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Incentivo à produção audiovisual de forma colaborativa

Educação Proibida já é um dos filmes mais vistos neste ano na Argentina, país de origem do diretor Germán Doin. Disponibilizada gratuitamente na internet, a produção contabiliza 605 projeções independentes em cerca de 20 países, quase quatro milhões de reproduções na web, 300 mil downloads e mais de 60 mil fãs no Facebook, desde sua estreia, há algumas semanas.

Misturando animação, ficção e entrevistas, o filme é uma reflexão sobre o sistema de ensino ocidental. Além do tema muito apropriado para o contexto, outro fator chama atenção: a produção de US$ 62.700 foi integralmente financiada via crowdfunding, com a colaboração de 704 pessoas.

Do lado de cá da fronteira, o maior caso de sucesso de financiamento coletivo de um longa-metragem ainda é de Belo Monte – Anúncio de uma Guerra, que arrecadou R$ 140 mil para finalizar a produção do documentário, que discute os despautérios na construção da hidrelétrica no Parque do Xingu, na região norte do país. O timing, o talento da equipe por trás do documentário e o engajamento do público ajudaram o filme a conquistar o financiamento e lotar as sessões de sua première no Auditório Ibirapuera.

Além disso, a conquista abriu os olhos de diversos produtores audiovisuais brasileiros para o modelo recém-chegado ao país. Atualmente, é grande o número de projetos nas seções de vídeo e cinema dos sites de crowdfunding. Dando uma circulada por essas plataformas, é possível entrar em contato com iniciativas em diferentes estágios de produção e formato, abordando os mais diversos assuntos.

O projeto Amarelos, por exemplo, parte de uma prerrogativa semelhante ao de Educação Proibida. A iniciativa é de um grupo de estudantes da Faculdade Álvares Penteado (FAAP).  O curta documental pretende mostrar o cotidiano dos alunos da Escola Municipal Amorim Lima, em São Paulo, referência na chamada educação democrática pública, focada mais no ensino de valores como a autonomia e a liberdade do que em notas e avaliações cartesianas. O objetivo agora é atingir a meta de R$ 17.145 para que o curta aconteça.

Outro curta, este alertando para a força da indústria do tabaco no país, só acontecerá se a meta for atingida. Dois Pesos e Duas Medidas vai contar a história de José Carlos Carneiro, personagem real que teve ambas as pernas amputadas e hoje estampa a publicidade antitabagista do governo federal nas embalagens de cigarro.

“Ele é um ativista do controle do tabagismo. Sua história é impactante, pois começou a fumar numa época em que a propaganda era ostensiva na grande mídia. Procurou a Justiça para reclamar suas perdas contra a fabricante de cigarros e perdeu a ação. Hoje vive de forma precária e não poupa esforços em contar sua história para sensibilizar as pessoas sobre as questões do tabagismo”, explica Daniela Guedes, coordenadora de relações institucionais da Aliança de Controle do Tabagismo, iniciativa que lançou o projeto do curta documental no Catarse.

Além da produção do curta, o valor inclui a compra de uma cadeira de rodas motorizada para Zé Carlos. “Por enquanto, temos um pré-roteiro e o nome dos especialistas que serão convidados para dar seu depoimento no filme. Ao fecharmos o valor total daremos início à finalização do roteiro e produção do filme”, comenta Daniela.

Atravessando fronteiras – Alguns projetos mais ambiciosos foram ou estão sendo rodados também no exterior, caso de Soroche. Com gravação em três países (Brasil, Bolívia e Chile), o road movie conta a história de três amigos que acordam, sem memória, em um lugar no meio do nada.

No caso de Soroche, a dinâmica da coletividade não está só na forma de financiamento. A história foi criada a partir de conversas e brainstorms entre Marco Matheus e seus colegas do Coletivo Benzino, responsável pelo filme. “Em meio a encontros informais em botecos na região da Augusta e Paulista, idealizamos o filme, a partir de três princípios: originalidade, qualidade e financeiramente viável, uma vez que não estávamos a fim de investir tempo e energia no sistema burocrático do governo de prospecção de verba. Simplesmente queríamos pegar a câmera e filmar o quanto antes possível”, afirma Matheus.

Os atores que participam do filme também entraram na empreitada pelo entusiasmo com a ideia. “Chegamos a algumas situações engraçadas de ter que inventar a cena que iriamos filmar no dia seguinte, íamos em algum boteco de La Paz e ficávamos discutindo o que seria legar ter no filme, escrevíamos e no dia seguinte estávamos lá filmando. Conseguimos voltar da Bolívia com um rico material de filmagem, porem um tanto desconexo”, explica.

Quem também foi longe para conseguir realizar o filme foi Raquel Diniz. Ela viajou até Osaka, no Japão, para captar imagens para o documentário Kamagasaki –  a favela secreta do Japão. Mais do que isso, Raquel viveu 10 dias no local para conseguir entender a dinâmica e conhecer de perto o povo e os costumes do local.

Segundo seu relatos, a experiência foi engrandecedora. Em Kamagasaki vivem mais de 30 mil pessoas, entre idosos alcoólatras fugindo da família, jovens com sub-empregos, empresários imobiliários arruinados pela especulação na década de 1990 e a Yakuza, máfia que controla o jogo ilegal e a prostituição na área. Ela conta: “os moradores não queriam ser filmados e cheguei a receber ameaça de ser presa já que é um problema revelar a miséria de um bairro que pro governo japonês não existe.”

Raul Perez

Jornalista, foi repórter do Cultura e Mercado de 2011 a 2013. Atualmente é assessor de comunicação da SPCine.

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