?Não queremos mais ser aprisionados pelo imaginário neo-racista de cineastas brancos de classe média?
Recentemente, o meio artístico e, especialmente, o cinematográfico foi agitado pelas recentes declarações de cineastas, produtores e autoridades públicas sobre as novas medidas a serem adotadas pelas empresas estatais no que diz respeito à política de patrocínios. A grita da minoria barulhenta e ?organizada? girou em torno da ?contrapartida social? e do chamado ?dirigismo cultural? que as novas regras de financiamento poderiam ?impor? à produção cultural.
Subtraindo a demagogia de ambas as partes (governo e artistas) e considerando que boa parte da grita tem a ver com as novas posições que devem e serão tomadas para a obtenção de financiamentos, restou o susto de que as antigas posições fossem seriamente abaladas antes do tempo de se recomporem. Por trás dos discursos e das cenas, a questão é saber para quem vai o dinheiro da cultura. Falemos sério, afinal o cinema e toda a cadeia que cerca essa atividade é cara, arriscada e necessita de investimento público.
O debate foi saudável, principalmente por tornar público o esgotamento de um modelo de financiamento e a sua correspondente estética do merchandising versão ?brazuca?, toma lá, da cá. Muito identificada com os interesses do governo anterior, aliás.
Por sua vez, o atual governo tem a oportunidade de assumir a responsabilidade pelo tipo de representação e ficção que quer dominante e, obviamente, se for governo que se preze, deve ter uma política para financiar os projetos mais adequados aos seus interesses. A questão é discutir a produção audiovisual em termos políticos sim. Afinal trata-se de saber quais diretores e filmes serão contemplados, logo, qual a estética cinematográfica que deve marcar esse momento da vida brasileira.
Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo (08/006/2003) o cineasta Carlos Diegues escreveu acertadamente: ?Aliás, se quisermos uma ?contrapartida social? de verdade, esses recursos deviam ir mesmo era para a produção cultural dos excluídos, para o que é produzido nas periferias urbanas e no interior abandonado do Brasil?.
A citação vem em boa hora! As periferias das grandes cidades tornaram-se riquíssimas fontes de manifestação cultural. Não apenas o hip hop, mas grupos de samba, teatro e grupos folclóricos vicejam nas periferias das grandes cidades. Jovens desejosos de aprender as técnicas básicas da produção audiovisual se multiplicam, seja para produzir seus próprios videoclipes, produzir para e na internet, seja para realizar curtas‑metragens. Essa massa crítica de artistas, negros e pobres em sua maioria, é organicamente ligada às populações que habitam essas mesmas periferias. A maioria não encontra um sistema de produção e distribuição audiovisual em que possa dar imagem e som ao seu imaginário.
Prisioneiros do imaginário de outros grupos sociais e raciais, a conseqüência é vermos representações a nosso respeito produzidas em outras paragens, em que não faltam distorções, estereótipos e preconceitos. Assim, ou somos retratados como alienados camponeses, operários e favelados, como nos filmes do Cinema Novo, ou ensandecidos e raivosos moradores de favelas e presídios, viciados até a medula e quase sempre vítimas de um ?sistema? desigual, injusto, que interessa ao cineasta intelectual combater. O imaginário desse artista, em sua quase totalidade: macho, adulto, branco e ?bem letrado? só consegue filmar os negros e moradores das favelas naquilo que os ameaça. Isso quando não somos simplesmente retratados de forma paternalista, pitoresca ou folclórica como se fossemos os ?bons selvagens? de Rousseau.
Felizmente, algumas iniciativas para ampliar as possibilidades de produção e circulação audiovisual são desenvolvidas em São Paulo e Rio de Janeiro, assim como estão se instalando em Porto Alegre e outras cidades. Grupos de curta-metragistas desenvolvem, conjuntamente com ONGs e escolas públicas, projetos de formação de realizadores e técnicos em cinema e vídeo. Nas periferias jovens, alunos e professores são iniciados na produção audiovisual, realizando documentários e curtas‑metragens. conjuntamente com ONGs e escolas públicasOs cineastas do Cinema Feijoada somam-se a esses grupos que têm trabalhado para produzir uma representação sem estereótipos do homem e da mulher negra. Alguns cineastas do grupo têm trabalhado diretamente com projetos de produção de documentários na periferia de São Paulo, sem contar com qualquer apoio dos recursos das estatais.
Nós, cineastas negros, acreditamos que a diversidade não deve ser palavra morta no atual governo. A representação do negro e do povo brasileiro certamente não deve ser monopólio de grupos ou etnias. No entanto, não queremos mais ser aprisionados pelo imaginário neo-racista de cineastas brancos de classe média, quase todos adeptos mal disfarçados de alguma variação do velho darwinismo social.Reivindicamos o direito de construir nossas próprias representações do homem brasileiro bem como das relações sociais e raciais em nosso país. Assim, queremos discutir com o governo e seus representantes da área cultural, entre eles a Fundação Palmares (em nosso entender, ausente das discussões referentes ao audiovisual), sobre políticas de financiamento e incentivo à produção cultural da população negra. Dentre as quais, o incentivo à realização de filmes escritos, produzidos ou dirigidos por realizadores negros. Entendemos que uma ?contrapartida social? para o incentivo à cultura só faz sentido, se for dirigida àqueles que, historicamente, são os excluídos das representações e da produção dessas representações.
Noel Carvalho é cineasta, mestre em cinema pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutorando em sociologia na USP. Dirigiu os documentários ?O Catedrático do Samba? e ?Novos quilombos de Zumbi?.
Jeferson De é cineasta, diretor dos filmes ?Distraída para a morte?, ?Carolina? e ?Narciso Rap?.
Ambos fazem parte do grupo de diretores negros, Cinema Feijoada.
Noel Carvalho e Jeferson De