Ecologista sonora e pesquisadora com ênfase em artes sonoras, musicista e radiomaker, Janete El Haouli foi Professora no Departamento de Música e Teatro da Universidade Estadual de Londrina, de 1981 a 2011. Idealizou e atualmente dirige a TOCA: arte ação criação, voltada para a disseminação e promoção das artes sonoras em seus múltiplos aspectos e facetas.
Cultura e Mercado – Você se define como uma “ecologista sonora”. O que isso significa?
Janete El Haouli – Sou musicista e pesquisadora com ênfase na experimentação sonora da voz, do rádio (como mídia criativa e não apenas reprodutiva) e da criação com paisagens sonoras. A ecologia sonora é um campo de estudos que me interesso e que permeia minhas atividades desde meados dos anos 1980, quando tomei contato com a obra do compositor, educador e pesquisador canadense R. Murray Schafer (1933), principalmente o World Soundscape Project (Projeto Mundial de Paisagem Sonora), por ele fundado nos anos 1960, juntamente com um grupo de profissionais, na Simon Frase University, BC, Canadá. Esse trabalho foi uma das primeiras tentativas de se estudar o ambiente sonoro e o impacto da tecnologia sobre ele. O projeto Soundscape Vancouver foi o primeiro estudo sistematizado sobre o ambiente sonoro, publicado e disponibilizado na internet. Portanto, a ecologia do ambiente sonoro veio somar e intensificar minha percepção do ambiente sonoro e da música em amplo sentido. Isso mudou o modo como concebo o som e consequentemente meu trabalho em rádio, com rádio e sobre rádio.
CeM – O que você acha que tem faltado aos profissionais de rádio hoje em dia?
JEH – Embora minha experiência com rádio esteja vinculada a emissoras educativas-culturais com viés artístico, tanto no Brasil como no exterior, acredito na necessidade de se impulsionar a criatividade e inventividade possibilitando a experimentação e a produção de conteúdos radiofônicos mais instigantes e que possam surpreender os ouvintes. Me refiro aos profissionais das rádios acima mencionadas mas também penso que os profissionais de rádios comerciais, comunitárias e livres deveriam se ocupar e questionar o que produzem e como produzem. Por exemplo, conhecer os repertórios históricos poderia ser uma referência importante pois muito já foi feito nesse campo cultural-artístico, mas pouco se sabe e se difunde. Fomentar e principalmente instigar a curiosidade dos produtores das emissoras para explorarem essa mídia sonora também me parece fundamental. O que vemos/ouvimos, de modo geral, é a repetição de modelos padronizados de produção e de programação radiofônica. E pior, tal modelo é retransmitido pela internet sendo que essa plataforma possibilitaria tantas e variadas experimentações da linguagem sonora radiofônica.
Um outro aspecto que gostaria de salientar é que talvez devêssemos questionar e reavaliar a disciplina de rádio estar presente apenas nos cursos de Comunicação Social/Jornalismo e Rádio/TV. Existem os profissionais de rádio que tiveram sua formação acadêmica e outros que a tiveram na prática. No entanto, observo que a maioria desses profissionais (dentro e fora da Academia) desconhecem as produções históricas do chamado rádio artístico ou radioarte, bem como do rádio cultural, educativo. Portanto, não apresentam aos estudantes as diferentes modalidades e possibilidades do que poderia ser a experimentação da linguagem sonora radiofônica. Fizemos esse trabalho em nossa universidade junto aos cursos de jornalismo, de teatro e de música e os resultados foram singulares.
Sabemos que músicos, literatos, dramaturgos, poetas, cineastas entre outros, desde os anos 1920, realizaram trabalhos de criação radiofônica que são referências fundamentais para um pensamento e principalmente uma escuta mais instigante da mídia sonora rádio. Existem vários encontros sendo realizados na Europa, Canadá, EUA e outros tantos países. Destacaria, aqui, a Bienal Internacional de Rádio do Mexico, iniciada em 2002, já em sua 11ª edição, da qual tive oportunidade de participar de seis edições ministrando cursos e conferências. Nesses encontros, participam profissionais que atuam nas áreas de rádio, teatro, música, cinema, audiovisual, jornalismo, literatura e percebe-se a importância do intercâmbio de experiências e conhecimentos produzindo uma mixagem criativa dos diversos gêneros de produção em rádio. Enfim, o que falta é curiosidade e coragem para mudanças de atitude.
CeM – Qual papel o rádio ainda pode/deve exercer nos dias atuais? Isso está acontecendo?
JEH – Antes, uma pergunta necessária a ser feita: de que rádio estamos falando e qual rádio desejamos praticar? Como já exposto, minha experiência está vinculada a emissoras educativas-culturais, principalmente as universitárias. Observa-se que estão fazendo pouco diante do que é possível. O rádio é uma mídia sonora e, portanto, nos convida e nos instiga a pensar sobre a forma como os sons, as músicas, as palavras, as vozes e os silêncios (silêncio no rádio?) podem oferecer múltiplas conexões, possibilidades de relações e escutas. Por outro lado, o que ouvimos é a repetição da mesmice. De modo geral, a maioria das emissoras reproduzem e/ou imitam um modelo de rádio que ‘ensurdece’ as pessoas pela sua proposta puramente mercadológica. Penso que talvez os responsáveis pelas rádios não ousem apresentar aquilo que o público desconhece ou que pensam não gostar, para não correr o risco de perder audiência. Mas se enganam pois hoje o indivíduo tem centenas de opções de ouvir rádio pela internet e outros meios. Mas podemos afirmar que o rádio jamais irá morrer. Ele se transforma, se adapta e incorpora as inovações tecnológicas sem deixar de ser rádio.
Portanto, se queremos falar de um rádio que contribua para romper os padrões e modelos adotados pela grande mídia radiofônica, a contestação deveria se dar corajosamente pelo investimento na experimentação, pela mudança de atitude e investir na produção de conteúdos que atendam às mudanças da sociedade atual. As emissoras educativas-culturais são o espaço ideal – e único – para a produção, criação e difusão de uma programação musical, cultural e jornalística que não dependa do poder econômico dos anunciantes e, teoricamente, têm maior liberdade e independência, além de, obrigatoriamente, terem compromisso com a cultura e a educação. Da mesma forma, esse deveria ser o objetivo das rádios comerciais, comunitárias e das rádios livres – incluindo aquelas que surgem e se propagam pela Internet –, dependendo, logicamente, da coragem, convicção e persistência dos dirigentes e da equipe de radialistas.
Essas reflexões resultam, principalmente, do meu percurso profissional e acadêmico-artístico nos espaços da rádio cultural-educativa-universitária, da rádio comunitária e da radioarte (como musicista, produtora de rádio e artista sonora). Um percurso que começou com a criação do programa Música Nova, apresentado semanalmente, de novembro de 1991 a março de 2005, pela Rádio Universidade FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina. Entre 2001 e 2005, tive a experiência de dirigir a Rádio UEL FM e essa atividade mostrou-me que mudanças são possíveis. Em uma programação que seguia, de modo geral, a “receita MPB”, centrada principalmente nos grandes medalhões da música nacional pós-anos 70, passamos a inserir programas que traziam outras sonoridades do Brasil e do mundo. Contando com a participação de 30 colaboradores voluntários, a programação foi ampliada e passou a abranger a música de diversas regiões do Brasil (cantada e instrumental), a música independente local e nacional, a música popular brasileira antiga, a moderna música popular do Brasil e da América Latina, a música erudita (da idade Média ao século XXI), músicas orientais, diversas vertentes do hip-hop, do rock, do choro, do reggae, do jazz e do samba, música infantil, músicas de tradições populares, poesias, crônicas sobre o cotidiano de Londrina e vinhetas cujos sons, vozes e palavras fugiam da previsibilidade. O rádio deve causar surpresa. O rádio deve romper a previsibilidade. O rádio deve provocar a imaginação do ouvinte. O rádio pode mudar o modo de pensar de uma sociedade.
CeM – É possível viver (financeiramente falando) de rádio hoje? Como você vê os modelos de negócios nessa área?
JEH – Não posso responder essa pergunta por não atuar no ramo de negócios. Mas acredito que todo trabalho feito com responsabilidade e competência pode ser remunerado de acordo com o modelo proposto pela empresa e/ou instituição empregadora, assim como seus interesses e objetivos. E obviamente, do interesse e desejo de quem faz. O que falta são bons profissionais com desejo de implementar novas praticas radiofônicas, tanto na rádio hertziana como pela internet, seja na rádio comercial, cultural, educativa, comunitária e mesmo nas rádios libres e webradio.
Como disse anteriormente, minha experiência está voltada para as rádios educativas e em particular as rádios educativas universitárias públicas. Portanto, acredito que é possível viver trabalhando com rádio em suas diferentes modalidades se feito com competência, responsabilidade social, sensibilidade e coragem para inovar e causar surpresas no mercado cultural e, por que não, no mundo dos negócios. Afinal de contas, necessitamos ser surpreendidos com ações que nos sensibilizem, e nossos ouvidos clamam por ações sonoras inteligentes, criativas e inovadoras. Necessidade urgente.
A Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo abriu uma…
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançou a página Aldir Blanc Patrimônio,…
Estão abertas, até 5 de maio, as inscrições para a Seleção TV Brasil. A iniciativa…
Estão abertas, até 30 de abril, as inscrições para o edital edital Transformando Energia em Cultura,…
Na noite de ontem (20), em votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) no Congresso…
A Fundação Nacional de Artes - Funarte está com inscrições abertas para duas chamadas do…