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O Dia em que a Cultura ganhou a Bovespa

Gilberto Gil, Raymundo Magliano Filho, Manoel Rangel, Paulo Mendonça, Luiz Carlos Barreto e Paulo Rabello de Castro Durante discutiram “Convergência Tecnológica e as Indústrias Criativas: o grande negócio do século XXI” na BOVESPA.

Durante a semana mais atarantada dos últimos meses do mercado financeiro, em meio a quedas contínuas nas bolsas de todo o mundo, uma luz brilhou no auditório da maior bolsa de valores da América Latina, responsável por 70% do volume de negócios da região. Na mesa, reuniram-se, lado a lado, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, os presidentes da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, da Ancine, Manoel Rangel, do Canal Brasil, Paulo Mendonça, e outras estrelas do calibre do cineasta Luiz Carlos Barreto e do economista Paulo Rabello de Castro.

Chamar os discursos de entusiastas seria desmerecer a energia que jorrava de cada palestra proferida neste evento, intitulado “Convergência Tecnológica e as Indústrias Criativas: o grande negócio do século XXI”. Bandeira-mor da economia da cultura e da economia criativa, o audiovisual mereceu destaque nas menções e referências. Mas a principal mensagem, a de que a produção cultural brasileira apresenta oportunidades econômicas incomensuráveis para os investidores e para a economia do país, foi gravada em letras douradas na memória dos presentes.

O ministro Gil, primeiro ministro da Cultura a comparecer à Bovespa, ratificou sua intenção de tomar para a sua pasta as questões dos marcos legal e regulatório das telecomunicações, defendendo mais uma vez a ampliação da abrangência da Ancine para essa área. Atiçando o apetite dos investidores pelo setor audiovisual, o ministro lembrou que o mercado mundial de produtos e serviços dessa área gerou em 2005 impressionantes €345 bilhões (cerca de R$1 trilhão, ao câmbio da época). Se dito assim, já soa como um setor atraente para investimentos, vale lembrar que, no mesmo ano, o faturamento audiovisual foi 30% maior do que o de computadores, servidores e periféricos – um setor que, por si só, cresce anualmente a velocidades vertiginosas. Moral da história: o audiovisual apresenta hoje, no Brasil, um potencial imenso para sensibilizar investidores.

A julgar pelas palavras do economista Paulo Rabello de Castro, com a autoridade de quem também é presidente da primeira agência brasileira de classificação de riscos de crédito, trata-se de um manancial que, além de benefícios culturais e sociais, tem enorme sinergia com a atuação da Bovespa. De fato, os bens culturais têm muito a ganhar com a bolsa, a começar pela capacidade que esta tem de formular regras claras para o mercado, diversificando o risco e atraindo uma miríade de novos investidores para os fundos de empreendimentos culturais, como já é tão natural em outros setores da economia. A reação da platéia fez coro às palavras do economista, de que aquele 17 de agosto era “o primeiro dia de um grande caminho de outro grande mercado”.

Luiz Carlos Barreto, cineasta tantas vezes premiado e um dos articuladores do evento, demonstrou com essa iniciativa ter a mesma visão de futuro que dá tom a seus filmes. Para ele, assim como para um grupo crescente de economistas e investidores inovadores, “é preciso que, uma vez na vida, o capitalismo brasileiro se antecipe”. Expoentes desse capitalismo já têm dado mostra de estar além de seu tempo. É o caso de Kati de Almeida Braga, diretora do Grupo Icatu e sócia da gravadora Biscoito Fino e da Conspiração Filmes. Ou do Gávea Investimentos, empresa de gestão de recursos que, sob a batuta do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, aquinhoou participação nas operações brasileira, argentina e chilena da CIE, maior empresa de entretenimento da América do Sul e dona, dentre outros, do Credicard Hall.

Que outros investidores unam-se a esses, impulsionando nossa produção cultural e comprovando, mais uma vez, que a economia pode ser uma poderosa aliada da cultura brasileira.

Ana Carla Fonseca Reis*
* Administradora Pública pela FGV, Economista, Mestre em Administração de Empresas e Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela USP, Ana Carla é Fundadora da empresa “Garimpo de Soluções – economia, cultura e desenvolvimento” (www.garimpodesolucoes.com.br), Consultora em economia criativa para a ONU, Curadora da conferência britânica “Creative Clusters”, Diretora de Economia da Cultura do Instituto Pensarte, Coordenadora do curso “Gestão de Políticas e Produtos Culturais” da Faculdade São Luís e conferencista internacional. Co-autora de “Teorias de Gestão – de Taylor a nossos dias” e autora de “Marketing Cultural e Financiamento da Cultura” e “Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – o caleidoscópio da Cultura”.

Ana Carla Fonseca Reis

Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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