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Os bastidores da desconferência, por Luiz Algarra

“Não é a lei que nos determina, somos nós que a determinamos em nosso operar cotidiano”. Conheça as idéias e propostas de Luiz Algarra, que coordena a Desconferência Geral Cultura e Mercado. E entenda melhor seu funcionamento e importância no cenário atual.

 

Luiz Algarra é profissional de comunicação, com formação em jornalismo PUC/SP e atuação em rádio, televisão e internet. Iniciou suas atividades colocando no ar a TV Livre Sorocaba, pautando o debate sobre democratização da informação no Brasil, em 1984. Atuou como repórter, roteirista, diretor e apresentador em projetos alternativos de televisão, fundou a Luz Comunicação, destacada como um dos primeiros estúdios de produção de Internet do Brasil. Concebeu, desenvolveu e implantou portais educacionais na internet, atuou como consultor na integração de mídias convergentes para TV Globo e participou da concepção e coordenação do desenvolvimento da TV Escola Digital Interativa para o Ministério da Educação e Unesco. Foi membro fundador do coletivo Nave.org, Atualmente dirige a Papagallis – Redes de Conversação para Aprendizagem Informal e, junto com Alberto Blumenschein, coordenam a Desconferência Geral Cultura e Mercado.

Na seguinte entrevista, concedida a Cultura e Mercado, ele nos esclarece pontos sobre a desconferência e aponta sobre a importância de um debate público e a berto sobre a Lei Rouanet:

LB – O que é uma desconferência?

LA – A desconferência é um formato de encontro aberto, não-hierárquico e auto-organizado. Surgiu no final dos anos oitenta de modo espontâneo, para atender à demanda de um público cansado dos encontros formais, seminários e congressos onde poucos falavam sobre temas que nem sempre interessavam a todo mundo.

 

Então a desconferência traz um formato onde não existem conferencistas, ou melhor, todos podem inscrever seus temas e propor debates em uma grade programação livre e democrática para que qualquer um se inscreva e participe.

 

Salas, refeitórios, áreas de convivência e até um árvore frondosa podem servir de espaço para abrigar uma reunião, debate, entrevista ou apresentação propostos por algum desconferencista. Em todos os casos, estes espaços se transformam em espaços livres de conversação.

 

LB – Por que fazer uma desconferência sobre a Lei Rouanet?

 

LA – A comunidade disposta a este debate é bastante diversificada. Pessoas com os mais variados interesses, públicos e privados, imediatos ou estratégicos, conceituais e pragmáticos, se compõem para esta discussão.

 

Reunir estas pessoas em uma palestra ou conferência tradicional não daria conta das possibilidades de exploração do tema, além de parecer um pouco autoritário já que alguém teria que decidir quem fala e quem escuta numa situação como esta.

 

No modelo tradicional algumas pessoas iriam compor a mesa, cada um falaria por uma hora, então estaria aberto um espaço para perguntas, rolariam alguns diálogos “pingue-pongue” e pronto, acabou o tempo, daí: “-As questões mais pertinentes serão respondidas pelo nossos palestrantes por e-mail para seus interlocutores”. Até parece! Nesse modelo ninguém conversa e conversações são fundamentais para a construção de conceitos e conhecimentos em uma comunidade.

 

Então esta desconferência geral do Cultura e Mercado será uma oportunidade de encontro presencial organizado para conversas livres e francas sobre a Lei Rouanet. A troca de experiências, a percepção de como os outros operam, tudo isso vai permitir que cada um também se perceba de uma maneira mais reflexiva, e isto pode ser profundamente transformador.

 

É assim que as conversas nos transformam e quando mudamos, tudo muda ao nosso redor.

 

LB – Você acredita que a desconferência trará luz à discussão sobre a Lei Rouanet?

 

LA – A Lei Rouanet surge como lei na medida que as pessoas operam a lei de uma ou de outra maneira. Cada um que opera esta lei o faz de acordo com suas necessidades, capacidades e conhecimentos acerca da lei e de seu contexto de uso. Sem o operar das pessoas a lei é apenas letra impressa, só isso.

 

Claro que esta não é uma definição formal, legal. Não sou advogado. Mas minha opinião sobre a lei e seu funcionamento é importante bem como a de qualquer outro brasileiro. Somos nós que podemos dizer, em última análise, se queremos ou não esta lei, certo?

 

Mesmo determinada por critérios e limites, a operação da Lei Rouanet tem uma organicidade no cotidiano de trabalho da comunidade que a opera. Esta organicidade testa os limites do texto da lei e pode até mesmo desafiar seus princípios! Ou seja, não é a lei que nos determina, somos nós que a determinamos em nosso operar cotidiano.

 

Certamente teremos nesta desconferência especialistas que trarão uma visão sistêmica sobre a lei e seus usos mas, o mais importante, é que as pessoas que operam a lei lá estarão. Estas pessoas poderão compartilhar as condutas e procedimentos que praticam, os resultados percebidos a partir destas ações e as opiniões que construíram com toda essa experiência.

 

Estas opiniões formadas são determinantes no modo de se operar a lei, de falar dela e conseqüentemente de projetar na sociedade civil uma imagem sobre a lei e sua utilidade. Ou seja, o Brasil convive não só com os resultados percebidos da lei, mas com um falar cotidiano que ajuda a compor a opinião nacional sobre este tema.

 

Esse falar cotidiano é influenciado e influencia o que se publica na mídia, nos blogs e nos artigos e estudos acadêmicos disponíveis até o momento.

 

Toda essa dinâmica de alguma maneira, mesmo com distorções, deve estar sendo percebida pelas pessoas que sentam nas cadeiras do governo, do Executivo e Legislativo. Esta percepção resulta nas propostas, ações ou imobilismo praticado pelo governo até este momento.

 

Para mim este é um desenho simplificado da dinâmica de rede das conversações que sustentam a noção nacional do que é esta lei, seu significado, usos e validade enquanto ferramenta de regulação para o setor cultural. Por isso a discussão da lei determina sim seus rumos, porque tudo surge no falar cotidiano do povo brasileiro, penso eu.

 

Nesta desconferência as pessoas irão conversar e isto sempre muda algo em quem conversa. Esse processo vivido simultaneamente em grupo pode ter um impacto significativo na formação da consciência política deste setor.

 

LB – E a Rede Pensarte, para que serve?

LA – Não dá para pensar um debate sobre um tema de alcance nacional sem o apoio da internet no processo. Uma rede virtual de conversações pode ser um lugar de muitas trocas, debates e reflexões.

 

Se as pessoas estão falando sobre este assunto nos bares, shows e encontros, também poderão expandir estas conversações para além de seus próprios domínios geográficos e a Rede Pensarte é o espaço assíncrono para que isto aconteça.

 

Ou seja, a Rede Pensarte é um ambiente de expressão utilizado pelo indivíduo em seu próprio tempo e espaço, mas que permite à comunidade uma experiência coletiva de conversação.

 

Isto estende para o ambiente virtual as discussões que se instauram nos encontros presenciais, potencializando ainda mais a construção de uma inteligência coletiva sobre o tema.

 

LB – O que faz a Papagallis e como se deu a parceria com o Instituto Pensarte?

LA – A Papagallis é uma rede de pessoas que trabalham com conversações. Atuamos em comunidades, empresas e organizações que buscam, através do diálogo franco e aberto, a solução de conflitos, a implantação de processos de inovação ou apenas uma reflexão lúcida e compartilhada sobre algum tema de seu interesse.

 

Utilizamos diversas técnicas de conversações para democracia radical como o worldcafe, os círculos de diálogo e a própria desconferência para que as pessoas encontrem, a partir de suas individualidades, fluxos de ação harmônicos, mesmo que não haja consenso entre suas idéias e opiniões.

 

Além disso orientamos a implantação de ambientes virtuais para redes sociais de conversação, sempre indicando ferramentas livres e abertas.

 

Tivemos a oportunidade de atuar com Instituto Pensarte durante a Teia 2007 organizando dois dias de oficinas para a construção de um grupo de 150 cidadãos que fizeram a cobertura do evento a partir do conceito de um Jornalismo Cultural Independente. A experiência foi muito boa e deixou um relacionamento de confiança entre nós e o Pensarte.

 

Quando o IP nos apresentou este projeto sobre a Lei Rouanet, a urgência do tema nos moveu para o centro do processo e nos envolvemos totalmente com a metodologia do encontro e a ativação do debate na Rede Pensarte.

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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