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Financiamento coletivo pode ser começo da estrada para espetáculos teatrais

Quando eu tinha os meus 13 para 14 anos, ali pelo idos de 1994, meu professor de educação atística no colégio já tinha um grupo de teatro e decidiu montar com alguns alunos uma peça infanto-juvenil. Lembro da gente ter ensaiado alguns meses e estreado numa sala super antiga e mal cuidada no centro de São Paulo. Foi um ano mágico para nós, adolescentes ávidos por novidades, mas muito difícil para o professor, que batalhou muito pra conseguir o mínimo para a sobrevivência do espetáculo.

Talvez se naquela época a internet já fosse uma realidade pra nós e os sites de crowdfunding já existissem, a gente até teria seguido carreira no teatro. Digo isso porque hoje várias companhias já contam com essa possibilidade para colocar seus projetos em prática e ver seu sonho se materializando ali no palco. Conversei com três produtoras que estão com projetos no site Movere, e todas afirmaram que sim, o financiamento coletivo permite que espetáculos que talvez não existissem por falta de patrocínio cheguem ao público.

“Acredito que peças teatrais que não conseguiam ser realizadas por falta total de dinheiro possam, por meio do financiamento colaborativo, pelo menos nascer”, diz a atriz Sarah Cintra, que conseguiu ultrapassar a meta de seu projeto Água Viva, espetáculo teatral baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Mas ela alerta que o valor que se pede nesse tipo de empreitada é quase sempre o suficiente apenas para cobrir parte dos gastos de uma produção. “A abordagem é do ‘tudo ou nada’ e o produtor fica receoso de pedir muito e nada conseguir.”

Para Ana Vitória Bella e Helena Cardoso, da Digna Companhia de Teatro e DançaSim, no senso comum, a arte parece inacessível para muitas pessoas: seja porque os ingressos são caros para o espectador, seja porque arte só pode ser feita para poucos dotados de um dom sobrenatural. “Acreditamos na arte acessível a todos que queiram por ela ser tocados ou com ela moverem-se. Quando alguém torna-se parceiro de um espetáculo ao contribuir pelo financiamento coletivo, está ele também fazendo arte, tornando arte possível e acessível”, afirmam.

Ana e Helena estão em plena campanha para conseguir fazer o espetáculo Quase-Memória, histórias de pessoas que sublimam a falta, a perda de algo: de espaço, da vida, de amor. A companhia nasceu em 2010 e desde então elas pesquisam as imbricações entre dança e teatro. “Somos uma companhia profissional independente, não contamos com nenhum tipo de incentivo ou patrocínio, privado ou público”, contam.

O primeiro trabalho, Desencontro, foi uma performance de rua, que desenvolveram apenas com investimento pessoal. Para Quase-Memória, o investimento é maior porque precisam pagar por materiais e pelo trabalho de outros profissionais (cenário, figurino, técnicos, aluguel de teatro, divulgação, etc). “Não deixaremos de lado editais e mecanismos de patrocínio mais tradicionais, mas encontramos no crowdfunding uma forma rápida de arrecadar um valor mínimo que colocasse o projeto ’em pé'”.

A maior dificuldade para elas tem sido mostrar às pessoas que o financiamento colaborativo é uma parceria, não um ato de caridade. A surpresa maior tem sido contar com colaboradores que vão além da sua rede de amizade, pessoas que se uniram ao projeto por justamente quererem participar de um processo artístico.

Sarah não teve a mesma sorte. Ela conheceu o Movere por meio de umas amigas produtoras, e foram os amigos quem ajudaram mais no final das contas. “Apostei nos contatos de dentro de casa. A ‘pexada’ foi 100% doméstica: cunhado e amigos de cunhado, namorado, irmãs, mãe e amigos de todos eles. Já tinha a previsão de dois apoiadores fortes, que realmente deram conta de mais da metade da verba. E mesmo os amigos e conhecidos que não podiam colaborar com dinheiro, acabaram divulgando comigo o link do site”, conta.

Maria Clara Wermelinger também contou mais com os amigos e familiares. Autora do espetáculo infantil “O Menino detrás das nuvens“, um musical que integra música, canto, artes plásticas e manipulação, ela acredita que falta o público que gosta de arte, que realmente acredita na sua importância. “Apostei em um vídeo legal, bem editado, mostrando a verdade e seriedade do trabalho. Por sorte, tínhamos como preparar isso sem custo. Não pedimos um valor muito alto, pois esse sistema ainda é novo. Mas contamos com a ajuda das pessoas da nossa esfera de relacionamento.”

Para ela, as pessoas costumam gastar muito com coisas que não vão consumir. “Podemos colocar esse pequeno desperdício de dinheiro em outro lugar. Uma ajuda de 10 reais, pensada de forma coletiva, pode chegar a um valor satisfatório. E, quando falamos de arte, falamos de educação e cultura. Estamos nos alimentando de outra forma”, ensina.

O projeto de Maria Clara nasceu em 2005, numa escola de Nova Friburgo (RJ) – ela, como meu professor, montou a peça com seus alunos – mas só em 2010 conseguiu entrar num edital de ocupação do Centro Cultural da Justiça Federal. “O processo no MinC foi demorado, muita burocracia e falta de comunicação. Começamos os ensaios sem dinheiro, a data de estreia estava marcada e nenhuma grana em vista. Foi então que conheci o crowdfunding, entrei em contato com o Movere e vi uma esperança no fim do túnel. Ao menos para pagar alguns custos”, conta.

Sarah também viu uma luz no final do túnel graças ao crowdfunding, e acredita que o sistema ainda vá crescer. “Com a campanha em redes sociais, você alcança os mais diversos tipos de pessoas. Você pode, inclusive, estar contribuindo para a formação de plateia. Pessoas que viram aquilo ali no Facebook, por exemplo, apoiaram e vão te ver, e muitas delas nunca nem foram ao teatro. Mas é um trabalho de formiguinha, você tem que postar o link o tempo inteiro e ser criativo nas chamadas. Às vezes também pode dar uma sensação de pedinte. Nessas horas é que é sempre bom lembrar que quem apoia tem a sua recompensa. A pessoa só sai sem nada se quiser.”

Mônica Herculano

Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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Mônica Herculano

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