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MERCADO DE ARTE – Do prazer ao investimento, uma experiência completa

Ana Carla Fonseca Reis avalia como, atuando na alma, no ego ou no bolso, três impulsos se complementam e convergem para uma mesma decisão: investir em obras de arte. Nesse universo que envolve economia da cultura e economia criativa, algumas vertentes culturais sempre saltam aos olhos. Cinema e música, por exemplo, já motivaram amplos estudos setoriais. Outras, porém, raramente vêm à mente de primeira. É nessa categoria que se enquadram os mercados de arte. Mas, afinal, o que leva uma pessoa a se enveredar por aí? Prazer, status, dinheiro. Atuando na alma, no ego ou no bolso, esses três impulsos se complementam e convergem para uma mesma decisão: investir em obras de arte.

O mais direto deles traz a aura mágica da subjetividade. O retorno psicológico, o prazer, envolve a dimensão estética da obra, e exige, por decorrência, uma avaliação pessoal, ditada pela alma ou pelo coração. Situação retratada com maestria por Yasmina Reza na imperdível peça “Arte”, onde um exasperado Marc critica seu caríssimo amigo Serge, ao descobrir o quanto este pagou por um quadro branco, com listras brancas, pelo qual se encantou.

Já o status segue uma lógica simples: arte é um luxo. Sendo assim, quem pode, compra; quem não pode, sonha o consumo de arte na mesma categoria do veleiro, da Ferrari e das longas férias ao redor do mundo. E, dentre as expressões artísticas, quem mais sofre com essa pecha de inacessibilidade é a arte contemporânea. Afinal, se a motivação é o reconhecimento social, como garantir que o que está na moda hoje não deverá ser rapidamente retirado da parede amanhã e escondido em algum armário, sob a volúvel etiqueta kitsch?

Para nossa sorte, essa premissa, que estrangula a própria produção de arte contemporânea, é perfeitamente discutível. Acreditando nisso, várias iniciativas interessantes foram implementadas e reeditadas nos últimos anos. Em uma delas, o Conselho de Artes do Canadá criou o “Banco de Obras de Arte”, com o objetivo de promover o aluguel das obras junto ao mais vasto público possível, no país e no exterior. O programa também apóia os artistas canadenses, ao adquirir suas obras com recursos advindos do faturamento do banco. Atualmente são mais de 18 mil obras, cujo aluguel anual varia de U$120 a U$3.600 (dólares canadenses), por um contrato mínimo de dois anos. Cereja no bolo: os custos de locação são dedutíveis dos impostos a pagar.

Outra experiência original vem do Reino Unido, onde o Arts Council (agência nacional de desenvolvimento das artes) criou o programa Own Art (com o duplo sentido de “possua arte” e “arte própria”). Lançado em fins de 2004, o acordo envolve 250 galerias na Inglaterra e na Escócia e dá uma mãozinha para a compra de obras de arte contemporânea de artistas vivos, em uma gama que vai de artesanato a artes plásticas, de jóias a esculturas. O estímulo vem da concessão de empréstimos por uma subsidiária do HSBC em um valor máximo de £2.000, sem cobrança de juros e pago em até dez vezes. Com isso, as galerias ganham com a ampliação do mercado; os artistas, com a divulgação e a venda de seus trabalhos; a sociedade, com a possibilidade de ter acesso a um mercado até há pouco hermético (por desconhecimento e/ou falta de recursos). Segundo informações do Arts Council, em menos de um ano já haviam sido concedidos empréstimos no valor de £1,6 milhão para 2500 compradores.

Falando de números, chegamos a um terceiro motivo pelo qual cidadãos como você e eu podem se enveredar pelo misterioso mundo das obras de arte: o retorno financeiro. Aqui, de fato, entramos em uma dimensão que adiciona aos modelos econômicos uma aura de combinações alquímicas. Ora, mas qual lógica de investimento não traz em si um toque de hermetismo, a exemplo da língua própria falada no planeta dos pregões?

Como se o clima dos investimentos já não fosse suficientemente acalorado, o mercado de arte traz uma pimenta extra à tentação. Se em uma bolsa comum as ofertas são via de regra intercambiáveis, no mercado de arte um produto normalmente não é substituível. Mais do que isso, é único. Um Picasso é um Picasso e ponto final.

Outra característica interessante é o número de agentes envolvidos, bem como sua composição original. Nesse mercado atuam produtores (artistas), agentes distribuidores (marchands), consumidores privados (colecionadores, empresas com coleções de arte próprias, institutos culturais) e consumidores públicos (museus, centros culturais, órgãos públicos com coleções de arte ou ainda responsáveis por espaços públicos que encomendam obras de arte para dispô-las nesses locais), utilizando diferentes canais de distribuição (galerias, casas de leilão, feiras de arte, ateliers).

Os mercados, aliás, são cruciais para familiarizar o comprador com seu objeto de desejo. Dentre eles, sem dúvida o mais glamouroso é o das casas de leilão. Mesmo sem ter jamais participado de um leilão, a maioria de nós não consegue conter um certo frisson ao visualizar a cena do desfecho de um duelo de lances. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, Christie’s e Sotheby’s, as duas principais casas de leilão do mundo, decidiram em 1998 buscar a manutenção da liderança (que somava, nesse ano, 39% do mercado de obras de arte), estreiando experiências de cotação em bolsa e pela Internet.

Outro canal fundamental de comercialização e distribuição de obras de arte são as feiras, em especial para a arte contemporânea. Lapidar nessas manifestações é a Art Basel, que ocorre anualmente no mês de junho, na Basiléia. Criada em 1969, a feira congrega 270 galerias de arte do mundo, exibindo trabalhos de cerca de 2000 artistas dos séculos XX e XXI. Outras feiras importantes ocorrem em várias cidades do mundo, como a ARCO, em Madri; a Art Cologne, na Alemanha; a Chicago Art Fair e a Turin Art Fair.

O Brasil se inseriu nesse seleto circuito de feiras internacionais de arte moderna e contemporânea com a SP Arte, que em sua terceira edição congregou 59 galerias, das quais 33 de fora de São Paulo. Mas vale lembrar que uma feira gera mais do que faturamento; ela torna o mundo das artes mais próximo de nós e desmistifica uma aura de inacessibilidade que, ainda hoje, faz com que muitos brasileiros sintam-se constrangidos de entrar em uma galeria. É um processo de formação de platéia, que este ano já encantou 10 mil pessoas. Que siga neste ritmo por muitas e muitas décadas.

Ana Carla Fonseca Reis

Ana Carla Fonseca Reis

Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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  • Gostaria de saber em que período da nossa história tivemos uma política voltada para a música brasileira. Aonde isso aconteceu? Nas academias? Nos grandes teatros municipais? Não tivemos nenhuma política voltada para a música brasileira e continuamos não tendo. Até o estudo com profundidade de que temos notícia sobre a música brasileira, foi enterrado com Mário de Andrade. O que andamos de lá pra cá, foi com biografias, muitas delas fantasiosas onde o personagem tomou conta de sua contribuição efetiva para o desenvolvimento da nossa música pela lógica do escritor. Vivo reclamando aqui e aos quatro cantos, se precisamos compreender o tamanho do preconceito com as nossas matrizes culturais, é só rever os nossos boletins institucionais que vamos ver que a música andou a léguas de qualquer projeto no Brasil. Ela, que é fartamente usada pelo povo, paga o preço de ser muito popular, de vir do povo. As academias gostam de apresentar em sua agenda curricular a música e técnica de caráter eminentemente europeu.

  • Boa tarde!
    Como é que se torna um artista vendável?
    Por concursos? Não se trata de participar de concursos com critico renomado ou artistas, o que categoriza uma arte hoje em dia? Tudo já foi feito não é? Basta cair nas graças de um ou ...
    obrigada

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