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Márcio Bergamini vence concurso #FronteirasSP

Brasileiro, natural de Rondônia, paulista de coração, professor de língua portuguesa e espanhola na rede pública do Estado de São Paulo, desde 2009, Márcio Bergamini é escritor. Trabalhou em atuação, dramaturgia, direção e produção teatral na Cia. Gigio Produções Artísticas, em Voturporanga/SP. Graduando em Pedagogia pela UNESP/UNIVESP de Rio Claro/SP. Na literatura, tem se dedicado ao estudo da literatura erótica e pornográfica, com foco em análise estética e discursiva; na educação, estuda as possibilidades de trabalhos  envolvendo filosofia aplicada à educação infantil.

Bergamini foi leitor mais ativo e participativo do Cultura e Mercado no período do concurso e terá direito a um passaporte do Fronteiras do Pensamento, que começa nessa quarta-feira, dia 25/5 com presença de alguns dos mais importantes pensadores da atualidade. Além dos comentários, Márcio atuou nas redes sociais com suas ideias, propostas e contribuições ao debate sobre políticas e o mercado cultural.

Fiz uma pequena entrevista com o vencedor do concurso, explorando a relação entre cultura e educação:

Leonardo BrantComo você enxerga a relação entre cultura e educação na política pública atual?

Márcio Bergamini – Sem querer ser reducionista, mas, tomando o sentido stricto de Cultura enquanto conjunto das produções simbólicas, estéticas e a produção diversificada das várias formas da linguagem artística, e entendendo Educação também no sentido stricto da instrução escolar e da produção do conhecimento cultural, técnico, científico e acadêmico, apenas para delimitar a opinião, penso que a relação entre entre esses dois campos de produção do conhecimento é, na prática, distante e existe apenas no papel. Há uma política para a Cultura e outra para a Educação. A primeira, cuida da produção simbólica e do que concerne à área, artistas, incentivos a eles, etc. A segunda, cuida das questões curriculares, pedagógicas e administrativas de um sistema obsoleto. Apesar de legalmente prevista na política educacional, a produção cultural simbólica, tanto de professores quanto alunos, quase não ocorre e, quando ocorre, pouco valor ou reconhecimento recebe, seja por parte do poder poder público ou da comunidade em geral. Não existe, na Educação, a cultura da Cultura. Os alunos não são educados para apreciar esteticamente músicas, quadros, teatro, etc. Ele conhecem superficialmente as obras; mas não reconhecem seu valor estético, simbólico e os efeitos que elas podem trazer para a vida deles, seja no aspecto pessoal ou coletivo.

LBComo poderíamos transformar essa realidade?

MB – Com uma reforma do sistema educacional de base, que desse valor maior à produção cultural, que investisse na formação dos professores, e que transformasse a escola em um local de produção da cultura em seus múltiplos sentidos; que permitisse ir além do estético, do simbólico e chegasse às fronteiras do político, do social. Deve-se criar a cultura da Cultura, por isso penso que se deve reformar desde a educação infantil, de 0 a 6 anos, até os anos finais do ensino médio.

Para isso, é preciso rever toda a prática da escola atual, as intenções do sistema, realizar adequações que contemplem as necessidades do sujeito contemporâneo. A Educação está presa ao quinhentismo. É ultrapassada. Precisa urgente de mudanças profundas e pouca gente percebe isso ou sabe indicar mudanças plausíveis para com o contexto e de acordo com as necessidades. Gosto das propostas do Morin, do Luc Ferry, do Nóvoa, por exemplo, entre outros. São propostas de integração, de reestruturação do sistema educacional que observam as necessidades atuais e se desprendem de coisas ultrapassadas, valorizam o sujeito e suas produções. Infelizmente, ainda estamos muito longe disso.

LBO audiovisual e as tecnologias de informação e comunicação podem se tornar oportunidades educativas? Como?

MB – São oportunidades educativas muito ricas que não recebem, ainda, o devido valor dentro da prática escolar, sobretudo na escola pública. Não há infra-estrutura para isso, a começo de conversa. Por exemplo, escolas recebem computadores razoáveis, em termos tecnológicos, mas não têm espaço para montá-los e operá-los adequadamente. Se o espaço existe, não existe qualificação do profissional da educação. Conheço professores que pedem ajuda para ligar um DVD. Parece estranho, mas é o que mais observei, nesse pouco tempo de prática, é o despreparo de muitos professores para lidar com as TICs. Usam de forma banal, sem que tenha que seja signficativo para o aluno, sobretudo o vídeo.

Se houver estrutura e qualificação,  as TICs permitem acesso e troca de informação em um tempo muito rápido. Permitem interação com pessoas de vários lugares do mundo, com culturas distintas e com conhecimentos que sequer os alunos podem imaginar. É possível conhecer linguagens e reproduzi-las concretamente na sala de aula. Conhecer línguas, ampliar o repertório cultural, quando não há oportunidade ou acesso às produções in loco.

Evidentemente, é necessário que o professor esteja preparado para gerenciar a informação e orientar o aluno em todo o processo; do contrário, ela não se transforma em conhecimento.

LBComo cultura e educação podem potencializar o processo de formação do indivíduo?

MB – Precisamos considerar cultura e educação como coisas indissociáveis e, nesse sentido, observar que as políticas devem exercitar, não apenas no plano legal, mas sobretudo no plano prático, a complexidade necessária para o desenvolvimento do sujeito. Devem oferecer, ao sujeito, oportunidades de se desenvolver social e moralmente em um sistema que não seja dividido, mas cujas partes dependem uma da outra para a formação integral. Devem valorizar as produções simbólicas, estéticas, incentivá-las e, principalmente, oportunizar o contato com esse material, não oferecendo dinheiro, como alguns programas sociais, mas tornando essas produções efetivamente acessíveis à grande parte da população, preferencialmente, desde a mais tenra idade, para que se crie, desde cedo o hábito da apreciação e produção estética e cultural.

Redação

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