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A Dança Macabra e a Cultura Congelada

Há alguns dias, após assistir o solo de Laura Samy, Dança Macabra, tenho matutado alguns pensamentos. Venho escrevendo mentalmente sobre a experiência que foi ver Laura dançar. Busquei informações sobre as imagens da Dança Macabra – final da Idade Média – li também o que Laura escreveu, lindamente, sobre o seu processo de criação, “Olho pra morte como olho uma paisagem” (ver aqui) e fiquei com isso tudo em uma nuvem, cozinhando em banho maria… Até que finalmente, hoje, 27 de janeiro de 2017, imbuída pelo espírito do Segundo Ato contra o congelamento da verba para a cultura na cidade de São Paulo, a necessidade de me sentar e escrever sobre dança – a Dança Macabra de Laura Samy e a de “todos” que trabalham com as artes do corpo nesta cidade – veio à tona.

Laura Samy tem a minha idade, 45 anos, bailarina que, assim como tantas da nossa geração, começou fazendo balé clássico ainda na infância. Seguiu a adolescência dançando, e fez pra valer, sangrou os pés nas pontas, girou muitas piruetas, prendeu seus cachos de cabelos com muitos grampos e gel e obedeceu a todas as regras até conhecer uma outra possibilidade de se mover através da dança contemporânea. Laura voou, passou então a experimentar outras técnicas além da dança, foi pra yoga, para as artes marciais, conheceu outras regras, conheceu regras nenhumas, passeou por outros caminhos.

Eu tive a oportunidade de acompanhar um pouco desse seu percurso, dentro e fora de sala, nos encontrávamos mundo afora, sempre compartilhando nossas descobertas, nossas questões, nossos momentos.
Acompanhando sua trajetória em cena, me emocionei várias vezes vendo Laura dançar em importantes companhias de dança contemporânea, como as de João Saldanha e Dani Lima, entre outras. A cada trabalho surgia uma nova artista, às vezes cômica, outras dramática, às vezes mais leve, outras mais densa, mas sempre, e a cada vez, mais madura.

E agora com a Dança Macabra, trabalho de sua autoria, resultado de sua incursão universitária, que somada a todo seu percurso artístico de tantos anos na lida, descubro mais uma Laura. Laura dona de seu nariz! Dona de seu corpo todo, dona de sua história e com a sua voz mais clara do que nunca.

Se a Dança Macabra que a inspirou, tem a ver com a Dança da morte, a Dança do fim dos dias, a Dança da peste, paradoxalmente, a dança que ela nos mostra é uma dança pungente e cheia de vida. Laura dialoga com autores importantes, como Blanchout, Didi-Huberman, Roland Barthes, se enamorou pelos filmes de Pasolini, escutou músicas, viu imagens, dispersou, abriu, expandiu, bateu asas e com tudo isso, entrou cada vez mais profundamente no universo da morte, do macabro, do obscuro e do sombrio. Mas fez tudo isso com tamanha delicadeza, que em nenhum momento do espetáculo pensei na morte, nem o seu figurino todo preto, nem mesmo o seu corpo despido largado ao chão, me remetiam à morte. E ainda, ela estava lá, “a morte como uma paisagem”.

Se propor em um solo não é uma tarefa simples, fazê-lo sendo ao mesmo tempo intérprete, coreógrafa e diretora é uma escalada íngreme em terreno escorregadio e perigoso. Ainda que Laura aponte e reconheça interlocutores importantes durante seu processo de criação, sua ousadia não foi pouca. Mas embora ousada e corajosa, sinto que Laura vai precisar de algum tempo para se dar conta da robustez do material que acumulou. O solo, que coloca em cena uma artista inteira, tão profunda quanto leve, tão enraizada quanto dispersa, tão esquiva quanto exposta; a aula-espetáculo, material adjacente e que antecedeu ao solo, quanto o texto que escreveu, é um repertório que merece circular.

Circular dentro e fora do meio acadêmico, pois este trabalho cumpre a promessa mais difícil que se faz, frequentemente, tanto no meio da prática quanto no da teoria, que é justamente o de um fazer-teórico, ou de uma “practice as research”.

Volto a pensar no ato de resistência que vivemos hoje na cidade de São Paulo, onde milhares de artistas se reuniram em frente ao Theatro Municipal para pedir o descongelamento das verbas destinadas à cultura. Penso na Dança Macabra, não na dança da Laura, que resiste, que olha para a morte como se ela fosse uma paisagem, não como uma ameaça, mas um futuro inexorável, que ao contrário de assustar, ou ainda assustando muito, é enfrentado; uma dança que caminha sem saber pra onde vai, mas que vai assim mesmo, pois não pode parar. Uma dança que transborda, que atravessa, que suspira e urge. Infelizmente penso na outra Dança Macabra, que se une para celebrar a morte, não porque os artistas estejam resignados dançando pelo fim, muito pelo contrário, pois lá estavam todos coreografando uma resistência, um apelo para um governo que desconhece, ou parece desconhecer a importância da arte e da cultura na formação de seu povo.

Tento concluir esse texto não com a imagem da morte, embora ela nos ronde sempre, mas busco gravar a imagem da dança que vai até o fim. E depois recomeça, dança novamente até o próximo fim, e até o próximo, e o seguinte. A dança que coreografa a sua própria resistência. A dança que ainda macabra, nunca se permitirá congelar.

 

* foto Renato Mangolin

Gisela Dória

Bailarina, coreógrafa e jornalista. Doutora em artes da cena pelo Instituto de Artes da Unicamp, membro do núcleo Performa Teatro.

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