Já virou consenso dizer que o problema do cinema brasileiro atual é o roteiro. Muitos, no entanto, confundem isso com a ausência de roteiristas. Essa explicação é simplória. Basta ver que, recentemente, muitos dos roteiristas de cinema estão migrando para a televisão, que tem um histórico de entender a importância do roteiro. O fato é que o produtor de cinema brasileiro já entendeu a importância do roteiro, mas não entendeu a importância do roteirista. Se quisermos bons roteiros temos que discutir como acontece o desenvolvimento de um filme e valorizar o autor-roteirista.
Além disso, os processos têm sido muito confusos. Quem não é da área de cinema e vê um longa com roteiro ruim, mas ruim mesmo, aqueles ruins inacreditáveis, deve se perguntar: como chegou nisso? Ninguém leu o roteiro? Será que todo mundo é burro nesse filme? Não é bem isso.
Muitos pensam que o problema ocorre pois o diretor é um autor com poder absoluto e ninguém comentou. Isso acontece, sim. Mas cada vez menos. Na maioria dos casos o roteiro ficou ruim pelo motivo contrário: pois faltou autor. Muita gente palpitou, o roteiro foi para todo lado e perdeu a coesão.
Os roteiros ruins do cinema brasileiro atual são resultados de processos caóticos e sem liderança. Saímos de um cinema feito pelo ego, para um cinema feito pela briga de egos. Estamos num momento aonde os produtores ganharam alguma força em relação aos diretores. Isso poderia ser bom, mas nem sempre funciona. Há casos onde o produtor contrata o roteirista para se contrapor ao diretor. O que era para ser uma equipe criativa, vira um conflito político de baixo nível. E nada pior que fazer política na criação. Existe ainda o desconhecimento e a insegurança dos produtores que mandam o roteiro para qualquer pessoa comentar. Por fim, ainda tem a distribuidora, que no Brasil ainda tem pouco preparo para participar do processo de desenvolvimento. Quantos profissionais de roteiro são contratados pelas distribuidoras? Praticamente nenhum. Acho ótimo a distribuidora participar, mas tem que participar de forma profissional.
Um criador pode e deve ouvir o produtor/distribuidor. Mas criação artística não é um bom lugar para fazer “política” de consenso. Arte não é como um projeto de lei do Congresso, que naturalmente vai ter emendas. O trabalho que fiz para a Fox (“9MM”) foi um processo que considero bem sucedido de diálogo entre roteirista, produtor e emissora. Foi interessante ouvir os comentários dos produtores e da emissora e mudar o roteiro a partir disso. Teve casos em que uma única ideia me obrigou a reescrever o roteiro de um episódio completo. E para inserir uma ideia pontual, outras boas ideias são perdidas. No caso ficou melhor e valeu o trabalho. Mas é importante que os produtores tenham consciência da responsabilidade de intervir num roteiro e percebam que uma nova ideia obriga a perder outras boas. E que existe também questões de prazo de entrega do roteiro, renumeração e outras envolvidas. Se mudar mais ou menos fica uma merda. Tem que mudar até o fim. Por isso, os comentários tem que ser responsáveis.
O desconhecimento do processo tem levado a algo curioso: há muitos filmes em que o primeiro tratamento não é o ideal, mas o segundo fica ainda pior. E vai piorando gradativamente.
Uma vez um importante diretor brasileiro me convidou para dar aula de roteiro em sua produtora. “Pois faltam roteiristas no Brasil”, ele disse. Ao invés de formar novos roteiristas, eu propus dar aula para os produtores e diretores. Para eles qualificarem seus comentários. O que falta no Brasil é que todos os setores da indústria entendam mais de roteiro.
E falta a coragem de dar mais poder aos roteiristas. Nenhuma produtora independente do Brasil entendeu a importância do roteirista tal como a Globo e as agências de publicidade, por exemplo, que entendem há anos. Está na hora de entender que a única forma de fazer bons roteiros é valorizar o autor-roteirista.
*Publicado originalmente na Revista de Cinema
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