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O Estado que impõe e o Estado que dispõe

Acompanhe a entrevista com Célio Turino, Historiador e Secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura

Está aqui talvez o programa governamental de cultura mais inovador em atividade hoje no mundo. Isso porque reconhece a cultura em toda a sua complexidade. Nos Pontos de Cultura o popular pode virar erudito, o social pode ser econômico, gente massacrada pode virar gente livre. Por trás do programa tem alguém com cacife, que sabe o que fala e cumpre o exercício da práxis – ciência de quem pensa antes de fazer e que faz conduzido pelo pensamento. No limite, pela ética.

Estamos falando de Célio Turino, que responde ao lado do Alfredo Manevy o primeiro time do secretariado do Gil. Isso na minha mais modesta opinião. Neste espaço costumo apresentar as pessoas que entrevisto segundo as minhas referências pessoais. No caso tanto do Manevy quanto do Célio, fico sem palavras. A admiração não veio daquela cumplicidade trazida pela amizade longínqua. Veio pelo respeito à seriedade e compromisso público dos dois.

Reconhecimento não é bajulação. Estamos aqui para cobrar de nossos servidores públicos a efetividade de seu trabalho. Os que têm realmente este ímpeto lutam por um lugar de liberdade de expressão e opinião.

A minha é que os Pontos de Cultura estão longe de transformar o “poder fazer” em coisa realizada, consolidada. Há muito caminho pela frente, desafios a superar. Cultura e Mercado pergunta a Célio Turino que caminhos são estes, nesta excelente entrevista, feita uma semana antes do segundo turno das eleições presidenciais:

Leonardo Brant : Você poderia fazer um panorama das políticas culturais brasileiras hoje?Célio Turino: Penso que o país nunca teve política pública de cultura, entendendo política pública enquanto a construção de um valor socialmente apropriado. Confunde-se muito política pública com política de Estado. Considero ser até um avanço essa aproximação. Mas mesmo enquanto política do Estado – este representando a hegemonia de um grupo social sobre outra – ela ainda é restrita. Da mesma forma e pior que isso é confundir política pública com programa de governo, concepção ainda mais restrita e limitada. O que tem ocorrido no Brasil é, no máximo, a construção de algumas políticas de governo, e muitas vezes menos que isso – a ação pública vai se desenvolvendo a partir de quem ocupa determinado cargo.

 

Nos últimos anos houve um esforço no sentido de se construir uma política de Estado e pensar mais adiante numa política pública. Desta forma, a sociedade vai conversando e construindo uma idéia sobre cultura, bastante ampla e variada. As pessoas confundem cultura com erudição, outros arraigados defensores da cultura consideram-na libertadora por si, e ela não o é. Ela pode escravizar, reproduzir preconceitos. E, no entanto, é na cultura e na arte que encontramos frestas que permitem à sociedade buscar sua emancipação e se reconhecerem como sujeitos em si e não para si. Essa visão de cultura é que tem orientado a minha intervenção enquanto gestor público de cultura. Tanto no MinC (Ministério da Cultura), como no departamento de lazer na prefeitura de São Paulo, ou na Secretaria de Cultura em Campinas; essa visão foi sendo construída ao longo do tempo, de forma que a nossa busca tem sido a de fomentar e potencializar os sujeitos históricos, o reconhecimento de que todos são produtores de cultura, de que ela não deve estar subordinada a uma hierarquização entre alta e baixa cultura, cultura erudita, popular ou de massa. Há uma integração nesse processo. Muitas vezes a cultura dita popular ou de massa, a cultura vulgar de hoje, pode ser a cultura clássica de amanhã. Por exemplo, a Divina Comédia de Dante Alighieri. Dante escreve no século XIII em vulgar florentino. Até então a única língua letrada era o latim e a sua obra deu origem ao italiano moderno, tornando-se clássica, assim como Shakeaspeare (que fazia teatro popular) e Camões (que escrevia em vulgar lusitano). Esse movimento de incorporar a língua do povo, a língua chamada vulgar, ocorre até hoje. O jeito de andar, a cultura da rua, o linguajar, sofrem um processo de reprodução e imitação nas sociedades de massa. Eu coloco isso para mostrar como essa distinção não é tão clara apesar de vários teóricos trabalharem de forma muito compartimentada, com modelos muito rígidos, ela não acontece desta forma. Portanto é melhor buscarmos uma plataforma mais ampla de produção de cultura, entendendo as várias manifestações como legítimas, aproximando esses pontos para que se comuniquem e se enriqueçam neste processo de troca. Essa é uma grande necessidade dos tempos de hoje, inclusive a comunicação entre as várias formas de expressão e interpretação do mundo.

LB: Você citou as diferenças entre política Pública, de Estado e de Governo. A intenção mais específica quanto ao programa Cultura Viva, mas também falando do ministério do Gil como um todo, é a de implementar políticas governamentais que desencadeiem em políticas de Estado e também em política pública, aquilo que é de domínio público. Quanto à questão dos pontos de cultura, como vocês entendem esse processe até chegar na política pública, como é que se dá a arquitetura estratégica dos pontos de cultura? O que vem depois desse processo, que ainda caracteriza uma relação do governo com entidades, beneficiários da ação, que é muito direta: repasse de verba, com necessidade de entrega de serviços públicos como contrapartida dessa verba?CT: Para entender os Pontos de Cultura é necessário voltar ao discurso de posse do ministro Gilberto Gil quando ele falou do do-in antropológico. Nesta época eu ainda não trabalhava no Ministério e lembro-me que este discurso foi mal interpretado, principalmente pela imprensa de São Paulo, que ridicularizou, folclorizou o que seria o do-in, que no discurso estava claro: ele buscava um massageamento do ego da cultura brasileira em suas diversas manifestações. No entanto, no início do governo a ação do ministério da cultura no campo da acessibilidade não deu concretude a esse pronunciamento, tanto que, originalmente, a intenção era construir alguns centros culturais pré-moldados, as “BACs”, bases de apoio à cultura. O problema da não concretização desta idéia foi de ela ter partido de um diagnóstico equivocado; o que falta para a cultura se desenvolver não é espaço físico ou equipamentos. É claro que um teatro bem equipado permite que a arte se realize em melhores condições, assim como um conjunto de oficinas, laboratórios, estúdios de gravação são fundamentais. Porém mais importante e essencial que isso é exatamente buscar o fomento daquilo que já vem sendo produzido, pois cultura se refere à expressão, à alma e acontece em qualquer lugar. A idéia original de construção das BACs sofreu uma série de percalços e acabou não se concretizando.

 

Em 2004 o Ministro Gil e o secretário executivo Juca Ferreira me convidaram para assumir a secretaria e reformular a política de acessibilidade à cultura. A primeira iniciativa que a gente tomou foi a de fundir dois programas que existiam no MinC mas que andavam em paralelo. Um era o programa de cultura e educação, o outro o de cultura e cidadania. Não há como pensar em cidadania sem educação e vice versa. Batizamos o programa de Cultura Viva, nesse entendimento de que a cultura é orgânica e assim como a estrutura óssea e a musculatura de um organismo vai crescendo com o tempo, as instalações e equipamentos culturais devem seguir o mesmo fluxo. Note que aqui há uma grande diferença de estratégia, pois o comum é privilegiar a inauguração de obras suntuosas, outras nem tanto, mas que seguem sempre esse caminho: primeiro a casca, depois o conteúdo. E a idéia da apropriação pública destes espaços vai sendo deixada de lado de o equipamento cultura, e a própria cultura, vão se burocratizando, fossilando e se prendendo a vários preconceitos. Além do fato que é muito comum, governos gastarem milhões na construção de um teatro ou museu e praticamente nada na sua programação ou acervo.

A estratégia que lançamos foi no sentido contrário, no lugar de olhar somente a estrutura, considerar o fluxo, a vida, aquilo que acontece de fato, potencializando as ações já desenvolvidas pela sociedade. A nossa idéia não é a de levar cultura para o povo, idéia iluminista de que alguém que detenha a cultura possa levá-la para uma massa inculta. Levamos luzes sim, mas para focá-las naquela cultura que é efetivamente desenvolvida pela sociedade potencializando a integração entre as diversas expressões e representações da cultura. Como é um conceito novo, não seria apropriado repetir o nome de casa de cultura ou outra sigla governamental qualquer, até porque a nossa intervenção não poderia ofuscar a personalidade daquilo já está sendo realizado, algumas vezes há séculos, por diversas comunidades espalhadas pelo país. Buscando um nome para traduzir esse conceito da potencialização das ações culturais já desenvolvidas pela sociedade foi que, relendo o discurso de posse do Gil, encontrei o Do-In antropológico, e achei aquilo genial. O Do-In é ir direto ao ponto, é massagear pontos do organismo. Se entendemos a cultura como organismo vivo, nada melhor que promover essa acupuntura social, identificando e fortalecendo espaços de recepção e de irradiação de cultura onde ela é desenvolvida, abrindo caminho para um processo de compartilhamento entre Estado e sociedade. Definimos este novo conceito, ainda em desenvolvimento, Gestão Compartilhada e Transformadora.

LB: O que você entende por Gestão Compartilhada e Transformadora?CT: Esta nova forma de gestão não pode ser pura e simplesmente um compartilhamento de responsabilidades entre Estado e sociedade, pois isso significaria apenas um processo de desobrigação do Estado com relação a determinados direitos, e entendemos que o direito essencial da realização humana é a cultura. Aqui entra o elemento transformador, através de uma perspectiva emancipacionista. A Gestão Compartilhada e Transformadora baseia-se em três pilares: a autonomia, o protagonismo e o empoderamento social. No lugar de dizer o que deveria ser feito com os recursos que oferecemos, o que fizemos foi perguntar, ouvir. E as soluções vão sendo encontradas pelos próprios protagonistas, ou seja, aqueles que já fazem cultura e que se propõem a serem Pontos de Cultura. Em determinada comunidade pode haver a necessidade de investir mais em oficinas, ações permanentes de capacitação, de realização de determinado produto cultural. Então elas vão fazer seu plano de trabalho em função disso; ou usar recursos para mais equipamentos, adaptação de instalações. Disponibilizamos até 185 mil reais para cada Ponto de Cultura, dinheiro que é distribuído em 5 parcelas semestrais. A partir do próximo ano o desejo é de que as parcelas sejam anuais, facilitando e desburocratizando o processo (prestação de contas, de aplicação do recurso etc), aplicando conforme o plano de trabalho do proponente. Há uma diferença na ação de governo que temos feito. Historicamente, os governos são extremamente concentradores de recursos da sociedade. Aplicam-nos em determinadas ações. Concentra-se para fazer um canal de irrigação, por exemplo. A forma de relacionamento de construção do Estado com a sociedade é impositiva, monopolizadora, represadora das energias sociais. Esse é o Estado que impõe. Por isso que os Estados cobram impostos com tanta eficiência. O que estamos tentando praticar – e temos consciência de que vai levar muito tempo para esta mudança de paradigma – é exercitar um Estado que dispõe. E o Ponto de Cultura pode ser um ótimo locus para este exercício. No lugar de concentrar energias, buscamos liberar energias, e estas se desenvolvem de maneira autônoma, sem um direcionamento prévio. A própria forma de seleção de projetos, via edital, nos auxilia na construção deste novo processo de relacionamento e conversa entre Estado e sociedade.

 

LB: O como se deu o processo de seleção?CT: Foram quarenta dias entre formulação conceitual do programa e o lançamento da nossa primeira ação, pois a idéia de movimento é fundamental para a construção do programa Cultura Viva. Do contrário a gente vai se fossilizando, burocratizando. Pois a cultura não é abstrata e se revela em cada uma de nossas atitudes, inclusive na de gestores. No primeiro edital (julho de 2004) recebemos 850 propostas e no segundo (2005), mais de 2000; e cada proposta apresentava uma solução diferente desde capacitação de indígenas para o audiovisual (Vídeo nas Aldeias), até ações voltadas para comunidades quilombolas, assentamentos rurais, favelas, até grupos de pesquisa e experimentação em teatro, dança, música erudita. Na verdade, algumas pessoas fazem uma leitura um pouco apressada dos Pontos de Cultura e até os confundem com os centros populares de cultura (CPC-UNE), ou com o movimento de cultura popular do início dos anos sessenta. Há até uma referência que fazemos a estes movimentos, principalmente o movimento de cultura popular de Paulo Freire. Como é um programa de acessibilidade, vamos interligando diversas expressões marginalizadas, mas isso não significa uma “estética da pobreza” ou uma “cultura pobre para pobres”, pelo contrário, o que se encontra nos Pontos de Cultura são trabalhos com a arte erudita, experimentalismo em linguagem teatral e dança, cultura digital… Mas ao mesmo tempo também bebemos na fonte de raiz, junto com maracatu, escola de samba, com pontos de cultura de foco maior no choro, fandango, não enquanto folclorização destas expressões, mas enquanto referências, patrimônio, pontos de partida. E é nesse esse processo de interligação entre os Pontos (cada qual com suas experiências, pontos de vista e competências) que o Cultura Viva se realiza plenamente, pois, do contrário, teríamos apenas uma ação isolada de muitos pontos. O Ponto de Cultura se potencializa não apenas ao fazer o convênio com o governo (o que já é um aprendizado para ambas as partes) e ao receber um recurso regular, mas quando se interliga em rede, porque ai há um processo de desenvolvimento exponencial.

 

LB: É nesse momento que, em sua visão, ela se consolida como pública…CT: Uma base teórica para construção desse processo é Vygotskij, que é um psicólogo e educador que desenvolveu sua teoria na Rússia, logo depois da revolução de 1917, trabalhando com educação infantil. Ele percebeu que as crianças desencadeavam um processo de desenvolvimento mental muito acentuado quando estabeleciam conexões com as outras, o que ele chamou de desenvolvimento aproximal. É o que a gente tenta promover com a aproximação de pontos tão distintos, como um grupo de índios do Xingu conversando, em pé de igualdade, com um Ponto de Cultura de uma Universidade.

 

LB: Essa rede é horizontal?CT: Horizontal, vertical e transversal. Talvez uma boa definição de rede fosse a de um cipoal, com ranhuras, entrelaçamentos, redes intermediárias, estabelecidas por afinidades regionais, temáticas. Para isso precisamos promover algumas ações impulsionadoras. A Teia foi realizada com este objetivo e reuniu todos os pontos de cultura, assim como outras iniciativas assemelhadas, como núcleos de economia solidária. A partir desse encontro aparentemente caótico, as partes se estabelecem, e vão surgindo novas redes; uma rede de mocambos, ou de terreiros do nordeste, ou de dança e experimentalismo em linguagem, e por aí vai. Os grupos vão se aproximando por afinidades. O desenho do Cultura Viva poderia ser definido da seguinte forma: o Ponto de Cultura seria uma micro rede, de âmbito local. O Cultura Viva, uma macro rede, com estímulo governamental. Nesse meio, redes vão sendo estabelecidas, desenvolvendo-se por afinidades temáticas, regionais, etc. Vai se estabelecendo um processo de compartilhamento efetivo entre Estado e sociedade, o que chamamos de Estado ampliado.

 

Esse é um conceito que vai além da estrutura de governo, que se abre para que a sociedade penetre no Estado. Interligado ao conceito de Estado ampliado, também trabalhamos com outro conceito, que é o da esfera pública, que vai sendo reconhecida, reverenciada pelo Estado, em ações como o Ponto de Cultura. Mas há dificuldades, por exemplo, um convênio que a gente estabelece com os Pontos de Cultura (em média R$ 5 mil/mês) tem as mesmas exigências legais que aquele feito para a realização de grandes eventos, com a transferência de milhões de reais. A mesma exigência legal, de prestação de contas, é igual para os dois. A burocracia do Estado está muito mais aparelhada e acostumada a conversar com essas grandes instituições que tem os seus advogados, consultores, economistas, contadores, e não com um grupo de hip-hop, uma comunidade rural… Há um processo de tensão aí. Por outro lado, o grupo de hip-hop e os vários grupos de culturas populares ou de experimentalismo de vanguarda sempre se colocaram à margem. Não buscaram recursos ou processo de comunicação com o Estado porque sempre encontraram as portas fechadas. Tanto a burocracia do governo quanto estas organizações da sociedade tem que aprender a conviver e conversar. É um processo tencionado, mas que, sendo bem massageado, traz com o tempo bons resultados. O Estado vai ganhando outra feição, moldado à cara de seu povo, não apenas de alguns segmentos, via de regra, os mais poderosos.

LB: Vamos fazer uma projeção para daqui a cinco anos: como que vai se dar a relação do governo com os pontos de cultura? Ainda vai ser com repasse de verba? Ao reconhecer a cultura local, o trabalho que é feito em cada comunidade, acaba-se não só aumentando a auto-estima, mas quanto ao próprio desenvolvimento daquela cultura ou daquele fazer, vai-se dando condição de efetividade. Mas também cria uma dependência do dinheiro. A relação do Estado com os pontos de cultura, daqui a cinco anos, como você o imagina?CT: Num primeiro momento a gente imaginou: “vamos fazer financiamento de 30 meses, depois os pontos vão buscando sua sustentabilidade”. Isso é equivocado, porque a cultura é um elemento essencial para a construção da nação. Portanto, há uma obrigação do Estado.

 

Se o povo já contribui tanto para o Estado, nada melhor que ele retribua minimamente com alguns direitos essenciais. Nós estamos buscando a renovação desses convênios por um tempo mais longo; entre 3 ou 4 anos, num valor total de R$ 200 mil reais. Esta será uma nova mudança de paradigma. O convênio plurianual, num primeiro momento, já sofreu resistência, mas, por contarmos com um departamento jurídico mais arejado no MIC, levamos adiante. Agora vamos trabalhar numa perspectiva de ação de continuidade, de sedimentação e permanência, que dê segurança aos pontos e possibilidade de planejamento a longo prazo. Com isso o Estado vai se comprometendo cada vez mais com a cultura e a sociedade via se empoderando cada vez mais do Estado.

LB: Você acha que isso não atrofia a capacidade empreendedora?CT: Um modelo que a gente estava desenhando era mudar a contrapartida. Hoje o valor total do convênio é dividido em 80% para o governo e 20% para o proponente. A idéia seria mudar para 60% a 40%, e no terceiro convênio (após 6/7 anos), inverter: 60% para o proponente, 40% para o Estado, e então estabilizar entre 40% e 20%. Mas como o recurso não é tão grande, se você fizer a conta dá entre 5 e 6 mil reais por mês. Não é muita coisa, é um salário de funcionário de nível universitário, mais encargos trabalhistas. Mas aplicado diretamente na ponta, esse recurso representa muito. Fizemos uma pesquisa e constatamos que 60% dos Pontos de Cultura se mantém exclusivamente com esse repasse e a média de pessoas atendidas por Ponto é de 5 mil pessoas, entre público direto e indireto. Um exemplo que eu gostaria de citar é o Religare, um ponto de cultura aqui em São Paulo, na Barra Funda, que trabalha com adolescentes egressos da Febem. A única fonte regular de recursos é o repasse do MinC. Com esse dinheiro mais a ação de muitos voluntários e alguns financiamentos esporádicos, eles trabalham com 140 adolescentes, que, entre outras criações, acabaram de montar uma bela peça de teatro que está sendo encenada no Centro Cultura São Paulo, escrita, dirigida e representada por esse jovens. Só para dar um parâmetro, o custo da Febem é de 1.700 reais por mês por jovem. Com um custo de quatro jovens apenas, o Ponto de Cultura Religare está atendendo de uma forma muito mais humana, muito mais ampla, 140. A Febem arrebenta com a vida desses adolescentes. Essa é a diferença do conceito, quando eu falei do Estado que impõe do que dispõe. Um dos pilares para um novo paradigma na relação entre Estado e Sociedade tem que ser o da autonomia, do protagonismo. Essa política governamental que tem sido praticada no Brasil está esgotada. É preciso fomentar o sentido do sujeito histórico, essa é a diferença. O recurso não é tão grande, seria um micro crédito, um micro financiamento para a cultura. Por isso vamos manter o investimento regular.

 

LB: E quais os novos passos da gestão do Cultura Viva?CT: A gestão do Cultura Viva é uma gestão em rede. O Cultura Viva é um programa de governo tentando avançar para uma política de Estado. A próxima etapa, se a gente tiver a oportunidade de continuar desenvolvendo, é o que nós chamamos de gestão intra-rede, buscando dentro da rede as diversas potencialidades em termos de determinadas ações. A primeira experiência que estamos tendo neste sentido é a da ação Griô. Estamos introduzindo nos pontos de cultura a aproximação com a cultura tradicional, o saber oral, popular. Griôs (em francês, griot) são os genealogistas, os contadores de história da África sub-saariana. Fomos observando que dentro dos pontos de cultura do primeiro edital desenvolvia-se essa ação em vários deles. Na cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, nós encontramos a metodologia mais sistematizada e assim procuramos ampliar essa experiência para a rede toda. Transformamos o Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô em um pontão de cultura – que atua como um mobilizador e articulador regional ou temático e recebe um outro aporte de recursos. Com isso publicamos um livro sobre a pedagogia griô, e agora estamos com um edital interno aos pontos de cultura. Não é uma seleção do griô, do mestre, que a gente está buscando, mas o desenvolvimento de uma pedagogia, que aproxima o ponto de cultura com o saber popular e a escola, fazendo essa triangulação. Quem são esses griôs? Os mestres de capoeira, os jongueiros, os reizeiros, um baiano do acarajé, uma rezadeira que conhece as propriedades das plantas. Estamos oferecendo uma bolsa de até trezentos e cinqüenta reais para até seis griôs, de diferentes categorias: temos os mestres griôs, o griô e o griô aprendiz. O valor é o mesmo, o mestre aprendiz é aquele que vai fazer a ponte entre esse saber popular e a escola e o ponto de cultura. Vamos selecionar 50 pontos de cultura que oferecerem os métodos mais interessantes. Essa é uma forma de gestão intra-rede. Enquanto gestores de governo, tínhamos uma idéia geral, mas não tiramos uma política da nossa cabeça (ou de um consultor especializado), mas buscamos na própria rede o conhecimento e os meios de fazer isso. Com a Ação Cultura Digital também vai acontecer desse mesmo modo. Num primeiro momento estamos produzindo os programas de softwares livre para edição de áudio e vídeo, mapeamento de informação, e troca de conteúdos, bem como os encontros de conhecimento livre. Com o Cultura Digital buscamos um conjunto de articuladores, de jovens que trabalham nesse campo, e fomos apresentando para os pontos de cultura. Agora, para o próximo ano, faremos um edital interno para os pontos de cultura de modo que possamos manter um pontão de cultura que vai ficar encarregado da plataforma Conversê (trocas e conversas entre os Pontos) e o Estúdio Livre, que é um espaço de depósito das varias produções dos pontos de cultura (música, áudio visual) e diversos conhecimentos no campo da cultura digital. Também vamos selecionar pontos de difusão digital que vão se encarregar de fazer um acompanhamento mais constante de outros pontos na sua região, ou seja, a gente vai saindo do fórum e entrando no processo, na ação continuada e feita a partir da competência já instalada na rede. Este é um modelo de gestão intra-rede, que também vai culminar, em algum momento, na constituição de uma representação dos pontos, que a gente espera que se dê a partir da TEIA. A idéia é realizar uma nova teia ano que vem e, quem sabe nessa, tirar uma representação dos pontos que possa estabelecer uma interlocução mais constante, mas é claro, sem interromper a relação direta que estabelecemos com cada Ponto.

 

LB: Do ponto de vista de gestão pública, você estava contando a historia das BACs. Do momento que você assumiu o cargo até aquele em que você soltou o resultado do primeiro edital, qual foi o tempo transcorrido?CT: Quarenta dias até o primeiro edital e cinco meses até firmar o primeiro convênio com um Ponto de Cultura, que foi com o Arcoverde, no interior de Pernambuco.

 

LB: Por que esse programa, que é a grande ação programática do Ministério da Cultura, o Cultura Viva, foi gerado e efetivado em cinco meses e a lei Rouanet, de demanda pública tão grande, e o ministério quase todo mobilizado em torno disso, com discursos quase todos alinhados em relação ao que se deve fazer com a lei; por quê o MinC não conseguiu agir com a mesma rapidez em relação a isso?CT: A cultura se burocratiza quando se prende a velhas estruturas, equipamentos a interesses, e foi o que aconteceu ao longo do tempo, principalmente dos últimos anos, onde a gestão publica de cultura – não a política pública – andou por um círculo muito restrito de produtores culturais, a chamada alta cultura, ou a cultura de mercado, estabelecida. Como se olhássemos há uns 150 anos e víssemos apenas os saraus e concertos nas cortes com expressão da cultura da época, nos tempos de hoje, alguns filmes, espetáculos, exposições, ou livros, apesar de financiados com a renúncia de impostos, continuam voltados para um círculo muito restrito de pessoas. Isso criou um estranhamento. Chegamos a ouvir críticas, não vou citar aqui o nome da atriz, mas que fez a seguinte observação: “que absurdo! Antes eu tinha acesso direto ao ministro e ele conseguia um patrocínio direto para que eu realizasse a minha peça, agora eu tenho que fazer isso por edital público, e demora muito tempo”. Era o que se chamava “política de balcão”. O ministro Sérgio Mota, do ministério da comunicação, que controlava as estatais de telefonia fazia muito isso. Com boas intenções até, mas esse é o melhor exemplo de tudo que não deve existir numa política pública, ou melhor, é a própria antítese da política, pois se prende a interesses e gostos individuais. Ao amigo do rei, tudo; aos outros, o além muro da corte, na idade média era assim que funcionava o financiamento à cultura. A própria renovação cultural brasileira, no campo da criação artística, patina, porque,no fundo, os criadores culturais se prendem a um processo só de captação de recursos. Olham apenas para a produção e realização do seu produto e não a circulação, a distribuição. Com isso a renovação estética não acontece, pois são produtos culturais de circulação restrita. Com o Cultura Viva a gente olhou para o outro campo da cultura e aqui eu não falo de linguagens, pois no Cultura Viva cabem todas as linguagens, estéticas e éticas. No início do texto do Cultura Viva eu escrevi que era preciso “ desesconder” o Brasil. Na realidade, essa produção existe, porém encontra-se escondida, e a gente precisa olhar para ela, para aqueles que nunca tiveram acesso a esses mecanismos de financiamento de mercado. Para os que não são amigos do rei, ou de ministros, partidos ou gestores Essa tensão, esse processo de disputa política de interesses em torno da lei Rouanet faz com que as coisas sejam mais lentas.

 

LB: Os lobbys não estão permitindo as mudanças em relação à lei Rouanet? Interesses corporativos? Você diria que em institutos e fundações privadas? Existe um lobby deste grupo? Ou então o showbusines?CT: Principalmente nessa cultura que já está no mercado. Não acompanho muito o dia-a-dia dos processos da lei Rouanet, pois me concentro na implantação do Cultura Viva, posso discutir conceitualmente. Eu diria que quando e Lei Roaunet foi criada, a intenção era a de oferecer uma alternativa de financiamento à cultura. Existe na Lei um conceito consistente, mas a aplicação, principalmente do final do séc. XX até 2002 foi equivocada. “Cultura é um bom negócio”, essa foi a marca do período, ou seja, sinalizaram que a cultura só sobreviveria enquanto mercadoria. A Lei Rouanet, prevê 3 mecanismos de financiamento, o Mecenato via renúncia fiscal, o financiamento público direto, via FNC (Fundo Nacional de Cultura) e Fundos de Investimento. No entanto, apenas o mecanismo da renúncia fiscal recebeu atenção e acompanhamento no governo passado. Ao transformar o mercado (e o pior é quem utilizava de recursos efetivamente privados mas sim a transferência de recursos públicos – via renúncia fiscal – com decisão privada) na única fonte de financiamento à cultura, tratou-se de uma forma única expressões e grupos culturais que deveriam ser tratados desigualmente.O ideal seria que a indústria cultural fosse migrando para um outro tipo de financiamento, prescindindo da renúncia fiscal, como acontece em vários países do mundo.

 

LB: Outra questão que me intrigou na sua fala foi a relação entre cultura e liberdade, quando você disse que cultura não é necessariamente libertadora…CT: No momento em que uma ação de cultura coloca o público apenas como expectador passivo, receptor apenas de um produto de cultura, impede-se a construção do sujeito histórico. Qual era a cultura vigente no Brasil no século XIX? A da legitimação da escravidão. Na sociedade capitalista contemporânea isto fica muito evidente, como no campo do audiovisual. À imensa maioria da população do planeta tem sido negado o direito à sua plena realização como protagonista, o que é fundamental para desenvolver a personalidade humana, de indivíduos e sociedades. O psicanalista Lacan da metade do século XX desenvolveu uma teoria nos anos 30, também, como Vygotskij, a partir da observação de crianças, a teoria do espelho, ele percebeu que a criança só desenvolve plenamente sua personalidade no momento em que se vê projetada no espelho e se reconhece como sendo ela mesma. Os produtos culturais, os de massa principalmente, negam esse direito ao espelho. Eles, no máximo, oferecem uma visão caricata dos vários segmentos da sociedade, as novelas, filmes padronizados que chegam no mundo todo, que colocam um único padrão de vida e sob a perspectiva do consumo. È preciso criar mecanismos para que cada comunidade se expresse por si mesma e da forma com que quer ser vista e não com o olhar do “outro”, que, mesmo quando benevolente ou de cumplicidade, continua sendo o olhar do “outro”.

 

É comum falarmos do dirigismo de Estado em relação à cultura. Mas a escola pública, por exemplo, foi uma conquista da revolução francesa, e é um dirigismo de Estado, na tentativa de uniformizar uma plataforma mínima de conhecimento e conversa dentro de uma nação, os parâmetros curriculares… O problema é que, ao buscar uma plataforma única, quebram-se identidades. E há também o dirigismo de mercado que é tão ou mais devastador que o dirigismo de Estado e, ao tratar todos exclusivamente na sua dimensão de consumidor, também escraviza. Vai se criando uma cultura em série, repetitiva que, mesmo com a aparente liberdade para que cada um expresse a sua marca pessoal (a customização de roupas, por exemplo) impõe ditatorialmente modos de ser e de fazer, artificializando desejos e impondo padrões.

Nos 480 Pontos de Cultura que conveniamos até o momento, o único elemento comum a todos é o kit multimídia. Cada ponto é um ponto, mas todos precisam ter um equipamento de gravação de cd, câmara de vídeo digital e alguns computadores operando como ilha de edição. Isso porque o registro da própria imagem (ou sons e expressões) é vital neste processo de uma cultura que liberta. Não é mais a história do índio ou do favelado sendo contada por um olhar externo, mas a história deles, contada por eles mesmos. Eu acabei de receber do Ponto Vídeo nas Aldeias o DVD Xinâ Bena – Novos Tempos, ele conta o dia a dia da aldeia Hunikui – Acre, a diferença é que foi escrito e dirigido por Zezinho Yube, o cineasta da aldeia e é falado em kaxinawá. Essa é a diferença, uma cultura libertadora e transformadora tem que prever um fluxo de mão dupla.

LB: Eu já ouvi uma crítica ao kit multimídia que é a seguinte: o ministério quer reconhecer o que eu faço, mas não dá autonomia para eu decidir como é que eu vou utilizar esse dinheiro. Ele me obriga a ter o kit multimídia e a fazer o cd quando meu negócio é fazer outra coisa, não há escolha. O que você diz desse comentário?CT: Em um primeiro momento compramos equipamento padronizado. No edital três e quatro, e mesmo uma parcela de Pontos do primeiro (130 pontos), nós incorporamos 20 mil reais para que o Ponto comprasse o equipamento conforme suas necessidades, um pode investir mais em equipamento de áudio, outro em imagem. Mas ter um meio de registro e apresentação é vital. Não entendo que seja uma imposição porque, como disse no início da entrevista, a integração em rede do ponto é essencial. Para que a rede se efetive é preciso que as pessoas se ofereçam às outras, do contrário o trabalho fica circunscrito a eles mesmos, são pontos isolados. Nessa discussão da cultura e liberdade, além dos dirigismos (Estado e Mercado) também devemos levar em conta o micro poder. E são tantos, mesmo pessoas bem intencionadas são tentadas e exercer o dirigismo local, aquela pessoa ou família, que se arvora como defensor de determinado conhecimento ou tradição. Não dá para ter uma visão ingênua ou romântica. Mas como se quebra isso? Não será com uma intervenção direta, pois aí seria um dirigismo combatendo outro. Articulando em rede as pessoas podem perceber outras práticas e experiências. É através de uma forma mais suave que a gente talvez possa fazer essa mudança e provavelmente quem fez esse comentário perceba que o estúdio multimídia pode ser uma bela ferramenta no desenvolvimento do seu trabalho cultural.

 

Sugiro desmembrar para outra pergunta, sobre projeção dos Pontos de Cultura. Na projeção dos pontos a gente está começando a ensaiar o que seria ideal em termos de pontos de cultura com suporte do governo federal. Fizemos uma estimativa de um Ponto por município e mais um para cada 50 mil habitantes. Cada ponto atende de forma mais direta uma comunidade média de 5 mil pessoas, mas isso se amplifica no âmbito local. Além destes, municípios pequenos, mas como comunidades peculiares, como uma aldeia indígena, quilombo ou assentamento rural, poderiam ter mais de um Ponto. Isso daria entre 10 e 12 mil pontos de cultura no Brasil. Se fizermos um planejamento a médio prazo, entre cinco ou dez anos, é bem factível de se atingir. O custo de um ponto de cultura por ano (repasse direto mais capacitação, gestão e avaliação) é de 80 mil reais. Esse investimento seria 800 milhões de reais, para 10 mil pontos de cultura. Fomos estabelecendo alguns cenários para chegar a esse número de modo a podermos traçar uma estratégia. Se repartirmos a responsabilidade com os estados e municípios maiores, como já estamos fazendo com cerca de 40 prefeituras e governos estaduais (Osasco, Nova Iguaçu, Guarulhos, Campinas, Salvador, Piauí, Ceará, Acre) onde, para cada 1 real aplicado pelo governo federal os governos dos estados e prefeituras do sul e sudeste aplicam outro real e nos estados do norte, nordeste e centro-oeste, cinqüenta centavos, dá para ir avançando. Seriam editais estaduais ou municipais e não mais o geral. No Piauí conseguimos implantar 17 pontos de cultura com um único convênio, em Guarulhos, 16 pontos de cultura, e eles fizeram um edital próprio de seleção dos pontos de cultura. Veja que esse valor de 800 milhões para chegar aos 10 mil pontos, pode ser reduzido em 40%, 50% no orçamento do ministério; mas o investimento na ponta aumenta, pois vamos somando contrapartidas dos governos e dos próprios Pontos Essa é uma idéia que nós vamos a gente vai apresentar para o congresso e quem sabe, poderemos vislumbrar um horizonte de investimentos. Essa também é uma boa alternativa para darmos concretude ao Sistema Nacional de Cultura, unindo entes públicos com a sociedade e criando um planejamento estratégico comum. Com isso a seleção fica local e a partir de critérios também locais, desde que mantidos esses princípios da autonomia, do protagonismo, e do empoderamento das comunidades culturais, com a sua correspondente articulação em rede. Evidentemente, nas regiões essa parceria não for possível, o MINC continuaria assumindo a responsabilidade direta pelos proponentes locais, além dos que já estabeleceram convênio conosco e que precisam funcionar dessa forma direta, até para que tenhamos um laboratório dessa nova engenharia social que se abriu com os Pontos de Cultura.LB: Minha outra pergunta, também uma projeção para daqui a quatro anos, em relação ao programa de governo para a cultura do Lula. Em 2002 o PT lançou a carta compromisso “a imaginação a serviço do Brasil”, que pela primeira vez coloca numa campanha política um programa estruturado para cultura com uma visão ampliada, não enxergando cultura como um setor. O que aconteceu que quatro anos depois houve um retrocesso terrível? O Lula agora coloca um plano de governo muito pior. Sessenta por cento do texto do programa é de base econômica, a justificativa do investimento em cultura é econômico, não só do ponto de vista audiovisual, até das economias solidárias, criativas etc. Temos uma neo-liberalização da cultura, sendo que eu considero o ministério da cultura como praticamente o único oxigênio que o governo Lula tem?CT: Vou te falar com toda franqueza: o programa não incorporou os avanços desenvolvidos no ministério da cultura. Na hora da redação as pessoas encarregadas da cultura não mergulharam no MinC.

 

 

LB: Está claro que o MinC não está no plano de governo do Lula…CT: O programa de cultura do presidente vai ser o formulado pelo ministério da cultura, que incorporou esse avanço de interpretação de cultura enquanto dimensão simbólica, de direito e de economia. Esse é o tripé da formulação desenvolvida no ministério da cultura. A outra é a ampliação da esfera pública. Nunca se avançou tanto na realização de editais públicos, tanto dentro do governo quanto nas empresas estatais. Agora até grandes empresas privadas, como a Votorantin, estão indo por esse caminho de edital público, o que é muito positivo. Vai-se ampliando esse conceito, a cultura indo além da chamada classe artística, de um pequeno grupo. Essa é a ação efetiva do governo Lula e que vai continuar. Na construção do programa de governo, creio que a equipe para cultura encarregada de desenvolver isso não percebeu, não mergulhou nesse aprofundamento conceitual e prático que se desenvolveu no ministério.

 

LB: Basta o Lula estar eleito para haver continuidade dos pontos de cultura?CT: Acho que ainda é uma política de governo transitando para uma política de Estado. É um programa que está inscrito no plano plurianual (PPA), tem orçamento previsto até 2008. Os orçamentos da união são feitos quadrienalmente, o que nos dá uma certa garantia. Mas institucionalmente o programa ainda não se consolidou, o Cultura Viva tem como base um decreto ministerial, nas etapas institucionais existe um decreto presidencial, e além dele a lei. É importante inscrever o programa em lei, mas como é um programa em construção, que trabalha com outros paradigmas, ele é vivo. A própria sedimentação dele ficaria prejudicada se a gente fosse logo pelo caminho institucional, primeiro a lei, depois a ação. Mas é uma prioridade do próximo mandato transformar o programa em lei. Transformado em lei, implantando-o a partir do Sistema Nacional de Cultura e com essa parcerias entre os estados, municípios e a sociedade. Começamos pelo caminho inverso pela sociedade e sinto que foi a melhor opção, agora vamos juntando outras pontas da esfera pública.

 

LB: A grande diferença do Cultura Viva com as grandes ações, principalmente as frustradas do ministério: Ancinav, a Tv digital e a já citada questão do financiamento de lei rouanet, é que o seu programa vingou. Aconteceu. É uma realidade, incorpora 100% do discurso do MinC e se articula dentro dele. Já o discurso e a prática em relação à Lei Rouanet são tímidos. Cultura como bom negócio, mas que seja para todos, é muito tímido. Não houve mudança de paradigma, não há um discurso de que se o que foi investido foi dinheiro público, o resultado tem que ser público.CT: Não tenho condições de entrar nesta comparação, mas é preciso reconhecer que a prática de editais públicos tornou-se efetiva e ela só caminhou neste sentido durante a atual gestão do MINC. Em Pontos de Cultura o investimento anual do governo é de 50 milhões de reais, dinheiro diretamente aplicado nas comunidades, isso nunca aconteceu antes; além disso, tem uma série de outros editais, Funarte, Audiovisual, Jogos Eletrônicos, Culturas Populares, Indígenas, Revelando os Brasis; houve avanços em todas as áreas. Cultura para todos, mas dentro do negócio, é tímido, concordo, mas estamos caminhando em outro sentido.

 

LB: Me parece que o mote da sua secretaria, como na do Márcio, é aquele de se praticar com a sociedade, trabalhar os conteúdos e democratizar a educação. Como isso se dá no seu trabalho?CT: Essa conversa é boa porque vai permitir a abertura de alguns referenciais conceituais. Minha forma de pensar é dialética, apropriando-se de conceitos da fenomenologia (Husserl e Merleau-Ponty), em que a construção do conhecimento e dos conceitos se dá nos processos, é construtivista. E isto provoca uma outra forma de pensar e estabelecer planejamento. O comum é olhar para a estrutura e depois para a ponta. Eu faço o inverso, pois não consigo pensar linearmente. O Cultura Viva reflete este jeito de pensar e que, nas minhas andanças pelos Pontos de Cultura, eu tenho percebido que é muito próximo do jeito de pensar do povo brasileiro. Um jeito circular, que mistura histórias, referências variadas (ou antropofágicas), necessidades, pensamento fantástico.

 

LB: Existe um comitê interministerial que trabalha cultura e educação. Eu li a pauta e minha visão é o que o MinC possa oferecer mais para o MEC, em termos de visão de educação, colocar a experiência da Cultura Viva, dar autonomia para a escola, construir o conhecimento a partir do local, onde o próprio educando constrói sua formação. Quando vemos me parece mais uma pauta de “vamos inserir no currículo os saberes populares”, fico preocupado, pois quem tem que definir isso é o próprio cidadão. É um tipo de interferência de se mexer na estrutura dada, nas diretrizes curriculares, se não continua sendo dirigismo cultural, você não acha?CT: As políticas públicas de educação são muito institucionalizadas, hierarquizadas, presas às estruturas, e isto não é um problema deste governo nem de outro, é um problema da gestão pública da educação, que é muito pesada e representa interesses coorporativos. Vejamos com o programa de governo do Cristóvão Buarque, onde sua grande bandeira é a educação. Ele não conseguiu olhar para fora da escola, se despir de preconceitos e deslocar o olhar da estrutura para o fluxo. Fluxo sem estrutura não funciona, concordo afinal nosso organismo não funciona assim. Mas estrutura sem alma, sem fluxo, é oca. Essa forma de negligenciar o fluxo é muito presente na sociedade ocidental, exercitada ao longo de séculos. Não é tão simples mudar, pensamos numa idéia e logo tentamos colocá-la na forma. “A forma deforma a forma” foi que ouvi de um menino de um Ponto de Cultura (pena que não anotei o nome dele, mas o seu haikai ficou em minha mente). Se pretendermos atacar seriamente o problema da má qualidade da educação será preciso despoluir a nossa mente. Educação não pode ser reduzida a Escola. Educação tem que ser para toda vida, continuada e acontecendo em qualquer lugar. Educação em tempo integral sim, mas Escola em tempo integral, já vimos que não é o caminho mais eficiente. Não dá para apartar educação da vida, é preciso envolver a comunidade e transformar todos os espaços em espaços de educação e convívio social. Em Nova Iguaçu estamos ensaiando uma experiência assim, com a Escola-Bairro e os Pontos de Cultura terão uma participação ativa neste processo. A idéia é simples, usar o que já existe, melhorar ambientes, educar a todos. O Cultura Viva tem uma ação que chamamos de Escola Viva e os Pontos de Cultura podem fazer essa aproximação entre comunidade e escola, entre o saber popular e o científico, entre a educação não formal e a formal.

 

LB: O Cultura Viva está isolado no Ministério?CT: Não, pelo contrário, são dois programas do MINC inscrtos como meta presidencial: o Monumenta e o Cultura Viva. Neste ano houve entre dez e vinte programas da Esplanada dos Ministérios que não sofreram contingenciamento orçamentário, entre eles o Cultura Viva.LB: Quando houve a mudança de estrutura do ministério falou-se muito em sobreposição de funções. Um dos grandes desafios do segundo mandato é essa questão dos programas estruturantes. O Sistema Nacional de Cultura e o Cultura Viva, e as outras secretarias de identidade e diversidade, você não enxerga um sombreamento?CT: A gente tem trabalhado muito o conjunto, em todas as secretarias promovemos esse processo de aproximação. Dos Pontos com o sistema nacional de cultura, temos conversado muito, eu com o Marcio e com o Sergio Mamberti, com a idéia de que vamos sedimentando e eles vão passando a linha. Os encontros das culturas populares, o edital capoeira- viva, tudo acaba se cruzando. Haverá o ponto de leitura, via secretaria do fomento, novo cruzamento com os Pontos. Com o ministro Gil e o Juca, essa tem sido a tônica: transversalidade e complementaridade entre as secretarias do MINC.

 

 

 

LB: Não existe um risco de transformar Ponto de Cultura, que nasce sob perspectiva de protagonismo etc, em ponto de difusão de serviço cultural?CT: Não. A idéia do ponto de cultura é o de recepção e irradiação, é física quântica mesmo, que vai mudando rotas, rumos, a partir de pequenos pontos. A própria implantação do programa é assim. Não pensa que tudo já estava previsto que não mudamos de rota várias vezes. No início o Ponto de Cultura era uma ação do programa, depois fomos compreendendo que o Ponto tem essa característica de ser o sedimentador, o Ponto de apoio. Hoje temos quatro ações que se integram ao Ponto (Griô, Escola Viva, Cultura Digital e Agente Cultura Viva – bolsas para jovens) e estamos abertos para outras, como os Pontos de difusão digital; pontos de leitura; Cultura para a Paz, estabelecendo os pontos de cultura como mediadores de conflitos , gerando discussão sobre discriminação, violência e direitos humanos. O agente das comunidades é quem fará a mediações. É a sociedade resolvendo os seus próprios problemas e no seu próprio ambiente. Quem sabe os Pontos de Cultura como Pontos de Microcrédito, economia solidária.

 

Pontos de Cultura enquanto experiência de política pública se aproxima da teoria da ação comunicativa do Habermas, promovendo a aproximação entre mundos, mas essa não é a nossa única matriz de pensamento. Temos Gramsci, Marx, um pouco fora de “moda” na últrima década, mas que volta com grande vigor e é fundamental para a discussão sobre mercado, alienação e emancipação. Há também uma forte influência no campo da psicologia social, da psicanálise, Lacan, Vigotskij, os frankfurtianos, Eric Fromm. Outro autor que gosto muito é Norbert Elias, sociólogo conceituado que só foi reconhecido no fim de sua vida, nos anos 80, no seu livro Processo Civilizador ele demonstra de que forma ações mais sutis de aproximação, de comportamentos de longo prazo que são biológicos e irracionais, influenciam a cultura e a vida social. Também Milton Santos (“a solução dos problemas do Brasil vira da escassez… e dos de baixo… olhando o território, porque é no território que a vida acontece”), Anísio Teixeira, Paulo Freire, Mario de Andrade, eles estão muito presentes na construção do programa Cultura Viva.

O Cultura Viva está hoje sendo exercitado do alto do ministério da cultura, quem sabe mais adiante ele siga sozinho, pela sociedade. Mas é preciso regar mais, pois são apenas 2 anos de programa, ainda é muito pouco tempo. E ele pode ser uma experiência para a aplicação em outras políticas públicas, não como um modelo, mas como experiências a serem observadas. Temos nos pontos de cultura o tambor da saúde, que são jovens que trabalham com DSTs, é uma experiência que pode ser espraiada, nessa forma de mudar processo de educação, de a escola se abrir à comunidade. O Ponto vai marcando o desenvolvimento econômico local, num processo diferente, de penetração da sociedade nos estamentos de poderes locais e que tem interferência na economia. Na foz do São Francisco, há um ponto de cultura de teatro, de jovens que moram lá. Quando viraram ponto de cultura eles foram ganhando projeção, houve incentivo ao artesanato local e agora já pensam até em hospedarias familiares. Numa região como essa, em Alagoas, sabe-se que essa garotada nunca teria condições de apresentar um projeto para as autoridades locais. Com o Ponto de Cultura Olha o Xico eu presenciei um momento especial, foi em Penedo, prefeitos e autoridades estavam reunidos só para ouvir a Dalva (dirigente do Ponto) e seu projeto de trilha no baixo São Francisco Alagoano. E, quem sabe, daqui a uns anos, não teremos a nossa trilha do São Francisco, como a trilha Inca, no Peru ou de São Tiago de Compostela, e com ela, uma nova economia, solidária, pode ir brotando nas margens do velho Chico. No vale do Araripe foi semelhante, houve um “louco do bem”, um músico muito bacana, cuja mulher é arqueóloga. Essa é uma região de fósseis de dinossauros voadores, peixes de água salgada que só são encontrados no interior do Ceará e na costa da África. Antonio Conselheiro passou por lá, donde aquela interpretação de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão deve ter vindo. Pois bem, essa região do sertão que atesta que a América do Sul esteve colada à África, tem uns belos Pontos de Cultura. Com o ponto de cultura de Nova Olinda a economia da cidade foi revitalizando de tal forma a economia da região ganhou força do couro, o turismo cultural. Eles montaram hospedarias familiares a 40 reais por noite com suíte, televisão, refeições, etc. Esses processos de interferência local revelam que os Pontos de Cultura têm grande capacidade de mexer em relações do poder local, nas relações econômicas, até. No começo, dentro do ministério, começamos a identificar o programa com cultura e cidadania, com a questão da acessibilidade às comunidades mais pobres. Hoje vemos que esse programa mexe essencialmente no simbólico. Como país colonizado, nós fomos tendo vergonha de nós mesmos; o jeitinho brasileiro, por exemplo, virou algo pejorativo, quando ele é reflexo de nossa criatividade, tolerância, tolerante, não é fundamentalista, mas maleável. Por favor, não se confunda jeitinho brasileiro com levar vantagem em tudo (uma invenção do mercado publicitário). Nosso jeito suave de falar, com ondulações… Ao tocar nesse campo do simbólico, o Ponto de Cultura pode mudar relações locais e quem sabe mais adiante, relações sociais e políticas. Como já disse, há física quântica no Cultura Viva, Prigogine, Kapra, o ponto de mutação, as micro-soluções, a pequena interferência que muda toda uma realidade; o bater da asa de borboleta (que por sinal, no exemplo da teoria, acontece no Brasil e não em Pequim – vc sabia?). Essa é uma utopia factível porque está calcada na vida, que a gente consegue construir e quem sabe mudar o próprio Brasil mais adiante; para isto precisamos aprender a gostar de nós mesmos e assim reunir forças para se transformar. Também ouvi em um outro Ponto de Cultura o “maracatu estrela de ouro”, em Aliança (Zona da Mata de Pernambuco) alguém dizer o seguinte “uma hora vai ter o Brasil vivo”. Quem sabe um dia. È isso, obrigado por me ouvir.

Leonardo Brant

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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