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Polo de Arte Contemporânea – Enriquecendo a melodia paulistana

São Paulo, cidade criativa, movida a adrenalina, berço de pujança econômica e de efervescência cultural contagiante. Cidade de encontros improváveis e de concretização de projetos impossíveis, tudo nela vibra: ideias, diversidade, iniciativas, inovações das mais diversas ordens. Mas as vibrações não repercutem na cidade inteira – ao menos não com a mesma intensidade. Cidade plural, onde o muito que é oferecido nem sempre é conhecido ou reconhecido. Como soaria a melodia paulistana, se todas as suas notas fossem audíveis?

A São Paulo que vingou sobre conexões de rios e caminhos sofre hoje de uma síndrome aguda de desconexões. Sua escala, suas desigualdades e a tortura diária travestida de transporte público fazem com que a relação das pessoas com o espaço urbano tenda a se restringir a ilhas de trabalho, residência, estudo. Portos seguros, entre os quais navegamos sem olhar. Algumas iniciativas, porém, atiçam o interesse e a vontade dos curiosos paulistanos, a ponto de fazê-los atravessar dezenas de quilômetros para travarem contato com algo inaudito, imperdível, irrepetível.

À luz desse quadro, é mais do que bem-vinda a iniciativa de criação do Polo de Arte Contemporânea. Fruto do reconhecimento da cidade como principal centro de difusão artística do país e crescentemente também do cobiçado circuito mundial, o Polo busca revelar e reforçar o enredamento da arte contemporânea no tecido da cidade, alinhavado a cada dia.

Essa ambição é mais profunda, complexa e fascinante do que se poderia supor à primeira vista. São Paulo, mar a ser desbravado por paulistanos natos ou convertidos, precisa cada vez mais ser reconectada. E é como amálgama de importância singular que se pode entender a arte contemporânea no espaço urbano.

A cidade tem seus circuitos visíveis – equipamentos de primeira linha, programação admirável e não raro de grande arrojo estratégico. Exemplo incontestável é dado pelo impacto da transferência da sede do SESC São Paulo para o Belenzinho, não só na região, mas em toda a cidade. Ávidos pelas atividades imprescindíveis da instituição, muitos passaram a frequentar um bairro que, de outra forma, escaparia ao mapa mental que têm de sua própria cidade. Como não se ama o que não se conhece, expandir os mapas mentais individuais é condição fundamental para a ampliação dos mapas afetivos e da sinfonia urbana.

Nossos circuitos de arte contemporânea são de uma riqueza estonteante, que transvasa muros, distâncias e formalidades, mas são ainda muito pouco mapeados. Em cada canto da cidade brotam iniciativas que complementam os circuitos tradicionais, funcionando como polos de atração e reconexão dos habitantes ao seu próprio espaço urbano. A tessitura dessas notas, que se somam à polifonia paulistana das artes visuais, abrange da inauguração de galerias de arte contemporânea de primeira linha, nos galpões da Barra Funda, ao Sacolão das Artes, no Parque Santo Antônio. E fortalecem a cidade como centro internacional de economia criativa.

Ao reconhecer o potencial da arte contemporânea para a união do visível e do invisível, do formal e do informal, da infraestrutura e da seiva vital, do cultural e socioeconômico, o Polo de Arte Contemporânea pode fortalecer ainda mais o processo de transformação que se propõe a catalisar. Pode ajudar a reunir uma cidade desconectada, fazendo com que a São Paulo de cada um de nós seja cada vez mais integrada e afetiva. E que nos apropriemos de uma cidade que tanto oferece e merece.

Ana Carla Fonseca Reis

Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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