Uma lei de incentivo fiscal tem por princípio o objetivo de aproximar o empresariado de uma atividade que não lhes parece atraente. Eles investem sem risco, tendo o abatimento do imposto de acordo com o investimento. Na medida em que os anos passam o empresariado colhe os frutos, começa a se aproximar do ramo no qual investiu e percebe a importância (econômica/cultural etc.) de seu investimento. Assim, com o passar dos anos, quando o governo tirar o incentivo fiscal, ele naturalmente continuará a investir.
Entretanto, acreditamos também que o debate promovido entre o executivo e a sociedade civil em relação a esse projeto foi insuficiente, pois sempre esteve atrelado ao texto jurídico da própria lei. Muitas vezes entendido apenas pelos juristas e não pelos artistas.
Esperamos então que o Congresso Nacional promova audiências públicas com o propósito de discuti-lo com todos os segmentos do setor e aperfeiçoá-lo naqueles pontos ainda débeis: concentração excessiva dos recursos incentivados em apenas dois estados; muitíssimos recursos captados por um pequeno número de proponentes; poucos incentivos fiscais provenientes de pessoas físicas; muito recurso incentivando poucas linguagens e modalidades de projetos etc.
Esperamos que essas discussões possam suscitar questões fundamentais para o bom desempenho do Procultura. Entre elas, a garantia de recursos para seu próprio funcionamento. E isso nos lembra a Proposta de Emenda à Constituição Nº 150 de 2003, que diz o seguinte: “A União aplicará anualmente nunca menos de dois por cento, os Estados e o Distrito Federal, um e meio por cento, e os Municípios, um por cento, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na preservação do patrimônio cultural brasileiro e na produção e difusão da cultura nacional”. Realizando a devida mudança no texto da proposta, trocando o trecho “da receita resultante de impostos” por “do orçamento da União”, teríamos a garantia de dotação orçamentária condizente com um projeto tão audacioso como o Procultura. Portanto, acreditamos que a ordem natural das coisas seria votar a PEC Nº 150 antes do Projeto de Lei que institui o Procultura.
E por mais que já tenham sido aprovadas, para que não caiam no esquecimento, devem embasar e nortear essas nossas discussões as tradicionais conquistas e diretrizes do setor cultural: o Plano Nacional de Cultura – PNC, que reúne 53 ambiciosas metas a serem executadas até 2020; o Sistema Nacional de Cultura; o mínimo de 1% do orçamento da União para a Cultura, estabelecido pela Agenda 21 da Cultura durante o Fórum Universal das Culturas; o Plano de Ação de Políticas Culturais para o Desenvolvimento, lançada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO; e a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, também da UNESCO.
Para que não percamos a perspectiva de que ainda é muito necessário lutarmos por mais recursos para a cultura, recente pesquisa do IBGE sobre os municípios brasileiros aponta a existência de uma carência de aparelhos públicos culturais em todo o país. Alguns dados são: 82% dos municípios brasileiros não possuem museus; cerca de 20% não têm bibliotecas públicas. Mesmo aqueles municípios que têm bibliotecas, 69% deles possuem apenas uma e, nos municípios com até 20.000 habitantes, 93% não têm nenhuma biblioteca. Nos 5.506 municípios pesquisados, 65% não possuem livrarias e lojas que vendem discos, fitas e CDs. 84,5% dos municípios não têm teatro e 92% não têm sequer uma sala de cinema.
E se olhamos não para os aparelhos culturais e sim para as instituições governamentais, observamos que o cenário também não é bom: apenas 11,3% dos municípios brasileiros possuem secretarias ou fundações públicas de cultura exclusivas. E a meta do MinC é que essas instituições cheguem a 20% dos municípios em até 2020. Atualmente, na maioria dos casos (em mais de 70%), a função cultural é exercida formalmente em secretarias municipais em conjunto com outras políticas (principalmente educação, turismo e esportes). E em centenas de municípios a política cultural nem existe. Nem mesmo compartilhada com outras funções.
Focando o âmbito federal, o panorama não é muito melhor. Dos 25 ministérios existentes, o orçamento para a Cultura é, historicamente, um dos “lanterninhas” em investimentos. Está sempre entre os últimos cinco colocados. Em diversos anos, como no ano passado, só recebeu mais recursos que o Ministério da Pesca. E raras vezes recebeu mais que outros ministérios. Quando o governo Lula assumiu, em 2003, o Ministério da Cultura recebia pouco mais de 0,2% do orçamento da União. Mais de cinco anos se passaram até chegarmos perto da marca de 0,5% dessa receita. E ainda hoje estamos longe de alcançarmos o desejado 1% da receita.
Continuamos investindo na cultura, percentualmente, menos que nosso vizinho, o Uruguai, que destina uma porcentagem quase três vezes maior que a nossa. E o Uruguai não é o único país latino-americano a destinar um percentual orçamentário maior que o nosso. O Brasil mudou economicamente, mas a prática de baixo investimento na cultura pouco mudou. Não faz jus à pujante economia em pleno crescimento no país.
Vale ressaltar que o baixo orçamento da União destinado à Cultura tem de fazer funcionar, minimamente bem: a Agência Nacional do Cinema, a Fundação Nacional de Artes, o Instituto Brasileiro de Museus, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Fundação Biblioteca Nacional, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Fundação Cultural Palmares, assim como os programas e investimentos das secretarias que compõem a Administração Direta. Ou seja, as secretarias: de Articulação Institucional, do Audiovisual, de Cidadania Cultural, de Políticas Culturais, da Identidade e Diversidade Cultural, de Fomento e Incentivo à Cultura, da (recém criada) Economia Criativa e a secretaria Executiva. Isso sem contar os repasses aos estados e municípios.
Enfim, o Procultura é muito importante para o país. Mas não podemos acreditar que ele resolverá a maior parte dos problemas do setor cultura brasileiro. Ele deixará lacunas que precisaremos preencher com nossas outras bandeiras de luta.
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