Como produtora de cinema ou atuando em organizações como o Congresso Brasileiro de Cinema, Assunção Hernandes tem se destacado na luta pela evolução do setor audiovisual no Brasil
Uma das ativistas mais participantes do audiovisual brasileiro, Assunção Hernandes vem desempenhando ao longo dos anos um papel importante no desenvolvimento desse setor. Ela é ex-presidente do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC) e do Sindicato das Indústrias Cinematográficas do Estado de São Paulo, e à frente da Raiz Produções, está envolvida na realização de alguns dos mais importantes títulos da cinematografia brasileira, como “O Homem que Virou Suco”, “A Hora da Estrela” e “A Dama do Cine Shangai”.
Assunção presidiu CBC pela primeira vez em sua terceira edição, no ano 2000, quando haviam se passado 47 anos desde a última edição. Ela lembra que realizou-se ali “uma tarefa hercúlea, levantando todos os gargalos que asfixiavam o crescimento da nossa atividade. Logrou-se ali um grande êxito em reunir representantes de todos os elos produtivos do audiovisual, de forma a estabelecer todos os pontos convergentes do setor.” Mas o CBC parece ter perdido forças no decorrer dos anos, fato notado especialmente na fraca repercussão e participação além do desejado do 6a Congresso, ocorrida em dezembro passado. Assunção acha que após 2000, “houve um avanço nos objetivos traçados nas resoluções e alguns setores começaram a recuar, atrelando-se aos seus objetivos parciais, desgarrando-se da batalha do conjunto e partindo para preservar espaços próprios, em detrimento do avanço da atividade como um todo, o que traria benefícios para o conjunto do setor.” Ela espera que um caminho comum possa ser novamente reestabelecido a partir da última edição.
Um dos caminhos necessários, na visão da produtora, é o aumento do número de salas exibidoras no país, lembrando que o número irrisório de salas por habitante está perto do nível da Nigéria. “A necessária expansão das salas tem no entanto que focar os 92% da população brasileira que não vai a salas de cinema, ou porque elas não existem na sua localidade ou porque as que existem cobram um preço incompatível com o poder aquisitivo das classes C e D, nosso público por excelência, cujas camadas não interessam do ponto de vista econômico aos objetivos do cinema hegemônico.”
Outra bandeira defendida por Assunção é a da parceria entre o cinema e a TV como maneira de alavancar a nossa indústria audiovisual. Ela explica: “A regulamentação das atividades da TV, como ocorre em todos os países democráticos do mundo, é que permitiu que o cinema americano conseguisse essa força hegemônica mundial, é o único caminho.” Ela sustenta que deve ser estabelecido um percentual máximo de produção própria que os canais de TV possam exibir, e que o restante da programação deve ser composto por produções independentes, através de concessões públicas.
Assunção se mostra antenada com dois dos assuntos mais debatidos nos últimos tempos pelo setor cultural no Brasil: a Diversidade Cultural e a implantação da TV Digital. Sobre o primeiro, ela acredita que “nosso governo deve assinar o texto da Convenção da Unesco, para fortalecer este movimento internacional na busca da diversidade cultural, permitindo a sobrevivência das manifestações de todas as culturas nacionais.” Sobre o segundo, alerta: “Há que se ficar atento com a introdução da transmissão digital no Brasil, que pode ser o momento de democratizar finalmente a comunicação social no Brasil ou de perpetuar, através dos poderosos lobbies, os monopólios dos atuais concessionários de rádio e TV.”
A consolidação da democratização da comunicação tem no audiovisual um de seus agentes mais importantes. Assunção acredita que é necessário dar vazão à produção crescente. “Falta essas obras chegarem ao público , através da instalação de novas salas, da exibição de filmes independentes nas TVs e da popularização de nossos vídeos e DVDs a preços compatíveis com o poder aquisitivo da nossa população. Implantar salas multiculturais populares, regulamentar a exibição de produtos independentes na TV, e fazer campanhas de vendas de VHS e DVDs a preços que o povo possa pagar, o que é a única maneira de combater a pirataria.”
Sobre a atuação do Ministério da Cultura nas questões audiovisuais, Assunção opina: “Esta gestão fez o máximo que pôde, dentro das limitações de um Ministério ao qual é dedicado menos de 0,5% do Orçamento da União, ainda contingenciado em mais de 50% todo ano. Para que um ministério consiga desempenhar suas funções, tem que ocupar um espaço que o Minc ainda não conquistou na constelação ministerial . A tarefa é imensa e muitas das ações, principalmente na área audiovisual, exigem um espaço político que a cultura no Brasil ainda não alcançou. O caso da Ancinav foi um bom exemplo”.
A falta de políticas culturais para o setor no Brasil foi comentada por Assunção na sua participação no seminário “Democracia Audiovisual”, ocorrido em novembro passado, quando afirmou que os processos envolvendo o audiovisual no Brasil são anárquicos e por decisão. “Na medida em que não foi estipulada uma política pública nacional para o audiovisual brasileiro, o que acontece é uma colcha de retalhos nas decisões. Avançamos de forma anárquica e não sistêmica. O Congresso Brasileiro de Cinema tenta a cada edição reafirmar a necessidade de uma visão global dos passos para chegar-se à meta de um audiovisual forte e de um cinema plural, produzindo e exibindo a produção a todos os brasileiros e também caminhando para a conquista do espaço maior no exterior, enquanto exportação.”
O investimento pesado na indústria do audiovisual vem, segundo Assunção Hernandes, da compreensão dos governos da importância dessa produção para a auto estima de uma Nação e o fortalecimento de sua identidade, mas também e principalmente, da compreensão de que essa indústria é uma fonte de riquezas interna e externa e uma atividade criadora de muitos postos de trabalho. “Essa visão ainda não chegou até nossos dirigentes políticos, com a convicção necessária para proceder como a França, a Espanha e a exemplo do próprio Estados Unidos.”
André Fonseca