O pensador canadense Marshall McLuhan nasceu há exatos 100 anos e, mesmo tendo nos deixado em 1980, tem uma obra atualíssima, das mais relevantes para compreender os fenômenos que desencadearam nas mudanças de comportamento da era tecnológica.

McLuhan pensava “os meios de comunicação como extensão do homem”, dizia que “qualquer pessoa pode hoje tornar-se autor e editor”, classificava a notícia, mais do que arte, como artefato. Avisara que “a nova interdependência eletrônica recria o mundo à imagem de uma aldeia global”, uma profecia que ganha outra dimensão com as tecnologias de informação e comunicação, e sua realidade virtual, cada vez mais presente em nossa cultura-mundo (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy).

Assim como não é possível entender Marx sem os marxistas, dedico-me aos autores declaradamente McLuhanianos, como Henry Jenkins. “Em nome do ‘progresso’, a cultura dominante se esforça para obrigar os novos meios a realizarem tarefas do passado”, uma frase-síntese do pensador canadense para explicar a força propositiva de Cultura da Convergência.

“O Homo sapiens tornou-se Homo ecranis“, afirmam Lipovetsky e Serroy. “Daí em diante ele nasce, vive, trabalha, ama, se diverte, viaja, envelhece e morre acompanhado, em todos os lugares por onde passa, por telas…”.

A era cem por cento tela não revela apenas uma quantidade ilimitada de imagens e de informações contínuas em uma multidão de novos suportes; ela vem acompanhada por uma comunicação interativa e produzida pelos próprios indivíduos. O ato I da telas era o das mass media, da comunicação unilateral e centralizada; o ato II é o da self media, das trocas interpessoais e comunitárias, descentralizadas e baseadas na utilização da Rede. Daí em diante, o modelo vertical da cultura midiática é simultaneamente um modelo horizontal, de uma cultura do todos para todos.

O “Eu Mídia” é a síntese da manifestação narcísica da cultura do consumo e do espetáculo exarcebada pelo realismo fanstástico do second life. “Deixe para trás aquele que você era”, diz um comercial televisivo. No second life do Facebook, do Twitter e do YouTube você pode ser apenas “quem você deseja ser”.

As pesquisas sobre fluxo informacional das redes denunciam a enorme predominância dos “me-informers” sobre os “informers”. De que vale ser mídia se o único assunto é apenas você mesmo? Chamo isso de síndrome de Ashton Kutcher (@aplusk), o ator hollywoodiano que transformou sua vida num roteiro de reality show via twitter, com mais de 7 milhões de seguidores.

Mas há a outra moeda do “Eu Mídia”. Aquele papel exercido nos tempos remotos da mídia impressa liberal, com jornalistas independentes, que ousavam contar suas histórias e cativar leitores com sua credibilidade. Se a cultura da convergência permite o surgimento e a sustentabilidade desse outro tipo de “Eu Mídia”, então seria a revolução dos meios e a transformação dos fins.

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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  • O fato de ser possível a prática do sexo nunca impediu a masturbação...o indivíduo pode escolher, estamos vivendo um tempo de masturbeiros...

  • Pena não estar presente para ver a realização dos eus sonhos outros genios surgirão,a roda da história só gira prafrent.

  • O Eu-Mídia é um tom midiatrico do tópico do super-homem (Nietzsche) moderno, que vive esgotado no turbilhão de terabites de informações e na sua busca de se sentir incluído nessa multidão virtual.Enquato isso alguns tem a fórmula ou segredo de fazer ouro nesta seara. Acredito mais na divulgação do individuo coletivo, este que trabalha em rede e agrega a sua comunidade ao seu tempo.

  • Grande texto, Léo! Tenho usado muito a figura do "homo ecranis" como novo paradigma sobre o qual a indústria da mídia deve se (re)construir. McLuhan está atualíssimo aos 100. Mas é como você colocou: as questões fundamentais - como quem são as referências e se, de fato, ainda precisamos delas - seguem em aberto.

    A indústria, hoje, é basicamente liberal (no sentido histórico, e não panfletário, do termo) e, portanto, acredita no "método" como ferramenta essencial de trabalho. Mas ao mesmo tempo não dá para ignorar os não-modelos de inspiração anarquista que são claramente "contra o método", na melhor lógica wiki, onde a multiplicidade de visões, independentemente da origem científica, substitui as informações metodologicamente validadas como referência essencial.

    Eu, você sabe, não acredito em referências sem critério e nem em bruxas. As últimas, dizem que “las hay”. E as primeiras, hein? Benzó!

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