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“Banda larga para todos”

Conheça as idéias e propostas do hippie cibernético Cláudio Prado, o responsável pela Cultura Digital no MinC. Ele propõe acesso a banda larga gratuita para todo o Brasil

Cláudio Prado é um transgressor, no melhor sentido da palavra. No Ministério ele age por fora da burocracia. Na sociedade civil ele retoma o encontro do movimento político com o social.

Prado morou em Londres de 1965 a 1971, quando mergulhou no mundo da contra-cultura, convivendo com as primeiras experiências de mídia alternativa, rádios piratas, festivais de rock, que eram os territórios libertários. Ali conheceu Gilberto Gil e Caetano Veloso, durante o exílio. De volta ao Brasil, produziu gente como Mutantes e Novos Bahianos.

Foi diretor-executivo da Pró-Rio 92, um conglomerado de ONGs, empresas e sindicatos, que buscavam trazer para o evento uma visão mais ampla da questão ambiental.

Prado consegue dar vida ao que André Martinez define como Sociedade Civil Articulada. A conjugação de diferentes relógios da sociedade: Estado, Sociedade Civil e mercado, para dar cabo de uma das mais ousadas frentes programáticas do MinC e até do Governo Federal como um todo.

Acompanhe esse bate-papo realizado em seu apartamento, um bunker cibernético na cidade de São Paulo.

Salto do século 19 ao século 21

Leonardo Brant – Tem algumas afirmações suas que são provocadoras e que me fazem pensar muito a respeito da cultura digital como uma plataforma de política pública de cultura. A primeira é essa de que o Brasil pulou do século 19 para o século 21. Queria que você comentasse e dissesse como que a cultura digital entra nisso.

Cláudio Prado – Primeiramente a minha idéia não é de que o Brasil pulou, mas de que tem a possibilidade de pular. Essa é a colocação que eu tenho feito. Ela deriva de uma observação e de ter percebido, de ter visto isto acontecer. Não partiu de uma perspectiva teórica ou acadêmica. Ela é uma leitura do que eu vejo acontecer quando a gente coloca ferramentas digitais, ferramentas do século 21 na mão de pessoas que vivem numa realidade pré-industrial, pré-século 20.

LB – Que não estão inseridas na pós-modernidade, é isso?

CB – Que não estão inseridas nem na modernidade, esse é o lance. São pessoas que estão com o desemprego como horizonte, como situação definida, ou seja, século 19. Não existe emprego pra elas, não vai ter, sabem que não vai ter, não têm essa expectativa e nem sequer seguridade social. São pessoas, da realidade pré-industrial.

Nas periferias brasileiras, nos lugares onde não existe essa possibilidade é que as pessoas entendem o ciberespaço. Quando entendem o upload antes de entender o download, quando entendem novos modelos de licença antes de ter ouvido falar em copyright. Quando vêem coisas que algumas pessoas fizeram, quando ouvem as histórias do Benegão, que começou ganhar dinheiro sem entrar numa gravadora, disponibilizando de graça sua música e por isso começou a circular e tocar na Europa, ficando conhecido, interessado e nunca, atirando para metodologias do século 20, mas sim para novos modelos de gestão do século 21.

Essas pessoas entendem com uma rapidez enorme e já saem direto raciocinando, pensando com oxigênio novo, com novas dimensões, novas idéias, novo tesão e com pique de fazer as coisas. Por isso eu chamo isso de “sevirismo”, ou seja, a condição de se virar. Essas novas tecnologias desencadeiam processos de sevirismo nas pessoas que vão resultar, eu tenho certeza, em novas formas das populações das periferias brasileiras encontrarem outros modelos de organização financeira. Isso já é visível pontualmente. Nós não temos isso devidamente documentado por que é um processo experimental que está começando. Mas estou com absoluta certeza, pois eu estou vendo isso acontecer de forma muito clara debaixo do meu nariz.

O Brasil vai ser o país do “open businnes”, onde novas formas de gestão e maneiras de se fazer as coisas, nascem da criatividade brasileira. Nascem da facilidade que o cara tem de pular direto para um novo raciocínio, um novo paradigma, porque ele não tem o peso cultural do século 20 nas suas costas. Não tem que desconstruir a cultura do século 20. Século 20, que tem a idéia de progresso como paradigma de todas as suas ações, que esquece a questão ambiental, que propõe a todos os países do mundo uma homogeneidade da felicidade baseada na concepção de primeiro mundo.

Na Dinamarca, na Alemanha, na Áustria, enfim, em qualquer lugar na Europa, imaginar um mundo sem emprego e sem seguridade social, leva duas gerações para que as pessoas comecem a se acostumar com a idéia. Exceto por alguns malucos que são dissidentes, visionários, artistas e que tem em todos os lugares. E estas pessoas olham hoje para nós no Brasil. Porque perceberam que fazemos na prática uma política digital numa escala, que nos dá a possibilidade de saltar por cima do mundo industrial já chegando a soluçõe sem ter que cair no beco sem saída do século 20. Isso só existe no Brasil. Não é porque o Brasil é pobre, mas porque tem lugares pobres no mundo onde nada está acontecendo. É por causa também da nossa miscigenação cultural, da mistura, da riqueza da diversidade cultural que esta miscigenação provocou. Deriva também do fato de que o Brasil é também um país que vive a realidade industrial bem implantada no século 20, quer dizer, essa idéia de Brasil, Bélgica e Índia ao mesmo tempo, de primeiro mundo e terceiro mundo ao mesmo tempo. O substrato que tem por trás de tudo isso gera uma possibilidade única e inédita. E isso tem sido reconhecido no mundo. As pessoas começam a olhar para o Brasil como o lugar de onde o oxigênio novo pode nascer por causa dessas coisas. E também pelo fato do Brasil ter um presidente operário e um ministro como Gilberto Gil, que diz coisas que ministro nenhum no mundo está dizendo.

Analfabetismo e política pública de banda larga

Leonardo Brant – É verdade. Tem uma outra colocação sua que me pareceu bem interessante para resolver um dos problemas crônicos da nossa política cultural: Lidamos com um país de iletrados e de pessoas cujo índice de educação formal não afere os resultados esperados, um país que tem uma tradição oral muito grande. Dentro desse cenário gostaria de recolocar sua própria provocação que é essa coisa de que a escrita é uma imposição do mundo colonialista. Gostaria que você colocasse essa sua própria provocação numa perspectiva de política pública. Como é que a gente pode utilizar esse potencial?

Cláudio Prado – Você está me propondo algo complicado. Mas primeiro, a coisa em si: A idéia é essa, de que a escrita e a leitura foram uma das coisas mais tiranas impostas pelo colonialismo, pelo imperialismo. Numa tacada só elimina toda possibilidade de sabedoria não escrita. Em relação às Américas e a África, onde não existia a escrita tal como se concebe hoje, os analfabetos correspondiam a 100% das pessoas. Milhões de pessoas que viviam dentro de uma tradição de conhecimento oral, passaram a serem encaradas como párias sociais, ou seja, pessoas incapazes e burras. As pessoas analfabetas hoje no mundo se consideram burras. Esta é a realidade destes dois continentes inteiros, onde a escrita não existia. A África negra, a África subsaariana e as Américas inteiras são lugares onde existia uma sabedoria monumental e gigantesca. A profundidade da sabedoria africana é inacreditável, mas é uma sabedoria oral onde o colonialismo europeu balizou o mundo “civilizado” pela escrita.

Então, o que eu disse na verdade é que a Internet como ferramenta de conhecimento não é um espaço limitado a letrados. Eu tenho um neto de quatro anos analfabeto que usa a Internet e descobre coisas incríveis. Aliás, aprendeu a ler e a escrever porque ficou interessado em coisas que ninguém mais vai precisar ensinar ele, pois a Internet deu conta. Ele vai lá, pergunta e acaba se virando sozinho com essa história de ler e escrever. Ouve músicas, joga on line, diverte-se e aprende rapidinho. É estimulado a ler e a escrever porque vê os irmãos e primos baterem papo nos chats. A internet, em tese, acaba com a necessidade do professor que alfabetiza. Acabou o “ba be bi bo bu”. A internet viabilizou de forma fantástica o construtivismo de Paulo Freire. E não precisa de professor. Mas para além desta questão do analfabeto, o desdobramento dessa reflexão é que a Internet possibilitaria efetivamente que houvesse trocas de conhecimento, de cultura, sabedoria, e tradição oral que são tão interessantes e tão qualitativamente importantes quanto o conhecimento escrito. Eventualmente até mais interessantes porque o tom de voz muda muito aquilo que você quer dizer em relação ao que você lê. A Internet possibilitaria a volta do hábito de ouvir histórias. Então você tem na tradição oral possibilidades extremamente sofisticadas que foram perdidas e que a Internet pode trazer de volta. Fora a música que não tem nada a ver com ler.

Agora, como traduzir isso para a política pública? Parece-me que no fundo, a única coisa que eu consigo ver hoje que é a base que dá sustentação a se caminhar nessa direção, é uma política pública de banda larga, ou seja, considerar acesso de banda larga como estratégico no sentido da democratização do acesso ao conhecimento e às possibilidades orais, escritas, seja lá qual forem. É importante também elaborar uma metodologia de como usar plenamente as possibilidades da interatividade multimídia da internet. Enfim, seria avançar na experiência que o Cultura Digital do MinC está fazendo, colocando estas ferramentas como viabilização e valorização das culturas locais.

LB – Ou seja, em vez de “biblioteca para todos”, “banda larga para todos”?

CP – Isso! Banda larga, nas bibliotecas também! Na verdade, banda larga e novos modelos de licença, já que você mencionou a biblioteca. Porque a biblioteca está presa a um outro paradigma, que é o paradigma do copyright, da proibição da cópia. Os modelos digitais trazem à tona uma contradição incrível: você pode ir numa biblioteca, ler, aprender, decorar o livro e falar dele em qualquer lugar, agora, se você copiar é crime. Se você hoje aprender uma coisa, decorá-la, repeti-la e eu ouvi-la e mudar minhas idéias a partir de uma coisa que eu ouvi, está tudo tranqüilo, agora, se eu escrever, se eu copiar e publicar isso que eu decorei, eu estou cometendo um crime. Enfim, existe uma coisa totalmente maluca que o digital traz à tona nessa questão do direito autoral que é incrível.

Direito Autoral

Leonardo Brant – Tem uma outra frase sua que diz: “Se tivesse direito autoral em cima do alfabeto, como é que seria?”.

Cláudio Prado – Tem duas ou três coisas que eu falo em direção à compreensão disso. Se a idéia do direito autoral e da patente fosse inventada há dois mil anos atrás, o conhecimento teria estancado ali, pois assim, o ângulo reto seria da família Pitágoras e ele seria o primeiro Bil Gattes talvez. A letra “A” seria de alguém, a letra “B” de um outro e aí para você escrever uma palavra, precisaria negociar a cada vez que fosse usar uma letra, um ângulo reto ou qualquer outra coisa. Então, costumo dizer que o digital e as novas formas de criar, produzir e distribuir conhecimento, trazem à luz o absurdo do mercado, que só vê conhecimento como “propriedade intelectual”. O digital provoca a necessidade de se rever tudo isso. É preciso flexibilizar os modelos de licenças e conscientizar as populações sobre estas questões, sobretudo os artistas e intelectuais que estão presos à idéia que o modelo copyright (todos direitos reservados) é uma coisa que os beneficia, quando na realidade está beneficiando as gravadoras e as editoras em detrimento ao direito constitucional das populações de ter acesso ao conhecimento.

O digital tem uma outra característica. O mundo digital avançou por cima das regulações. Isso só existiu porque o mundo das regulações (os governos) e o mundo corporativo (o mercado) não perceberam, não acreditaram na sua existência. O sistema só percebeu a Internet depois que ela já era uma realidade, quando já era a maior coisa do mundo das comunicações. Hoje a regulação corre atrás de regular algo que já existe. Inverteu a regra do jogo de uma forma extremamente interessante de se olhar. Parece-me uma tarefa impossível sobretudo por causa da velocidade com que as tecnologias digitais avançam. Em Tunis, na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação há um ano atrás se discutiu sobre a governança da Internet. Foi impossível chegar a um acordo e resolveu-se criar uma conferência permanente de 5 anos para estudar a questão. Agora, em novembro 2006 foi feita a primeira reunião em Atenas. Mas, neste ano que passou, a internet já é totalmente diferente do que era a um ano atrás. Ou seja, a velocidade em que anda as evoluções das tecnologias digitais é infinitamente maior do que aquela em que anda o mundo regulatório. E quando as pessoas começam a querer pensar em regular a Internet, na hora que eles chegarem minimamente a uma conclusão, a Internet, tal qual existe agora, não vai mais fazer sentido nenhum. É como se quisessem ter regulado o fax pelo fato de que ele muda os correios ou bagunça a vida de todo mundo. Se alguém tivesse pensado em regular o fax, estariam discutindo até hoje e o fax já não existe mais. Ninguém teria chegado à conclusão nenhuma. Estamos num processo de mudança de todos os paradigmas da humanidade e o digital expressa, ressalta e sobretudo acelera esse processo de forma radical.

LB – Num futuro próximo, eu penso essa coisa de que os jovens que criaram o Napster serão considerados Galileu Galilei. Como existia em sua época toda uma apropriação de poder sobre o fato de a Terra ser plana e se ameaçou todo esse poder quando se descobriu que a Terra é redonda e não mais o centro do mundo. Não to falando do Naspter em si, mas da Internet…

CP – A revolução das tecnologias digitais é uma revolução ética. Uma revolução que deriva do pensamento de gente que pensou na questão pública e não no seu bolso. É por isso que considero Tim Berners Lee, criador da Word Wide Web, o cara do século. Ele viabilizou a internet pensando no delírio – que o sistema não viu, não acreditou – de todo mundo se comunicando com todo mundo. Utopia pura e maravilhosa.

Orçamento Participativo Digital

Leonardo Brant – E como você vê isso no Brasil e no trabalho que vocês estão fazendo no MinC?

Cláudio Prado – Essa questão das novas formas de se virar no século 21, do mundo da regulação, do mundo político, das políticas públicas, passa por uma coisa, onde de novo, nós no Brasil temos uma vantagem extraordinária. Esse é um outro ponto que eu queria dizer. Aqui as leis não são implementáveis como elas são na Europa. Por não haver sistema de controle e, por no Brasil existirem leis que pegam e leis que não pegam. Imagina na Europa, leis que pegam e que não pegam… Isso não existe lá, os caras não raciocinam por aí. Por tudo isso também, aqui, essa possibilidade do novo surgir é muito mais rica, muito mais densa, muito mais interessante nessa nova concepção de novas formas de como lidar com isso. Mas temos também grandes contradições: Por um lado temos as populações periféricas que entendem rapidamente e começam a se virar de forma inovadora e por outro alguns setores extremamente retrógrados. Quem entende ou não entende o novo paradigma é sempre um mistério. Tem gente da direita e da esquerda que entende e tem também gente de direita e da esquerda que não entende. Eu tenho um exemplo que eu sempre uso: Uma das grandes invenções do PT e pelo qual o PT é reconhecido no mundo todo é o Orçamento Participativo. Uma puta sacada do PT e, no entanto, nós que lidamos com o digital, com a internet, temos a convicção de que a vocação do Orçamento Participativo é ser digital. Orçamento Participativo digital na internet seria uma ferramenta extraordinária de mudança, onde as pessoas poderiam efetivamente entrar numa outra escala e não depender de reuniões partidárias. Temos a certeza que o grau de liberdade e o grau de possibilidades que um processo desse bem feito pela internet seria extremamente revolucionário.

Acho que o PT não percebe e não descobre isso porque no fundo no fundo, o PT é feito de políticos antigos que ainda detém o poder de segredos na gaveta. O Gil diz que o PT é um partido político demais, que deveria ser mais cultural.

Na verdade, a questão revolucionária proposta pela internet é a disponibilização plena e aberta das informações. E liderar processos onde todos possuem todas as informações é algo que precisa de novos políticos. Poucos políticos entendem isso e muitos que entendem não sabem lidar com estas circunstâncias. Você joga com as informações abertas. Você joga um jogo onde a meritocracia funciona, não é quem sabe mais que tá mais informado é todo mundo sabendo tudo, que faz o jogo ficar mais interessante, faz você ter possibilidades mais ricas e criativas. Isso não elimina lideranças, e nem a criatividade. Não elimina pessoas que avançam, mas muda radicalmente a regra do jogo, torna o jogo muito mais democrático, totalmente diferente. O que se espera do governo do PT, o que se espera do governo do Lula é um jogo totalmente diferente que nunca aconteceu. E esse jogo totalmente diferente não sairá jamais da mesa do ministro das finanças, da economia. O novo, a meu ver está contido nesta experimentação que estamos fazendo ao levar as populações das periferias brasileiras os meios de produção do século 21, o século da Informação. Isso é marxismo puro: apropriação dos meios de produção. Brinco muito ao dizer que Marx, hoje, não seria marxista nunca, seria digital! Porque o digital permite, em tese, pela primeira vez na história da humanidade que os meios de produção sejam democraticamente apropriados pela população.

Fizemos no primeiro mandato do presidente Lula um projeto que podemos chamar de experimental de grande sucesso. Temos agora no segundo mandato que levá-lo a uma política pública. Mas temos dificuldades que isso seja entendido pelo governo como um todo. Pessoalmente, estou convencido que é daqui que saem as mudanças que o povo espera do Presidente Lula. Este jogo só sairá quando o governo entender o papel do Ministério da Cultura. Afinal Cultura + Natura é tudo. A política tem que se entender como processo cultural. É difícil, mas temos esperanças.

Cultura Digital: Um novo paradigma para a educação

Leonardo Brant – A nossa política ditada pela economia tenta transformar o Brasil. A nossa agenda política econômica toda é baseada no “precisamos transformar o Brasil num país europeu”, ou seja, precisamos crescer, a economia precisa crescer. Até a pauta da educação é “precisamos qualificar mão de obra”, quando a gente tem toda uma possibilidade de inverter essa agenda e transformar isso numa agenda mais humana. Gostaria de saber como é que a cultura digital colabora com esse processo.

Cláudio Prado – Então, o digital traz possibilidades. Depende de como ele é assimilado, de como o sistema e os governos assimilam. Olha nossa realidade: o Ministério da Cultura briga pra chegar a 1% do orçamento da União, e talvez não consiga. Alguns acham fantástico ter chegado a 0,6 porque saímos de 0,2. Com um pedacinho disso, o Cultura Digital conseguiu promover grandes mudanças, de experiências pontuais extremamente interessantes. Essa nova possibilidade de compreensão do novo paradigma pós-industrial que conseguimos levar às periferias é o que eu espero e imagino que a gente consiga mostrar para o governo e para as pessoas que não entenderam e que tem poder de tomada de decisão. Temos como demonstrar isso nos Pontos de Cultura que se apropriaram de forma autônoma da cultura digital. Podemos hoje provar que essas coisas são possíveis. Que existe uma revolução que não tem que seguir os passos lineares de preencher o gap do século 19 para o século 21 através de uma passagem industrial, ou seja, de você ter que se industrializar como a Europa fez, como os Estados Unidos fez, como o primeiro mundo fez. Hoje eles dependem do terceiro mundo para obter recursos naturais e mão de obra barata para poder tocar a vida industrial deles. Então, acho fundamental que o nosso governo se aproprie desta nossa experiência de Cultura Digital como alternativa para soluções do mundo pós-industrial. Espero que nos próximos quatro anos possamos conseguir isso.

Tinha uma coisa sobre escola que você me perguntou antes que esqueci de falar. O sistema escolar, a estrutura da escola, é uma das mais retrógradas e das mais complicadas de entrar com conceitos novos. Não faz mais sentido hoje o professor como detentor de conhecimentos. Você imagina se todos os alunos tiverem um google na frente deles e o professor lá na frente diz uma coisa, e o aluno “dá um google” e diz “não é bem assim, professor, há controvérsias, há pelo menos gente pensado diferente de você, mesmo ao contrário, e eu concordo com esse cara aqui, ao invés do que você está dizendo”. O professor que temos não está preparado para isso. O papel dele tem que ser totalmente diferente, muito mais como um cara que anda paralelo aos alunos do que um cara que fica em sua frente e repassa conhecimento. Tem que participar de um processo de busca de novos caminhos, novas possibilidades e dar ao aluno a possibilidade de produzir alguma coisa inteligente, a qualquer momento. Hoje na universidade, você só pode ter um pensamento novo depois de ser doutor, porque até então você tem que basear seu pensamento naquilo que alguém escreveu. Você tem que dizer “segundo fulano de tal…”. Você tem que saber o que o cara pensou e fundamentar em cima de alguém que já pensou alguma coisa. E hoje no mundo digital essas coisas não existem. O novo paradigma não nasce do velho paradigma. Então, como isso tudo vai entrar na escola eu realmente não sei. Nós estamos entrando nisso agora e pesquisando e pensando isso. Estamos trabalhando nisso com o Nelson Pretto, Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, que é a pessoa no Brasil que mais pesquisa a cultura digital nas escolas.

Economia e autonomia

Leonardo Brant – Você consegue definir alguns pontos da política de cultura digital? Quais são os elementos que precisam ser implantados pra chegarmos a essa realidade?

Cláudio Prado – O kit multimídia em software livre é uma célula revolucionária do século 21. Já testamos isso. Sabemos que autonomia em tecnologia é possível. Essa é a experiência que a gente teve esse ano, ou seja, o modo de implantar autonomia. A metodologia que nós estamos desenvolvendo é a metodologia da compreensão de que o ciberespaço é um lugar real é o centro do mundo, no sentido de que você não precisa mais ir para o eixo Rio – São Paulo “para ser alguém na vida”. No ciberespaço, se você estiver conectado em banda larga e com equipamento multimídia livre, desloca o centro do mundo para um lugar acessível a partir de onde você está. Torna possível o glocal que é um conceito que se discute muito hoje, mas que não existe na prática. Nossa experiência mostra que o uso multimídia livre da internet possibilita a reversão da morte da diversidade cultural, coisa que parecia inevitável no paradigma analógico, o paradigma do consumo da era Industrial.

Quando afirmo que é possível este salto do mundo pré-industrial para o mundo pós-industrial, estou falando que nossa metodologia de apropriação de tecnologia digital possibilita que as pessoas entrem diretamente na web 2.0, um conceito de ponta. A web 1.0 é sistema se apropriando da internet como sendo um passo no progresso da era Industrial. “Vou vender mais, vou fazer mais, vou anunciar, vou fazer coisas”. A web 1.0 nasceu do progresso, do mundo industrial. Mas na realidade as tecnologias digitais se revelaram uma revolução que saiu do controle do mundo industrial. A convergência das tecnologias digitais fez com que um telefone celular fosse ao mesmo tempo uma câmera de foto, uma câmera de vídeo, um sistema de som e vídeo capaz de armazenar milhares de horas de música e filmes, uma TV, acesso à Internet, um organizador de vida pessoal extremamente sofisticado, além de ser também um telefone. Tudo isso num único aparelho cujo custo está abaixando de forma inacreditável a ponto de se aproximar de zero. Este fenômeno bagunçou a realidade industrial, já que a 5 anos atrás, cada uma destas coisas que o celular faz era um aparelho diferente que custava em média US$500 cada um. A web 1.0 bagunçou o mundo industrial pois foi compreendida como uma ferramenta do paradigma industrial. A web 2.0 é o uso pleno da web na sua compreensão plena que viabiliza o aceso democrático às informações e viabiliza uma interatividade em texto, imagens gráficas, som (falas e musica), vídeo, e desenvolvimento colaborativo de software e projetos. Possibilita através de um estúdio multimídia a oxigenação dos repertórios de pessoas e grupos. Constrói a possibilidade de que as pessoas encontrem seus pares. Que haja a troca de experiências congêneres e experiências diversificadas. Viabiliza a criatividade, cria possibilidades novas de se virar (o sevirismo) e de novas formas de gerir projetos, idéias e mesmo produtos, numa nova compreensão do que seria o mercado, uma nova compreensão da realidade que vai pra além do mundo industrial.

Caminhamos de novo para o mundo das trocas, onde se elimina o intermediário que não agrega valor, o intermediário que simplesmente compra aqui e vende ali. A web 2.0 nos permite pensar num mundo p2p (peer-to-peer) que vai além da troca de arquivos. Isso me parece uma das reflexões mais interessantes que a gente pode fazer. O que o mundo industrial faz hoje é pensar em preço, preço, preço, baixar preço, produzir em grande escala, massificar gostos. Porque aí, produzindo em grande escala você precisa de todo mundo querendo a mesma coisa e isso reduz o ser humano a um escravo do mercado. A qualidade foi abandonada. A massificação, a produção em enormes quantidades fez com que se abandonasse a qualidade. E o que é “a qualidade”? Qualidade é o feito à mão. O produto artesanal. Feito com carinho, feito com esmero. A massificação eliminou estes fazeres. E a tecnologia acrescentou à crise dos últimos anos, o desemprego massificado. Mas quem são estes desempregados? São em muitos casos pessoas capazes de produzir qualidade. Produzir à mão. “Feito à mão” na Europa é sinônimo de grande qualidade e de preço altíssimo de coisas só encontradas em butiques. O que estamos descobrindo é que através do kit multimídia milhares de criadores de produtos materiais e imateriais de qualidade podem se viabilizar encontrando através da internet pessoas que estão a fim de suas produções e isso sem a intermediação espúria.

A internet permite, em tese, a volta à manufatura. Na Inglaterra no começo da industrialização, o sapateiro tinha o molde do seu pé e fazia o sapato à mão. Hoje, um sapato desses, custa uma fortuna. Agora, existem centenas de pessoas que são capazes de fazer um sapato desses, que são capazes de fazer uma camisa, que são capazes de produzir um artefato feito com carinho, com cuidado e bem feito. O mesmo que custa uma fortuna na boutique. Esse artesão poderia vender sua criação, uma coisa que é o supra-sumo da qualidade, por um preço que é muito mais barato do que o preço da boutique. Isso permitiria a esse artesão ganhar muito mais do que se ele estivesse empregado trabalhando numa empresa. Então, essa é a possibilidade que a Internet traz. Como o caso de uma bordadeira no meio de uma cidade escondida em Igarapé, Minas, – e aí é uma história real – da dona Selma que em três meses mudou a vida dela por ter começado a fazer bordados e publicou no flikcr (um fotolog como muitos que existem). Assim, as pessoas começaram a ver, a se interessar e a procurar os seus trabalhos. Agora, ao invés de ganhar vinte centavos pelas coisas que ela fazia, vende direto para as pessoas que estão interessadas. Ela vende por vinte, trinta reais e diz que pra ela este já é um valor justo. Uma camisa que, em São Paulo, você vai pagar quatrocentos, quinhentos reais, numa loja.

Demanda por qualidade existe. Existe a condição da produção dessa qualidade que está aí desempregada, com pessoas mendigando subempregos, sendo que elas poderiam estar produzindo, terem sua auto-estima elevada e produzindo coisas fantásticas. Esse é o mundo do open bussines, o mundo em que o Brasil pode mergulhar através do uso pleno da Web 2.0 que estamos implantando nas periferias brasileiras através do Cultura Digital do Ministério da Cultura. E nós já estamos fazendo experiências em escala que demonstram isso. Agora, respondendo à sua pergunta, o que falta é consolidar esta experiência nos próximos 4 anos, gerando um projeto autônomo, replicável e buscar maior compreensão destes novos conceitos no governo como um todo para transformar isso em política pública descentralizada. O que seria inédito no mundo.

Cultura Digital e Cultura Viva

Leonardo Brant – Hoje, a percepção que se tem do Cultura Digital é que ele é um projeto dentro dos Pontos de Cultura do programa Cultura Viva. Eu queria que você explicasse isso, essa relação do Cultura Digital com o Cultura Viva, porque me parece que são plataformas totalmente independentes, mas que tem momentos de intersecção.

Cláudio Prado – A dimensão prática do Cultura Digital é a implantação do kit multimídia em software livre nos Pontos de Cultura do programa Cultura Viva. A idéia de criar o kit e desta forma, por em prática as idéias do Cultura Digital, foi do Secretário de Projetos e Programas do MinC, Célio Turino.

O Ponto de Cultura sem o Cultura Digital me parece uma coisa muito menos interessante e o Cultura Digital sem o Ponto de Cultura também seria só uma boa teoria. Encontramos uma maneira de colocar em prática conceitos e idéias, dessas todas que nós estamos falando nos Pontos de Cultura, justamente isso que tornou essa experiência extremamente rica e extremamente interessante: a sinergia dessas duas coisas. Agora, o pensamento do Cultura Digital no MinC transcende o Cultura Viva, ele na verdade exige uma ação que deveria ser muito mais ampla: a ação de cultura digital do Ministério da Cultura como um todo… Na verdade, a cultura digital pensada a partir de um governo como um todo pressupõe levar estas discussões aos fóruns internacionais pela flexibilização das leis de direitos autorais, das atitudes em relação às questões de trabalho, de propriedade intelectual etc. E isso tem sido feito de forma intensa e mesmo agressiva com o Brasil assumindo uma liderança nessas questões.

Essa nova possibilidade, a cultura digital, pressupõe uma reflexão num sentido muito mais amplo de como é que o mundo vai lidar com o século 21. E como essas novas possibilidades estarão presentes nos fóruns internacionais, nas discussões, nas mudanças dos marcos legais, nas buscas de mudanças nos modelos regulatórios e entender toda essa enorme complexidade, entender como que governos vão poder gerir seus programas através de mecanismos digitais, trazendo essa discussão pra dentro do governo. Mas o que torna rico o que nós estamos fazendo é justamente que além dessas questões, estamos colocando em prática o kit multimídia, que é uma semente, que eu chamo de célula revolucionária do século 21, ou seja, é uma semente de um estúdio multimídia, plugado em banda larga, que dá possibilidade de que as articulações, produções e idéias locais se oxigenem. Primeiro porque existem as plataformas onde eles podem se comunicar com outras pessoas que estão pensando as mesmas coisas ou coisas diferentes. Possibilita que elas comecem a ver coisas que elas nunca puderam ver, porque o kit multimídia é a porta de entrada para o centro do mundo, o ciberespaço. Você descobre o que se está fazendo na Amazônia, no Japão etc.

LB – Mas qual a diferença desse projeto para o projeto, por exemplo, do governo Fernando Henrique, de municiar escolas públicas com equipamento digital, com microcomputadores? O que garante que esse kit não fique parado como nesta ação anterior?

CP – Autonomia. Esse é o grande pulo do gato da história. Todos os sistemas de inclusão digital que foram pensados anteriormente dependiam de dinheiro público permanente para a sua manutenção. Por isso, quando eu me refiro ao nosso programa, chamo de terceira geração da inclusão digital. Inclusão digital é uma expressão usada por muita gente, mas ela é confusa. Por isso a uso sempre nessa dimensão: a terceira geração. Só para explicar, a primeira geração é computador para pobre, “sem isso você não vai ser ninguém na vida”. É uma sacanagem que te empurraram pra fazer cursos. Aí você acha que vai conseguir um emprego e isso não acontece. A segunda geração é Internet, não mais computador. Internet com acesso em banda larga e software livre, já entendido na dimensão de que cada idéia, cada possibilidade, cada coisa que cada um pense, tem um software por trás dela que gera uma autonomia porque ele é de graça e porque permite liberdade. E a terceira geração é o estúdio multimídia que você pode interagir plenamente com todas as possibilidades da Internet. Então, o estúdio multimídia, que faz com que você possa trocar textos, trocar idéias, trocar voz, trocar imagens, trocar vídeos, trocar softwares. Isso te viabiliza e te enriquece a memória. Te enriquece de uma forma que você passa a ter repertórios novos de vídeos, de filmes, de músicas, de ver coisas que antes não eram acessíveis às populações das periferias. Permite também e, sobretudo que as pessoas disponibilizem suas criações materiais e imateriais. Permite trocar e oxigenar suas idéias ali de uma forma maravilhosa.

O Estúdio Livre que nós estamos construindo é um Youtubezinho brasileiro tupiniquim tropicalista, que permite aos Pontos de Cultura trocar suas informações, suas coisas, e poder baixá-las legalmente. Coisa que no You Tube, não podem fazer. Com esse enriquecimento de repertório de novas idéias, você cria a possibilidade de uma nova realidade local que é totalmente diferente dessas outras. Agora, tem um ponto que nos diferencia de todos os programas de inclusão digital e isso é uma diferença fundamental. Todos os programas de inclusão digital anteriores ao nosso dependiam, todos eles, de uma empresa terceirizada pra fazer manutenção dos computadores. Isso é impossível. Se você fizer qualquer conta que escale isso, ou seja, computador pra todo mundo e que precise de uma empresa terceirizada para dar manutenção, a cada vez que o computador der “um pau’, você inviabiliza qualquer programa numa escala pública. Não tem dinheiro pra isso, não vai existir nunca. Então, o nosso projeto pressupõe que cada Ponto de Cultura adquira autonomia de hardware e software. Nossas oficinas visam capacitar os pontos não só para serem autônomos, mas para replicar essa autonomia.

Sabemos que existem nas comunidades gente interessada em produzir o seus softwares e seus portais, e capazes de se tornarem autônomos em hardware, por isso nós trabalhamos com reciclagem de hardware, da metareciclagem, em transformar lixo digital em tecnologia de ponta, transmutar o lixo digital, que não é lixo. É, na real, uma obsolescência programada para você trocar seu computador a cada dois anos pra alimentar o mercado. Na verdade, não há necessidade disso. Os garotos e garotas dos Pontos de Cultura transformam o lixo digital em tecnologia de ponta. Eles reconstroem um computador, o reapropriam, o pintam e os levam para suas casas. Depois fazem uma antena wifi (sem fio) que dá acesso à internet a partir de um acesso público do seu Ponto de Cultura. Assim, ele “estica” com uma latinha de Nescau o sinal pra sua casa e então, tem internet em sua casa. Um gato digital legal. Com isso o garoto além de se transformar numa referência para seus familiares e colegas, elevando sua auto-estima se transforma em cidadão digital. Nasce neste momento a possibilidade de autonomia local que viabiliza, em tese, a inclusão digital. Essa questão da autonomia é fundamental.

LB – Em média, em quanto tempo vocês conseguem gerar essa condição de autonomia total num Ponto de Cultura?

CP – Olha, tem alguns Pontos de Cultura que quando nós chegamos lá, eles já eram autônomos. Existem alguns pontos que já são. Eu vou te citar um exemplo incrível, a Casa de Cultura Tainá. Quando eu cheguei lá, eles sabiam muito mais do que eu, eu aprendi muito mais lá do que ensinei. Eu aprendi a partir de prestar atenção no que acontecia na Casa de Cultura Tainá, que o modelo já estava lá, que eu não tinha que inventar nada. Eles já estavam sabendo, eles já tinham preocupações com isso, eles já estavam correndo atrás. Foram eles que me acharam, não eu que os achei. Então, o que nós fazemos é uma grande troca. Os moleques entendem, às vezes num clique, eles começam a fazer perguntas. Por exemplo, quando você chega num lugar que as pessoas nunca viram tecnologia, aparecem duas grandes barreiras fatais. Uma “é muito caro, eu não vou ter grana”, a outra “é muito difícil, eu não vou ter estudo”. Assim, a pessoa se considera um excluída de forma definitiva. Então, o que a gente faz? A gente chega com o computador e o desmonta na frente deles e depois monta de novo. Isso é uma operação muito simples, porque o computador é um lego, são apenas encaixes.

LB – Muito mais simples que mexer no motor de um carro?

CP – É realmente mais simples que mexer no motor de um carro. Claro que tem segredos que vão mais a fundo, mas ao fazer essa operação os garotos começam a fazer perguntas. 60% deles, em média, fazem perguntas e depois da terceira pergunta eu considero que o cara está incluído porque ele não pára mais de fazer perguntas e aí, a velocidade com que alguns deles avançam no conhecimento é espantosa. Código é linguagem, e muitos começam a entender esta linguagem. E eles começam a fazer perguntas sobre código, e daí a pouco eles começam a codar, eles começam a mexer com coisas a partir de uma informação que eu não sei de onde vem. O tempo, a questão cultural e a maneira tradicional de olhar pro conhecimento não dão conta de explicar isso. Isso nós estamos constatando, isso não é teoria, isso é constatação na prática.

LB – O que estão fazendo seria aquela questão de resgatar o alfabeto? Esse código seria uma nova forma de alfabeto?

CP – Esse código é uma linguagem, codar é linguagem, uma forma de alfabeto, de você construir, de você ter domínio sobre a máquina, dela fazer o que você quer que ela faça pra você e não você ser escravo de um software proprietário que custa uma fortuna, que te obriga a aprender a fazer as coisas do jeito que a máquina quer que você faça. É uma inversão de valores. Então, o nosso processo, a diferença dos programas anteriores que você disse aí do Fernando Henrique, ou seja lá quem for, anteriores aos nossos, existem enquanto o Estado for o “paizão” da história e manter, pingar dinheiro aí, dar a máquina e fazer manutenção – o que transforma as pessoas em consumidores. O nosso programa identifica na comunidade as pessoas que possam ter esta autonomia. Nós queremos gerar indivíduos autônomos em tecnologia digital, em processo de gestão, em processo de como construir e por se responsabilizar pela replicação desta autonomia. Essa é a bola de neve.

Tv Digital e Cultura Digital

Leonardo Brant – Você falou em YouTube. Eu queria te perguntar o seguinte: Qual que é o projeto do Cultura Digital pra convergir com a TV Digital?

Cláudio Prado – Em tese, cada kit multimídia, ou seja, cada Ponto de Cultura tem um núcleo de produção de audiovisual que vai além do audiovisual, vai para a possibilidade de disponibilizar informação de manufaturas, de produção material e produção imaterial, ou seja, vai além do audiovisual, vai além da coisa que trafega pela Internet. A informação do artesanato, a informação da costureira etc. Esse estúdio de produção de audiovisual e de informação sobre o que acontece em cada região é a base de uma estação de rádio local e a base de uma estação de TV local. O grande barato é que, além disso, se você imaginar todos os estúdios disponibilizados na Internet, faz com que, se eu tiver uma possibilidade de botar isso no ar, tenha à minha disposição um repertório riquíssimo formado pela rede dos Pontos de Cultura que estão produzindo e disponibilizando suas músicas e suas falas. Ou seja, eu enriqueço de uma forma fantástica a qualidade daquilo que eu posso botar numa rádio local, invertendo o paradigma da total falta de qualidade, hoje, das rádios locais. Eu vou até ignorar o fato das licenças espúrias, do fato das rádios comunitárias terem sido outorgadas para gente que não tem nada a ver com a comunidade. Imagine que esses problemas não existem… Porque isso é um cancro do sistema, foi uma ladroagem durante muitos anos, de se dar rádios comunitárias pra partidos políticos, pra políticos, pra igrejas, pra sindicatos etc, que não tem nada a ver com o comunitário, que agem conforme seus interesses pessoais privados. Imagine uma rádio comunitária legítima que está lá a fim de fazer as coisas. Eles não têm repertório, eles não têm dinheiro pra ter um repertório de qualidade, então eles tocam sempre a mesma coisa, tocam o que vende, o que o mercado propõe, as coisas massificadas. E botam gente lá do pedaço falando. Quando é lugar pequeno, tem vinte pessoas que já falaram duzentas vezes na rádio, que dizem a mesma coisa e tal. Hoje, com a Internet você tem a possibilidade de ter uma coisa com uma riqueza extraordinária, de sofisticação extraordinária, disponível para a rádio onde eventualmente só tem cinqüenta pessoas para ouvir. Essas cinqüenta pessoas poderiam ter acesso a coisas extremamente sofisticadas, que só se encontram, hoje, nas grandes cidades.

Então, nós trabalhamos, dentro dessa realidade da TV Digital e da nossa realidade lá no governo, buscamos discutir o que é uma rádio e uma TV digital local. Trazemos duas discussões, “o que é uma TV e uma rádio digital local” e “o que é uma rádio e TV Digital pública, conjugadas, sinergizadas com a Internet.”. O que é isso? E eu acho que isso deveria ser objeto no segundo mandato do governo Lula, de um esforço para criar as rádios digitais locais com regulação e outorgas através de novas lógicas que as tecnologias digitais permitem. Acho que esta questão poderia ser municipalizada. Que se discuta a possibilidade do espectro local ser muniocipalizado e discutido com a população.

LB – Você não acha que estamos mais prontos hoje pra fazer uma discussão pública e aberta, depois de tudo que a gente já passou, Ancinav?

CP – Acho que tem que haver essa discussão sim. E acho que a outra dimensão é a TV pública, o que é uma TV pública digital? Então, quando se diz que o modelo de negócios da TV digital seria o mesmo modelo de negócios da TV analógica, isso aí é uma balela absurda, porque obviamente a rádio e tv digital obedecem a lógicas totalmente diferentes que as rádios e tvs analógicas e que, portanto, o modelo de negócio é diferente. A TV digital torna possível uma interatividade que não é só compra e venda. Uma interatividade que pressupõe a possibilidade de uma cidadania digital pró-ativa. Você tem realmente uma interatividade, uma possibilidade de articulação e de uma nova dimensão de troca que é possível fazer se tiver uma TV e uma rádio conjugada com a internet, ou seja, a rádio local não precisa ser provinciana, a rádio local pode estar extremamente conectada e informada com as coisas mais de vanguarda e mais de ponta que possam existir e ao mesmo tempo, trazer as questões locais para serem discutidas, arejadas e oxigenadas mesmo por essa amplitude. E é aí que está a revolução. Eu acredito que a diversidade cultural tem no digital a sua possibilidade de renascimento, porque é hoje uma espécie em extinção.

LB – Usar a capacidade de acesso que não se tinha antes?

CP – Que não se tinha nem nos grandes centros! E com a Cultura Digital institucionalizada pelo governo, você poderia ter isso em qualquer lugar.

Leonardo Brant

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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  • Estou bastante imprecionado com o que acabei de ler. Pessoas como o Leonardo são visionárias de uma realidade a caminho.
    Sou entre outras coisas, escritor.Desenvolvo no Recife um trabalho de estímulo à leitura nas escolas carentes. Vejo com muita clareza o potencial das crianças e jovens da periferia. Autonomia é a palavra. Parabéns a toda a equipe envolvida.

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