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Beleza da imperfeição

Para muitos tentar registrar a verdade em um filme já é em si um ato de ficção.  Afinal, o autor escolherá um determinado ângulo para mostrar a realidade e na edição vai excluir cenas ou momentos que por alguma razão pessoal considera irrelevantes. De qualquer modo não se pode negar que o documentário é um instrumento eficaz para se investigar a realidade.

Nesse caso, pode o documentário ser considerado como uma fonte de pesquisa e ensino da história? Segundo Umbelino Brasil sim, afinal ele pode significar para realizadores, estudiosos e espectadores uma prova da “verdade”, uma vez que trabalha diretamente com imagens extraídas da vida real. “É comum se imaginar o filme documentário como a expressão legítima do real ou se crer que ele está mais próximo da verdade do que os filmes de ficção”.

Verdade ou ficção induzida, registro histórico ou recorte da realidade com fins estéticos, o documentário tem sido produzido intensamente nos últimos anos no Espírito Santo com resultados por vezes surpreendentes.

Um grande exemplo seria a Mostra Capixaba de Audiovisual abrangendo 40 municípios do Espírito Santo e três temas – Ambiental, Rural e Etnográfica – que tem estimulado a produção de documentários como forma de reflexão sobre a vida e de exercício pleno de uma linguagem quase onipresente no cotidiano de todos. Buscar entender o seu ambiente através de imagens torna-se assim uma maneira eficaz de levar o jovem a participar ativamente da construção de imaginários culturais fundamentados em sua própria existência.

A mostra mais recente teve lugar na cidade de Pancas, envolvendo 13 municípios da região, e levou o público a se confrontar com situações e figuras humanas que se, de um lado quase passam despercebidas, de outro, evidenciam a importância das respectivas experiências individuais na formação de cada comunidade, e o significado social de seus depoimentos. É como um espelho que reflete cada habitante do lugar naquilo que possuem de único e, ao mesmo tempo, de universal.

Ao longo dos últimos sete anos as mostras totalizam mais de oitenta documentários produzidos, que abordam vários aspectos de nossa formação cultural.  Um rico painel de pontos de vista diversos acerca de peculiaridades regionais, fatos  e trajetórias pessoais que compõem o cotidiano de inúmeros habitantes.  Nesse sentido podemos dizer que dispomos de uma ampla fonte de pesquisa antropológica, histórica e artística acerca dos modos de vida de nosso Estado.

O reconhecido documentarista Eduardo Coutinho afirmou certa vez que o documentário “não tem que informar, educar, não é jornalismo; ele mostra maneiras de se ver o mundo”. Em recente entrevista ressaltou: “O que me interessa é aquilo que não sou eu, ou aquilo que não sei”. Ao se encontrar com seus personagens anônimos – pessoas a serem entrevistadas “o interesse está no que resulta precário, incompleto, parcial, que não diz tudo porque não pode dizer tudo. É a busca pelo belo que se revela na imperfeição humana”.

Talvez este seja de fato um caminho de uma possível interpretação artística do documentário: captar a beleza da imperfeição que se manifesta na vida das pessoas e nas situações comuns, na singularidade do que nos distingue e nos identifica, e nos faz seres representativos de nossa espécie.

Erlon José Paschoal

Gestor Cultural, diretor de teatro, dramaturgo e tradutor. Foi gerente na Secretaria de Políticas Culturais do MinC e é sub-secretário da cultura do Espírito Santo.

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