Cinema do Rio de Janeiro ganha novos ares

O encontro que vem se desenhando nos cinemas brasileiros vai reunir, de hoje até setembro, um aposentado que gosta de caminhar, um grupo de adolescentes para quem a fantasia é uma porta de descobertas, uma atriz que divulga produtos na rua enquanto espera uma oportunidade num filme e um misterioso triângulo amoroso formado por jornalistas.

São personagens sem relação direta uns com os outros, mas cujos pontos em comum alimentam a percepção de que novos ares estão surgindo no cinema do Rio. Com eles e seus diretores – Eryk Rocha, Felipe Bragança e Marina Meliande, Gustavo Pizzi e Eduardo Vaisman -, a ficção carioca vive um momento de criatividade e renovação.

O que aproxima os filmes são o Rio como cenário e o risco como regra, ambos elementos presentes em “Transeunte”, de Rocha, que estreia hoje; “A alegria”, de Bragança e Marina, marcado para o dia 19; “Riscado”, de Pizzi, previsto para este mês, mas ainda sem data definida; e “180°”, de Vaisman, agendado para 16 de setembro. A criatividade do grupo passa pelos temas abordados.

Questões como violência e conflito de classes, ou gêneros como a comédia influenciada pela linguagem de TV, que balizaram boa parte da produção carioca recente, até podem surgir em uma ou outra cena, mas definitivamente não servem para delimitar o palco em que atuam estes cineastas. Os estilos, felizmente, são distintos, ousados, sem apelar para os velhos clichês da paisagem carioca, mas também sem renegar a cidade. Cada um deles conta uma história no Rio de forma independente, com toques autorais.

Mas o mecanismo de produção, e é aqui que entra o toque de renovação, é semelhante. Todos os quatro filmes foram feitos com gastos entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão, o que os define como longas de baixo orçamento. “Riscado”, aliás, foi além e não teve nenhuma verba de incentivo fiscal, fato raríssimo no cinema brasileiro. “Não é que façamos filmes diferentes do que é o dito cinema comercial. Não é um lugar à parte. Nós estamos interessados em fazer bons filmes que cheguem às pessoas. Também somos parte dessa indústria”, afirma Pizzi.

O que um encontro deste grupo representa não é um acontecimento isolado. Eles concordam que eventos como a Mostra de Tiradentes (festival realizado no início do ano na cidade mineira), a Semana dos Realizadores (mostra carioca cuja terceira edição será organizada em outubro) e a Sessão Vitrine (projeto que abre espaço para cineastas da nova geração num único horário diário em algumas capitais do país) vêm jogando luz sobre alternativas para a produção e a distribuição de filmes. Eles são fruto, portanto, de uma espécie de ato de resistência independente do cinema brasileiro.

“O cinema é arte e indústria. Não podemos manter a dicotomia entre esses dois lados. O que me incomoda é o circuito que temos no Brasil. Acho bom entrarmos no circuito comercial, mas eu gostaria de passar meu filme nos subúrbios, nos centros culturais, em experiências excepcionais como a do Ponto Cine (cinema em Guadalupe que só exibe filmes brasileiros, onde Rocha estará na segunda-feira para um debate). Mas a realidade é que temos, no Rio, uma distribuidora municipal, a RioFilme, que perdeu a identidade e o rumo. O papel de uma política pública audiovisual deveria ser enriquecer a cultura do país com a diversidade. Mas a RioFilme tem uma visão fundamentalista de apostar em supostos filmes de mercado. Não se fortalece uma indústria com casos isolados. Não podemos resumir o debate sobre o cinema brasileiro a números”, afirma Rocha.

Primeiro dos quatro filmes a chegar às salas, “Transeunte” é a estreia na ficção de seu diretor, filho de Glauber Rocha e o mais experiente do grupo, com três documentários no currículo: “Pachamama” (2010), “Intervalo clandestino” (2005) e “Rocha que voa” (2002). Na nova produção, um aposentado (Fernando Bezerra) simplesmente caminha pelas ruas do Centro do Rio, relacionando-se de maneira discreta porém determinante com o espaço urbano, numa lindíssima fotografia em preto e branco de Miguel Vassy.

“O corpo do homem dialoga com o corpo da cidade em ‘Transeunte’. Cada um de nós incorpora a cidade como cenário. Cada um tem um olhar, uma relação com a cidade. E, ao mesmo tempo, evita a ditadura do tema único. Não podemos ficar reféns da ditadura do mercado”, diz Rocha.

O exemplo do trabalho de Bragança e Marina (que não pôde se reunir com o grupo de cineastas no Rio, porque está em Belo Horizonte, trabalhando na montagem de um novo filme da produtora Teia) é emblemático para compreender as dificuldades desta turma. Seu primeiro longa-metragem, “A fuga da Mulher Gorila”, ficou pronto em 2009 e foi exibido no Festival de Locarno, na Suíça. Porém, só vai conseguir chegar aos cinemas este mês, justamente pela Sessão Vitrine, e aproveitando a estreia de “A alegria”.

“O Rio está vivendo um momento importante de virada, com o combate à violência e com a visibilidade que vem ganhando devido aos grandes eventos esportivos que se aproximam. Então, por isso, o cinema é estratégico. É um caminho de se pensar a cidade. Foi em momentos de transformação que surgiram os grandes ciclos do cinema. A arte é uma maneira para se lidar com o caos em volta”, diz Bragança.

Projeto mais bem-sucedido da dupla até aqui, “A alegria” foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2010. O filme acompanha as aventuras no Rio de um grupo de jovens (vividos pelos atores Tainá Medina, Flora Dias, Rikle Miranda e César Cardadeiro) que interagem com situações da cultura nacional, são assombrados por fantasmas e acreditam poder ser super-heróis. Enfim, adolescentes como quaisquer outros.

“A gente não mostra a cidade como o inferno da violência, nem como o paraíso do papagaio azul voando. Não é à toa que nossos filmes vão estrear um perto do outro. Estamos num momento de ebulição no Rio e, entrando no circuito comercial, acho que podemos provocar um ruído. Mas é necessário acabar com a ideia de romantismo no que fazemos. Cinema é nosso ofício, nosso ganha-pão”, afirma Bragança.

Em “Riscado”, a história da protagonista se confunde com o que essa turma de jovens cineastas vivencia. No filme de Pizzi, Bianca (Karine Teles, também corroteirista ao lado dele) é uma atriz com poucas oportunidades profissionais e que acaba fazendo bicos em eventos e na divulgação de produtos nas ruas da cidade para pagar as contas. Sua esperança em mudar de vida chega no convite para estrelar uma produção francesa rodada no Rio. Trata-se do segundo longa do diretor, mas o primeiro de ficção, após o documentário “Pretérito perfeito” (2006).

“Nossos filmes dialogam entre si, mas cada um tem seu próprio discurso. Nós temos a cidade como cenário, mas estamos mais interessados nas pessoas dentro da cidade, como elas transitam pelo espaço”, diz Pizzi.

No caso de “180°”, o Rio nem mesmo é identificado no roteiro escrito por Claudia Mattos. A trama do filme segue a estrutura de um thriller não linear, em que Anna (Malu Galli), Russell (Eduardo Moscovis) e Bernardo (Felipe Abib) estão de certa maneira envolvidos na elaboração de um livro de sucesso. É o primeiro longa-metragem do diretor Eduardo Vaisman, reconhecido por curtas como “Dadá” (2002).

“No meu filme, a cidade está refletida nos personagens. A questão é que fazemos filmes para ser vistos, não para ficar entre a gente. Hoje, para que nossos filmes sejam vistos, nós próprios precisamos correr atrás de distribuição. É como se um médico tivesse que ficar trocando curativos todos os dias. É um trabalho cansativo, que não deveria ser feito por nós. A maioria dos filmes recebe dinheiro do governo e deveria ter a chance de ser vista pelo público”, conta Vaisman.

*Fonte: O Globo Online

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