Cultura: contrapartida ou ponto de partida?

Leonardo Brant faz uma breve retrospectiva da “parceria” público-privada em torno da cultura e anuncia a necessidade de “uma nova política governamental pela responsabilidade cultural corporativa, com um fundamento: preservação de direitos e liberdades culturais e econômicas associada ao desenvolvimento de frentes de acesso a participação da cultura”

A corrida do ouro da cultura teve início com a polêmica Lei Sarney, ainda na década de 80. Logo após o desmanche provido na Era Collor, recriou-se sob o selo de  “Lei Rouanet”, que disseminou pelos quatro cantos do Brasil o lema “Cultura é um bom negócio”. O marketing cultural transformou-se em uma ferramenta poderosa que permitiu direcionar bilhões de reais para a atividade cultural, estabilizando-a. Também contribuiu para que marcas fossem construídas com os valores da expressão dos brasileiros.

Mais recentemente, as organizações perceberam que atitude responsável e compromisso com a sociedade são imprescindíveis.. Que as pessoas jurídicas também podem ser cidadãs. E que os consumidores sabem muito bem perceber isso. Novamente o privado e o publico aliaram-se para a geração de benefícios mútuos.

Disseminou-se que projetos culturais podem gerar contrapartida para seus investidores privados. E, ao mesmo tempo, que os negócios podem constituir contrapartida para a sociedade.

Queremos propor um novo passo em direção à celebração da ética nas relações sócio-econômicas, com o entendimento de que a cultura é simplesmente partida. Partida para um projeto de nação, para o desenvolvimento social, para as oportunidades econômicas, para mercados potentes. Partida para empresas inovadoras e para Brasileiros capazes, competentes e livres.

Tendo em mente que nenhum outro atributo de marca poderá ser mais precioso para as empresas do que a  Brasilidade, convidamos empresários e executivos – que com suas decisões ajustam dia a dia o rumo desse país a constituir uma aliança para acrescentar dois novos ingredientes ao investir na atividade cultural: Sentido e Convergência.

Patrocinar com sentido é investir com a consciência de que a cultura é necessária para a democracia, para a paz, para o trabalho, para movimentar a economia, para combater as desigualdades sociais. Que o acesso a ela, sim, diverte, emociona. Mas acima disso, permite pensar e agir. Que é muito, muito mais que um bom negócio. Patrocinar com Sentido é saber com precisão estratégica onde exatamente se deseja chegar com o investimento, e ser responsável por ele.

Patrocinar com Convergência é compreender que o resultado de cada centavo aplicado, deve multiplicar o efeito de outros investimentos. A palavra sinergia precisa fazer parte do vocabulário dos gestores dos investimentos das empresas na sociedade. Sinergia entre os benefícios gerados pelo core business e pelos patrocínios. Sinergia entre o empreendimento de uma organização  e outros existentes na comunidade. Sinergia entre o interesse publico e privado. Propomos uma nova política governamental pela responsabilidade cultural corporativa, com um fundamento: preservação de direitos e liberdades culturais e econômicas associada ao desenvolvimento de frentes de acesso a participação da cultura.

Um fundamento que contempla os exilados pela desigualdade social, que atende aqueles que integram os mercados consumidores (inclusive os tão desejados para a economia da cultura), aqueles que operam esta economia e aqueles que querem a oportunidade de fazê-lo.

Leonardo Brant

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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