Categories: PONTOS DE VISTA

Geração código de barra: a perda da identidade na era da internet

A cultura digital, tão celebrada hoje em dia, pode estar contribuindo para o emburrecimento da juventude?

O Orkut possui, neste momento, cerca de 30 milhões de usuários cadastrados. 100 Milhões de vídeos são assistidos diariamente no Youtube (e isto mesmo antes dele ser comprado pelo gigante Google). Músicas, filmes, livros, notícias, opiniões, etc., tudo fica disponível para centenas de milhares de pessoas na internet em alguns poucos segundos. Comunicadores instantâneos colocam em uma mesma lista (de “amigos”) pessoas que jamais se viram e muitas outras que nunca terão oportunidade alguma de se conhecer. Webcam’s aproximam rostos e movimentos de desconhecidos espalhados pela webesfera. O Skype leva a voz. Blogs escancaram as particularidades individuais (e por vezes coletivas) e vomitam os relatos, pensamentos e sonhos de uma nova geração. Uma geração que muda de opinião como muda de roupa, que tem em seu cerne uma essência tão frágil e descartável que sequer se conhece. Uma geração tão volúvel e mutante que necessita de um código de barra para que seja identificada. A jovem geração internet.

A grande e generosa oferta de informação é o principal fenômeno ocorrido com o advento, expansão e popularização da internet. Praticamente toda a informação já concebida pela criativa mente humana se encontra na web, a apenas alguns cliques de distância de qualquer navegador existente. Pessoas podem aprender a confeccionar um artefato explosivo, por exemplo, podem ler as últimas descobertas da complexa física quântica, conhecer a história milenar do Japão, ou ganhar milhões aprendendo a investir na bolsa de valores de um país longínquo. Uma extraordinária quantidade de serviços também estão disponíveis. Pode-se comprar estimulantes sexuais por e-mail, drogas que são entregues pelo correio, pagar a conta de telefone, fazer uma reserva em um vôo, votar, tudo isso. Se você resolver se suicidar, digamos, pode combinar um suicídio coletivo com “amigos” virtuais (ou reais), e depois blogar tudo o que ocorrer até o instante derradeiro. A internet nos dá possibilidades inimagináveis, temos que admitir.

A nova geração internet – isto é, meninos e meninas de até uns 20 anos de idade – nasceu já “navegando”, imerso em intensa tecnologia. A câmera digital registrou os primeiros momentos do bebê, o celular avisou os amigos do papai que tudo ocorreu bem, as fotos foram enviadas por e-mail, a incubadora transmitiu em tempo real para os parentes que moram em outro país os primeiros momentos do nenê. Logo que entendeu as primeiras frases, aprendeu a visitar sites e portais infantis, onde brincava e se divertia. Depois conheceu outros sites. Em seguida, as salas de chat. Dali para o MSN foi só um pulinho. E então vieram os portais de relacionamento, os blogs, a oferta farta e gratuita (e quase mandatório) de amigos, de informações, de músicas a serem baixadas, de vídeos a serem vistos, piadas a serem (re)enviadas por correio eletrônico, tudo isso muito – muito mesmo – fácil e acessível, quase bobo, mais informação em 2 ou 3 anos do que toda a informação que uma pessoa obtinha durante sua vida inteira no século passado. E tudo foi prontamente absorvido, engolido, sem filtro, sem recusa, sem critério. E sem seleção. Uma salada de tendências, influências, conselhos, exemplos, atitudes, erros, etc., foi colocado a disposição e prontamente digerido. Esta fusão cultural, como anunciada pela globalização, cuidou de delinear e moldar a psique e o comportamento da geração da internet. Geração esta que cresce sem orientação, sem bases reais de comparação, julgamento, sem pilares sólidos em que possam erigir seus fundamentos éticos, sócio-políticos e culturais, principalmente.

Não pensemos, entretanto, que a oferta maciça e expressiva de informação é a vilã da história. Pelo contrário, deveria ser esta a maneira mais adequada de uniformizar o conhecimento, gerando igualdade cultural, profissional, etc, e que, em médio ou longo prazo – 1 ou 2 gerações, talvez – se convertesse em igualdade social. Em outras palavras, o conhecimento deveria elevar todas as pessoas em um nível próximo de condição e existência. Todavia, não é o que ocorre. A informação que vem sendo absorvida é a informação inútil, desprezível, grande parte dela travestida de diversão e passatempo. Sexo (pornografia, de modo geral), futilidades, ideologias quebradiças, contestáveis, nenhum critério na escolha do que assimilar, nenhum aprofundamento ideológico, a busca de valores sólidos, nada disso ocorre. A informação atual, que molda a geração código de barra, é fugaz, quase descartável. Boa parte é totalmente descartável, na verdade. A quantidade e atualidade é que importa. Hoje, adere-se a ideologia da moda, que amanhã será outra, surgida em um lugar qualquer e disseminada pelo Orkut, MSN, ou Youtube. Os ídolos, que deveriam ser exemplos, são celebridades formadas da noite para o dia, geralmente oriundos de bandas de músicas, filmes ou esportistas. Os grandes ídolos, aqueles que demoram algum tempo para se gerarem e conquistarem fãs, são lentos demais para preencher as lacunas e necessidades emergentes dessa geração. Além disso, os ídolos reais são, geralmente, consistentes, e esta juventude não se importa muito com isso. A sede por informação é veloz.

As músicas, baixadas em segundos ilegalmente em qualquer programa de peer-to-peer, adquirem a condição de descartáveis. Tudo o que vem fácil pode ir fácil que ninguém se importará. Basta deletar as músicas baixadas que não agradaram e pesquisar por outras. Livros, para que os ler, se existem resumos aos montes para serem baixados? Eu não preciso entender o que há nele, nem o estilo de escrita do autor, nem conhecer seu vocabulário, nada. Filmes são vistos no próprio computador, enquanto se fala com os amigos ao telefone ou mesmo no mensageiro eletrônico. Nem é necessário prestar muita atenção. Há muitos títulos disponíveis, números astronômicos como nunca sonhamos, não há tempo a se perder revendo um filme, ou pensando nele, até entender passa a ser quase secundário. A fila anda, é necessário assistir ao máximo possível, mesmo que de qualquer jeito. Jornais impressos para quê? Está tudo na internet, em alguns sites até resumidos, outros comentados, alguns com notícias das notícias, ou somente a foto e a manchete… O tempo urge, não? É claro que essa geração não lê jornais – na web ou fora dela, não dá tempo, há tanta coisa mais interessante a se fazer no universo virtual! A informação precisa ser processada, não faz mal se não for captada, entendida, e se tornar-se inútil em instantes. O importante é a quantidade, não a qualidade.

Assim, uma geração de pessoas se forma sem bases sólidas de comparação e tampouco do aprofundamento das questões primordiais a formação da personalidade e do caráter humano. Este modo de tratar a informação se reflete em seu modo de vida, claro. Trocam constantemente de opinião, de roupas, de cor de cabelos, de ídolos, de namorados, de amigos, de computador, de tudo. Trocariam de vida, se pudessem,é mais fácil que trocar de atitude. Até o pouco que resta de sua essência muda de uma noite para outra. Assim, por serem altamente volúveis e mutáveis, não podem ser reconhecidas. Mudam de forma e de conteúdo sempre. Hoje, gosta-se da banda do momento, assiste-se aos filmes mais falados, lê-se os blogs mais comentados, preocupam-se em trocar suas fotos no fotolog. E tudo isso em uma velocidade incrível que impossibilita qualquer formação sólida. Totalmente maleáveis, o único modo de se identificar tais jovens é imprimindo em suas peles um código de barras, pois apenas ouvindo suas idéias, suas opiniões, sempre alteradas (quando são próprias, o que quase não ocorre), é impossível reconhecê-las.

Mudar de opinião, todavia, é uma decisão, geralmente, sábia, no meu entendimento, quando tais mudanças não são cotidianas, quando são sinais de amadurecimento, de reflexão, evolução, quando são mudanças no modo de pensar baseadas em experiências, em observação. Mas, aqui, não se trata disso. A nova geração código de barras muda porque nem se conhece, não sabe nada sobre si, não têm claras as suas crenças, seus ideais, suas vidas. Mudam porque são bombardeados absurdamente com um número de informação tão grande que não conseguem assimilar satisfatoriamente, e se perdem. Jovens em outros tempos também agiam assim, mudando sempre, inconstantes, rebeldes, imprevisíveis. A diferença é que o jovem atual muda porque não se conhece.

A geração código de barra encontra-se perdida, embora não saiba disso, sentindo-se, ironicamente, a “toda-poderosa”. Uma geração de incompreendidos que não consegue se fazer entender, e que não entende o mundo, uma geração fútil, imatura. Falida. Seus pais estão apavorados, não apenas porque os filhos mudam a cor do cabelo e colocam piercings, mas porque apresentam pouco – ou nenhum – conteúdo, ainda que vivam no melhor momento da evolução da inteligência humana e tenham muitos e poderosos mecanismos para adquirem informações e aplicá-las em suas vidas. Quando são inúmeras as possibilidades de desenvolvimento intelectual e cognitivo, a geração código de barras põe tudo a perder preferindo a mesmice e a vida superficial.

Marcelo Maroldi

Redação

View Comments

  • É, querido amigo, vivemos num mundo muito diferente daquele que conhecemos há 10 anos. As mudanças são estonteantes, tanto que chegam a dar náuseas. O nosso velho e conhecido a.C/d.C foi substituído pelo a.I/d.I: antes e depois da Internet. Mas eu ainda sou meio apocalíptica: acho que qq hora isso ainda pode dar merda... ou não. Bjinhos e belo texto, como sempre :)

  • Pois. A geração perdida deveria ler este texto do Marcelo Maroldi. Talvez os fizesse refletir um pouco. Mas não, eles estão fuçando a vida alheia no Orkut (o que não é nada de mais, se feito de maneira moderada, porque a curiosidade é inerente ao ser humano), conversando em chats, (também não seria nada de mais, se feito de maneira moderada) e visitando sites de bobagens (repito o que escrevi nos outros parênteses). É o que sinto em relação a outro mal, já fora do assunto abordado pelo Maroldi: a violência entre torcidas de futebol. Se os animais que marcam brigas em estádios via internet assistissem aos programas esportivos da tv fechada, eles saberiam o quão idiota eles são. E que tudo que andam fazendo não leva a nada.

  • esse texto me leva apensar que o jovem de hoje essa geração de pessoas acomodadas deixam de ver a realidade pra ficar alienadas se a internet fosse usada para um bem maior mais nosso país estaa em plena guerra civil e com inumeros problemas mais os jovem tampam seus olhus com scraps e fotus de blogs e msn e orkut .. bah tchê acho que a nuca coisa que falta e envesti mais na educaçõa do nossu povo..
    valeu grande abraço texto é um bom inicio pra começar a pensar ...

  • O texto é bom, porém senti muito pessimismo. Por que os jovens não são como os de antigamente? Por que nós pais, também não somos como foram nossos pais. Se a nossa geração foi boa, devemos isto a educação que recebemos de nosssos pais, se a geração atual não é tão virtuosa, culpa nossa. Afinal onde foi que os jovens foram educados, e quem os educou? As crianças nascem como antigamente: nuas, carecas, folhas brancas... ou não?

Recent Posts

Consulta pública sobre o PAAR de São Paulo está aberta até 23 de maio

A Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo abriu uma…

4 dias ago

Site do Iphan orienta sobre uso da PNAB para o Patrimônio Cultural

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançou a página Aldir Blanc Patrimônio,…

5 dias ago

Seleção TV Brasil receberá inscrições até 5 de maio

Estão abertas, até 5 de maio, as inscrições para a Seleção TV Brasil. A iniciativa…

5 dias ago

Edital Transformando Energia em Cultura recebe inscrições até 30 de abril

Estão abertas, até 30 de abril, as inscrições para o edital edital Transformando Energia em Cultura,…

1 semana ago

Congresso corta 85% dos recursos da PNAB na LDO 2025. MinC garante que recursos serão repassados integralmente.

Na noite de ontem (20), em votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) no Congresso…

2 semanas ago

Funarte Brasil Conexões Internacionais 2025 recebe inscrições

A Fundação Nacional de Artes - Funarte está com inscrições abertas para duas chamadas do…

2 semanas ago