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Núcleos criativos em inovação para séries

No Brasil temos discutido muito novos modelos de negócio e até mesmo novos modelos de produção. Mas ainda discutimos pouco os novos modelos de criação, as novas formas de organizar as equipes criativas.

Reescrever sempre e diálogo com Supervisão Artística
A primeira coisa é aprender a escrever e reescrever. Reescrever muitas vezes, muitas vezes. O modelo de televisão diária criou uma urgência que incentivou gênios que sabem escrever muito bem,  mas ainda não têm o hábito de reescrever. A criação de um roteiro de seriado premium é baseada na constante reescrita e no aperfeiçoamento do mesmo roteiro por meses a fio. Pode ter agilidade ao criar outros roteiros em paralelo, mas é necessário ter a capacidade de criticar o próprio roteiro e continuar reescrevendo.

Para ajudar a reescrita é necessário aprender a ter mais diálogo com a supervisão artística. A supervisão não precisa limitar a autoria, ela ajuda a autoria a se fortalecer. Ao mesmo tempo que, é claro, orienta a autoria para criar em diálogo com as demandas do público.

Essa supervisão ainda não existe. Nenhum canal e nenhuma distribuidora de cinema tem roteiristas contratados para fazer essa supervisão. Em minha experiência pessoal, fiz um seriado para a FOX que tinha supervisão de roteiristas sediados em Los Angeles. Foi maravilhoso trabalhar com eles e aprender a forma como trabalham. Mais do que inibir minha autoria, eles a potencializaram. Ao mesmo tempo garantiram que minha criação dialogasse com as demandas do Canal. Já no Edital FICTV (que elaborei para a TV Pública e que produziu 8 séries) tive a oportunidade de mudar de lado e dar consultoria para as séries produzidas. Para isso montamos equipe de consultores que ajudava em roteiro e também em direção e produção. A televisão ainda não aceitou o conceito de supervisão artística, o que limitou nosso poder de influência no seriado. Mas a consultoria ajudou a melhorar o conteúdo de muitas séries.

A química da equipe e a criação de inteligência coletiva
A grande maioria de roteiros ainda é criada com autores isolados. Até recentemente, autores escreviam sozinhos. Agora é comum colaboradores que escrevem as cenas, mas ainda não participam diretamente da criação da estrutura. Já os seriados americanos são criados com equipe coletiva e sala de roteiristas. Alguns seriados brasileiros já trabalham com sala de roteiristas, redações que aproximam as equipes. Esse método agiliza a criatividade e ajuda a criar inteligências coletivas. Isso é genial, pois temos que entender que o autor dos dias de hoje é aquele que incentiva que todos os “colaboradores” sejam autores. Assim como o líder atual é o que incentiva todos a serem líderes.

O autor contemporâneo é aquele que incentiva o surgimento de novos autores. O autor não é mais o gênio que tem as melhores ideias. Ele é o gênio que deixa surgir a química da inteligência coletiva. Para isso ele percebe quais foram as melhores ideias numa reunião criativa, sejam as suas, sejam as dos outros. Ele é aquele que garante a unidade da obra, que percebe se uma ótima ideia se encaixa ou não. Ele não está preso no ego de defender sua ideia contra a ideia de um colaborador. Ele está solto na conexão de gerar uma inteligência coletiva com todos os coautores.

Só da para perceber quem tem talento para ser esse novo tipo de autor na prática. Há pessoas que escrevem bem, mas são autistas. Não ouvem. O primeiro talento desse novo autor é ouvir, não criar. Há pessoas que ainda não ouvem, mas podem aperfeiçoar esse talento ao trabalhar numa equipe orientada por essa nova ética criativa.

A importância da pesquisa e dos consultores
Além disso, é necessário ter maior relação com pesquisadores e consultores. O grande diferencial dos seriados é a pesquisa aprofundada, algo que ainda temos pouca prática. A pesquisa ainda é usada apenas para garantir que não hajam “erros”. Já a pesquisa de um seriado não é apenas para evitar erros, é para garantir grandes acertos. É a pesquisa que garante a inovação, a descoberta de um novo universo e de uma nova ética retratada sem maniqueísmo do melodrama tradicional. A pesquisa de universo é algo criativo. Ela acontece junto com a criação e interfere até mesmo na forma dramática da obra.

A pesquisa também pode ter ligação com a presença de consultores na equipe. Muitas séries podem ser criadas em diálogo com escritores e intelectuais que já conhecem o universo retratado. É interessante pensar que boa parte dos grandes sucessos do cinema brasileiro dos últimos anos vieram a partir de roteiros que foram criados a partir de pesquisas anteriores. “Cidade de Deus” vem do livro de Paulo Lins, que foi escrito a partir da pesquisa com Alba Zaluar. “Tropa de Elite” foi escrito a partir de pesquisa e do livro de Luiz Eduardo Soares. Ainda temos muitos exemplos ligados à questão da violência. Mas a pesquisa pode ser para todos as outras questões, desde condição da classe C até o amor contemporâneo. Criar, ao menos alguns projetos, em parceria com esses grandes intelectuais é outra inovação no desenho de criação que estamos propondo.

Oficinas de criação e diálogo com a responsabilidade social
A formação também é importante, mas pode estar mais próxima da criação. Para isso, os processos criativos podem, em alguns casos, gerar oficinas de criação com pessoas que ainda não são roteiristas, mas podem participar do processo criativo dando ideias. No Workshop Cidade dos Homens, realizando há 10 anos com a O2, tivemos em torno de 420 pessoas participando de um universo online. Pode ter oficinas menores que ajudam a dar ideias sobre o universo e, ao mesmo tempo, oferecem cursos para as pessoas, em diálogo com a área valores de responsabilidade social.

Núcleos Criativos em Inovação para Seriado
Temos um imenso desafio que é criar rapidamente vários seriados inovadores, tal como exige a atual demanda. A formação é essencial, mas é um processo demorado. Temos que começar, mas temos também necessidades mais urgentes. Por outro lado, temos poucos roteiristas com real conhecimento da linguagem do seriado. O assunto está na moda e começou a ter estudos para isso, mas o seriado americano já tem uma cultura de décadas que exige autores que estejam realmente sintonizados com essa estrutura há algum tempo.

Podemos ser criativos também na criação de novos modelos de criação. Uma solução imediata é pensar em Núcleos Criativos com supervisão artística de autores mais experientes e incorporação de novos autores menos experientes e /ou com experiência em outros formatos.

Esses Núcleos Criativos para Seriados podem estar dentro de emissoras (de TV aberta e fechada),  de grandes produtoras, agências ou até mesmo ser empresas de roteiristas independentes em contato com os canais. Esse desenho de criação recupera o modelo dos birôs de criação, mas para a criação de seriados. Uma equipe desse tipo pode desenvolver vários projetos em paralelo, com equipes diferentes e um roteirista que atua como diretor de criação. É um modelo mais próximo das gestão criativa nas agências de publicidade, por exemplo. Esse diretor de criação é um profissional que conhece roteiro para seriado, mas atuaria principalmente como supervisor, mantendo o contato com as necessidades dos executivos do canal, com o futuro diretor do seriado e com as pesquisas de audiência. Esse modelo agiliza a criação coletiva e equipes criando em paralelo. Isso pode gerar mais agilidade na formação de equipes e mais diversidade dos talentos. Um exemplo: os roteiristas de uma equipe serão sempre o doctoring da outra equipe, aproximando a supervisão da criatividade e criando um fluxo mais natural de trabalho.

Pesquisa qualitativa
Há a opção de criar processos criativos que já incorporem a pesquisa qualitativa. Isso pode ser através de leituras do roteiro, através de eventuais encenações e/ou de produção de pilotos e pesquisa qualitativa a partir dos pilotos. Isso tem um custo extra, mas existe essa possibilidade. O projeto FICTV (que criou series para TV Pública) teve uma experiência nesse sentido. O projeto financiou a criação de oito pilotos de série e três series completas com 13 episódios. A seleção para a segunda etapa era baseada numa pesquisa qualitativa do piloto. A pesquisa também orientou a revisão do piloto das próprias séries aprovadas e de toda a estrutura dos demais episódios produzidos.

Um exemplo a ser melhor estudado
Por fim, vale citar um exemplo de tudo que expomos nesse capitulo: a PIXAR, estudo de animação americano. Vivemos falando que o audiovisual é uma atividade de alto risco e isso é verdade. Mas o fato é que, até hoje, a PIXAR não errou em nenhum filme. Alguns são obras primas, mas todos são bons filmes. Alguns foram imensos sucesso, mas todos tiveram razoável sucesso.

Para alcançar tantos resultados, o estúdio realiza tudo isso que expus nesse artigo e, acredito, muito mais do que eu posso compreender. Ela ainda é um caso a ser melhor estudado. Mas o fato é que a PIXAR, tal como era o estúdio Bauhaus, é um estúdio que é também uma escola. Ela promove o encontro entre criação, formação e pesquisa. A pesquisa é desde pesquisa do conteúdo até a pesquisa qualitativa com crianças que avaliam os personagens antes do filme entrar em produção. A ideia de supervisão é normal dentro da empresa e os artistas mais experientes se tornam diretores de Núcleo Criativo. O exemplo da Pixar mostra como funciona a inovação de valor em criação audiovisual e como ela pode nos ajudar a reinventar nossa indústria, atendendo às demandas de nosso público e divulgando nossa cultura.

Bibliografia:
A estratégia do Oceano Azul, W. Chan Kim e Renée Mauborgne
A exceção e a Regra, Domenico di Masi
Nos bastidores da Pixar, Bill Capodagli e Lynn Jackson.
Manual de Roteiro, Leandro Saraiva e Newton Cannito
A televisão na Era Digital, Newton Cannito

*Última parte do artigo (clique aqui para ler a primeira parte, aqui para ler a segunda e aqui para ler a terceira parte

Newton Cannito

Cineasta e escritor. Foi Secretario do Audiovisual do Ministério da Cultura. É presidente da Associacão Brasileira de Roteiristas.

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