Ensinando a partir da Cultura afro

Metodologia Griô, desenvolvida por Ponto de Cultura, valoriza a cultura oral e questões presentes nas culturas africanas e recebe apoio do MinC para atuar em parceria com escolas

Uma série de atividades coordenadas pelo Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô naTeia 2007 e no quinto encontro regional da Ação Griô Regional, realizado entre 5 e 7 de outubro. Os eventos uniram mestres e aprendizes griôs em debates sobre metodologias e caminhos de atuação.

Diversos espaços foram abertos na TEIA para o debate, o conhecimento e a iniciação na Pedagogia Griô, com vivências, filmes e apresentações. Ao lado do presidente Lula, os griôs também fizeram a abertura da TEIA. Por esta importância reconhecida, e por tal reconhecimento e atuação em diversos Pontos, faz-se necessária a avaliação dos processos até então realizados e da conjuntura posta, de acordo com Lilian Pacheco, coordenadora pedagógica de uma série de projetos e integrante da Coordenação Nacional da Ação Griô e do PC Grãos de Luz e Griô, proponente dos editais e disseminador da Pedagogia Griô.

Segundo a educadora, criadora da Pedagogia Griô e coordenadora do Pontão, a rede que compõe o projeto, composta atualmente por 50 Pontos de Cultura espalhados por todo o país, terá também um ambiente para troca de experiências e diálogos sobre as técnicas em desenvolvimento, que pode variar conforme a região.

A figura dos velhos griôs é a fonte de inspiração, diz a educadora, mas a metodologia se adapta à realidade local de cada comunidade. “Certas linguagens funcionam bem no quilombo, mas se for na aldeia indígena ou no centro urbano precisa ser diferente”. Em comum, a busca por colocar histórias reais da vida no centro das atenções. “É uma forma transdisciplinar de educação”, afirma.

Autora do livro “Pedagogia Griô: a reinvenção da vida”, Pacheco explica que o currículo escolar convencional não alcança a vida de fato. “É preciso colocar mobilidade na escola, por meio da arte, do canto e do resgate da ritualização do ensinar e aprender”.

Em uma das apresentações, a reportagem conversou com a griô aprendiz Mel Nascimento, de Salvador. A artista descreveu a “cultura” griô como aquela que se constitui na tradição oral dos sábios e sábias da comunidade – artesãos, contadores de história, repentistas, artistas de rua. Sua visão é de que se trata de uma pedagogia do amor, baseada na ancestralidade e no perceber-se como parte dessa ancestralidade.

Mais ainda, trata-se também de uma pedagogia musicada, que se percebe fortemente nas apresentações de Mel e do griô aprendiz Márcio Caires, e também numa “pedagogia da caminhada”, como mostrou em outra palestra na TEIA o griô aprendiz Alexandre Santini, ao contar sua experiência de realizar atividades de contação de história dentro das escolas. Essa mesma pedagogia, a griô aprendiz Fabíola Rezende descreveu como uma espécie de encantamento, de auto-conhecimento e de aprendizado contínuo.

Os próprios mestres colocaram a questão da aprendizagem contínua, tanto para eles quanto para os aprendizes, em campos diferentes. Caires fez menção à função de interlocução dos aprendizes entre o sistema educacional, a comunidade e os mestres, e do contínuo desafio de construção de referências para esta atuação. Complementando a fala de Márcio, Fabíola avaliou ainda que o griô aprendiz atua com a função de comunicar, ser um articulador e estabelecer pontes para facilitar a ação dos mestres.

A forte menção à herança, e em particular àquela advinda da ancestralidade africana, mostra-se real num outro triste quadro, presente nas falas de Mel e de Caires: o do preconceito, inclusive ligando a Pedagogia Griô à uma pedagogia baseada nas religiões afro, sabidamente discriminadas pelas religiões de origem cristã, em especial as neopentecostais. Tal ligação, colocam os griôs aprendizes, não é real, mas ainda assim alguns pais e professores têm resistência quanto à metodologia.

Lílian Pacheco chamou atenção ainda para os avanços e conquistas estabelecidos no plano institucional. Além da ampliação da rede de PCs participante da rede, é iminente a assinatura do convênio do PC Arte na Rua, que se tornará um Pontão de Cultura. Chamou atenção ainda para os convênios firmados com as prefeituras de Duque de Caxias e Viçosa, que são pontos possíveis de ampliação dessa política, e para a recente valorização da Ação Griô junto à Unesco e a aprovação, no Edital de Financiamento, de patrocínio via Lei Rouanet vindo do Instituto Votorantim. Questiona, porém, a forma como, ainda hoje, é contada a história do Brasil. “O negro nos livros didáticos é apenas uma figura folclórica, é o escravo sofrendo no tronco, mas tem muito mais pra contar”. Ela acrescenta que oficinas artesanais, espetáculos teatrais, rodas de prosa, danças e histórias podem levar o aluno a “Aprender pode ser por meio do lúdico, da paixão e da alegria”.

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