Necessidade de realizar tarefas além das artes é tema de série de 5 episódios, a ser lançada dia 22 de setembro. A diretora Maíra Endo fala sobre o processo com o Cultura e Mercado.
Nos tempos atuais, saber viver de arte é um exercício. E um conjunto de atividades, que formam a vida do artista em obra a ser analisada. Ao visitar espaços de criação, a série revela a ética e a visão de mundo dos artistas em diálogo com a prática, expondo os caminhos, escolhas e funções necessários para efetivar suas obras. Com isso, ARTIFÍCIO nos permite explorar as relações políticas e de mercado que as artes visuais enfrentam em um momento como o que estamos, de desmonte das políticas para as artes e cultura.
Gravado antes da pandemia, mas já durante o governo Bolsonaro, ARTIFÍCIO nos leva a debater a arte como ente de sustentação da democracia, tema do debate a ser realizado dia 22 de setembro, por ocasião do lançamento da série.
Artista-etc é uma expressão cunhada por Ricardo Basbaum em 2005, que designa o artista que, ao questionar a natureza e a função de seu papel na sociedade e no mercado, amplia seu trabalho em direção a outros campos de atuação, como a gestão, produção, comunicação e outras atividades necessárias à manutenção de uma carreira, sobretudo em tempos bicudos como o atual.
Idealizada e dirigida por Maíra Endo e Leonardo Brant, a série apresenta a busca de artistas que vão além dos grandes circuitos hegemônicos – institucional (dos museus e grandes centros culturais) e comercial (das galerias, feiras e leilões) -, apresentando uma cena emergente, que representa um sopro fresco dentro de um sistema que dá sinais de esgotamento.
A diretora Maíra Endo concedeu a seguinte entrevista para falar do processo criativo, do lançamento da série e dos projetos futuros:
CeM: Como nasceu a série ARTIFÍCIO?
ARTIFÍCIO é resultado do encontro com Leonardo Brant, em meados de 2013, durante um curso de gestão cultural no então Cemec, em São Paulo. Me lembro que naquele momento já havia a vontade de fazermos algo juntos, mas eu estava grávida e esse plano acabou sendo adiado até 2017, quando nasceu a ideia do ARTIFÍCIO. Como quase toda ideia, não nasceu pronta: tínhamos dúvidas se o formato era série, média ou longa metragem. Em princípio, queríamos falar dos atravessamentos de linguagens e campos do conhecimento dentro da produção de arte contemporânea, de forma geral. Foi só num segundo momento que decidimos que o recorte seria a emergente figura do artista-etc., termo criado por Ricardo Basbaum, e sua percepção do funcionamento do sistema da arte hoje. E como não conseguimos grana para a produção, decidimos fazer com os recursos que tínhamos.
CeM: O que significa artista-etc, conceito abordado na série?
O artista-etc é aquele que, ao questionar a natureza e a função do trabalho do artista, amplia sua atuação em direção a outros campos do conhecimento, alterando seus processos criativos e/ou ampliando suas habilidades. São muitas possibilidades de combinação: o artista-curador, o artista-gestor, o artista-escritor, o artista-educador, o artista-designer, o artista-produtor, o artista-biólogo, o artista-químico, o artista-jornalista, dentre uma infinidade de outros. O artista-etc é precioso para todo o sistema da arte, em especial dentro da emergente cena de arte independente, onde é a figura central.
CeM: Qual o estado das artes visuais no Brasil atualmente?
Assim como os outros âmbitos da cultura, as artes visuais também estão abandonadas pelas instâncias (des)governamentais na esfera federal desde 2015/2016. A inexistência da FUNARTE é certamente bastante sentida. Seus editais foram muito importantes para a manutenção de espaços independentes das artes visuais e a sobrevivência de trabalhadores deste segmento em pequenas e grandes cidades, especialmente a partir de 2003. Esta cena independente, ou auto-organizada, das artes visuais foi a mais castigada nos últimos anos dentro do sistema da arte, com exceção das que se organizam no Estado de São Paulo, onde os editais do ProAC mantiveram relativo impacto, e talvez em Pernambuco, onde o Funcultura segue importante. Já os grandes museus, que recebem recursos via Lei Rouanet, assim como a Bienal de Arte de São Paulo, não foram afetados pelo novo teto de captação estipulado pelo atual desgoverno, uma vez que configuram-se como exceções. Mas certamente a captação certamente foi afetada durante a pandemia, com o fechamento deste equipamentos. O mercado da arte contemporânea, que emprega uma parte dos trabalhadores das artes visuais, parecia estar reaquecendo, quando também foi atingido em cheio pela pandemia. As feiras de publicações de arte, que estiveram em alta por anos antes da pandemia, configuravam-se como grandes aglomerações e, portanto, cessaram. Tudo foi atingido pela pandemia, né? Mas apesar de tudo isso, assim como a série ARTIFÍCIO, muito segue acontecendo pela vontade e pela força de trabalho dos que sobreviveram, resistiram de alguma forma. Vale mencionar também, no contexto da pandemia, a implantação emergencial da Lei Aldir Blanc, que resgatou muitos trabalhadores, espaços e iniciativas da cena independente das artes visuais.
CeM: Qual o papel da arte na consolidação da democracia?
Entendo que, primeiramente, a arte é essencial para a consolidação e manutenção da democracia por ser um lugar de liberdade. A arte funciona como um termômetro da liberdade dos indivíduos de uma sociedade e não existe plenamente sem uma dose grande dela. Se a arte é feita num contexto de liberdade, torna-se também lugar do dissenso, do diálogo e da diversidade, tripé que está no cerne da democracia. Pela arte, percebemos a multiplicidade das possibilidades, das diferenças, e podemos sentir o outro. A arte também é lugar do sonho e do exercício de novas realidades. E, quando não há liberdade, é a arte que faz a primeira denúncia, transformando-se em um instrumento fundamental de luta e resistência.
Serviço:
Live de lançamento: Arte&Democracia
Dia 22 de setembro às 21h no canal do YouTube da Deusdará
Com Maíra Endo e participação de Jurandy Valença, Fabiana Faleiros, Leonardo Brant, Lilian Maus e Ricardo Basbaum.
Programação de lançamento:
Episódio 1, com Jurandy Valença | 22/9 às 21h
Episódio 2, com Fabiana Faleiros | 29/9 às 21h
Episódio 3, com Lilian Maus | 06/10 às 21h
Episódio 4, com Marcelo Amorim | 13/10 às 21h
Episódio 5, com Ricardo Basbaum | 20/10 às 21h
ARTIFÍCIO é uma realização da Deusdará Filmes, produtora dedicada a realizar documentários de impacto, e Solar, plataforma de criação, gestão e produção de projetos de arte, com o apoio dos sites Cultura e Mercado e Hipocampo.
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