Presente na Bienal de Dança do Ceará, Sérgio Sobreira, da Fundação Cultural da Bahia, cobrou uma atitude da classe em reação à “estética de patrocínio”; Dora Leão e Valéria Pinheiro completaram a discussãoPor Deborah Rocha
De Fortaleza*
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11/11/2003
Qual a movimentação necessária por trás do palco, nos bastidores da cena, para que a dança aconteça? Essa foi a pergunta que tentou ser respondida pelos convidados da 4ª Bienal de Dança do Ceará, que integraram duas das três mesas-redondas organizadas pelo evento. Numa delas, ocorrida no dia 6, o tema foi ?Produção e Circulação em Dança? e contou com a participação de Sérgio Sobreira, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Dora Leão, produtora-executiva do Núcleo Artérias Nova Dança, de São Paulo, e Valéria Pinheiro, diretora e coreógrafa da Cia. Vatá, do Ceará. Acomodados num pequeno auditório de um antigo galpão da capital cearense, cada um trouxe para a mesa sua experiência na área, a partir de onde desenrolou-se um debate em torno de políticas públicas, leis de incentivo à cultura e patrocínio privado relacionados à dança.
?No woman, no cry?
?Se a gente não bater na porta e falar com o Gil, não vai acontecer nada?, disse em tom de urgência Sérgio Sobreira. O produtor cultural, formado em Fortaleza e que, já de volta à Bahia, envolveu-se com a Fundação Cultural do estado, onde atua até hoje, criticou a lógica de mercado que banaliza o produto artístico e cobrou uma atitude ?estratégica? do governo em relação à cultura. ?Cultura é, sim, dever do Estado e tem que ser visto como algo estratégico e formador de uma identidade cultural para o país?, afirmou, referindo-se ao estímulo do turismo e da atração de novos investidores para a Bahia. Por outro lado, para ele, é necessário um movimento de reação, que passe pelo incentivo às companhias de dança que estejam à margem dos patrocínios privados. ?Não dá para chegar nos patrocinadores de pires na mão?.
Verba alternativa
Em diálogo com Sobreira, Valéria Pinheiro, da Cia. Vatá diz: ?São eles (os patrocinadores) que têm que se adequar a nós?. Caso contrário, corre-se o risco ?perigosíssimo? da criação de uma ?estética de patrocínio?. Desta forma, como ?artista que tenta circular?, Valéria chama a atenção para alternativas de financiamento que não o investimento privado. Deparada com as dificuldades de circular com a sua companhia, a coreógrafa viu-se obrigada a ir atrás de outros caminhos. Entre eles, o patrocínio direto (sem abatimento no imposto de renda) e o dinheiro de instituições internacionais, como o da National Geografic Dance, que investe $ 37 mil por ano em companhias de dança. Diferente da sociedade brasileira, Valéria menciona a visão “moderna” do mecenato norte-americano, em que a pessoa física investe em cultura por livre espontânea vontade e não para benefício próprio. No Ceará, por exemplo, o principal mecanismo de investimento e a lei de incentivo à cultura (Lei Jereissati), criada em junho de 1995. No ano passado, foram investidos pela lei R$ 4, 99 milhões em projetos culturais nas diversas áreas artísticas.
Movimento em SP
Por fim, a experiência paulista. Dora Leão, produtora-executiva do Núcleo Artérias Nova Dança, começou a atuar na área de dança movida por uma vontade. Formada em economia e querendo entender melhor a linguagem da dança, começou a frequentar o Centro de Estudos de Dança, da PUC de São Paulo, coordenado pela crítica e professora de dança Helena Katz. A partir daí, aproximou-se da dança contemporânea em diversos estados, trabalhando na produção do “Circuito 1,2,3”, com patrocínio da Petrobras, entre outros, dando prioridades para trabalhos contínuos. Neste sentido, para ela, a classe como um todo deve priorizar um programa continuado na área. ?Precisa mudar essa coisa de evento e passar a se pensar em mais ressonância?, disse.
Por que não existe uma política consistente em São Paulo, sendo que o estado tem uma grande, senão a maior, tradição em contemporaneidade?, foi uma das perguntas feitas a Dora Leão durante o debate. ?A Bahia parece estar muito mais avançada?, completou. Segundo Sérgio Sobreira, o estado da Bahia possui um edital de montagem, que reserva R$ 30 mil às companhias, um edital de circulação, que leva os grupos ?de vários lugares para vários lugares?, o projeto ?Quarta que Dança?, que em dois anos conseguiu patrocínio integral de empresas privadas, e um apoio financeiro à parte dos editais (que reserva em torno de R$ 100 mil para a área), além de um projeto de manutenção das companhias de dança e da Lei FazCultura, que após receber críticas foi redirecionado, está com inscrições abertas para o edital de 2004 e ?tem encontrado patrocínio?. Tendo isso em vista, a questão levantada à produtora paulista parece ter, no mínimo, pertinência. Para ela, o que faltou foi um movimento mais articulado da classe no sentido de uma ação continuada. Como o que está sendo feito hoje pelo Mobilização Dança, um grupo de coreógrafos paulistas que conseguiu a aprovação de R$ 1 milhão para a dança em 2004 e que será utilizado para a criação da Lei de Fomento à Dança. ?Mesmo que (a ação) não seja de imediato, paciência. A dança vai estar existindo?, finaliza Dora.
* Deborah Rocha viajou a convite da organização da 4ª Bienal de Dança do Ceará.
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