônico original.

Na exposição, visitantes podem acessar um computador e ver exatamente a mesma tela para a qual Rushdie olhava, realizar buscas nos arquivos dele assim como o autor fazia, e descobrir quais os aplicativos que ele costumava usar. “Não conheço nenhum outro lugar no mundo onde seja possível acessar por meio da emulação um acervo nascido digital”, diz Erika Farr, diretora da Biblioteca Robert W. Woodruff, em Emory.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Luana Schabib

Repórter. Escreve sobre pessoas, convergência e cultura.

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