Categories: PONTOS DE VISTA

Sobre educação à distância

Nessa entrevista, publicada em 3 de setembro de 2007 em Cultura e Mercado, faço um diálogo com Carlos Gustavo Yoda sobre a presença das novas tecnologias na formação de gestores culturais. Publico aqui a entrevista na íntegra.

Entrevista: Ana Carla Fonseca Reis à distância

A proposta do trabalho de formação a distância, segundo Ana Carla, possibilita novas oportunidades de relações para além daquela tradicional da sala de aula.

Ana Carla Fonseca Reis, colunista do Cultura e Mercado acaba de receber o prêmio Jabuti 2007, na categoria Economia, Administração e Negócios, com o livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – o Caleidoscópio da Cultura. Se fosse para transcrever currículo, só seria retomado o fio do conteúdo desta matéria no terceiro ou quarto parágrafo. Melhor pular essa parte e que cada um procure no seu Google, bastando citar que Ana Carla é consultora em economia criativa para a ONU.

O assunto que ela estuda exige novas propostas e experiências em tecnologias de comunicação e informação. Não bastasse isso, Ana Carla também é coordenadora de conteúdo do curso de Economia da Cultura, que será realizado em parceria com a DUO Informação e Cultura, entre os dias 17 de setembro e 31 de outubro. A proposta do trabalho de formação à distância, segundo Ana Carla, possibilita novas oportunidades de relações para além daquelas tradicionais da sala de aula.

Para estabelecer um diálogo sobre o curso à distância e a economia da cultura, algumas perguntas enviadas e devidamente respondidas via correio eletrônico. Sobre o conteúdo, a tal economia da cultura, ela diz que a possibilidade de evidenciar que o estudo econômico da cultura permita a união entre objetivos sociais, culturais e econômicos não só é possível, mas é um dos caminhos mais promissores para o desenvolvimento. “A economia da cultura explicita que o mundo não é excludente – ou valorizamos a diversidade, ou conseguimos recursos financeiros – mas, sim complementar”.

Leia os principais pontos da entrevista:

100canais – Desculpe a desconfiança, mas curso à distância funciona? O que você pensa dessas práticas pedagógicas? Por que a iniciativa do curso procura essas práticas à distância?
Ana Carla –
Bom, eu posso te dar meu testemunho como professora. Sendo muito sincera, eu também via cursos à distância com muita desconfiança. Daí, fui morar fora e vi que na Europa funciona, oferecendo cursos de qualidade temática e com professores muito bons, essencialmente para pessoas que moram em outros lugares. Claro que há de tudo, mas havia alguns de tirar o chapéu. Então voltei ao Brasil e fui convidada a participar como professora de economia da cultura no curso da DUO, em seu já clássico curso de “Gestão Contemporânea da Cultura”. Fiquei agradavelmente surpresa. Comparando com minha experiência dando cursos de graduação, extensão e pós ao vivo e a cores, você encontra em um curso à distância a mesma tessitura de interesses e nível de acompanhamento de um curso presencial. O que faz a diferença é que quando você promove um binômio professor interessado e capacitado + aluno interessado e dedicado, o Chat dá muito mais margem para diálogo do que necessariamente acontece em um curso presencial, no qual o professor e os alunos têm que sair correndo para a aula seguinte ou têm que marcar um horário à parte, quando o professor é do quadro fixo da faculdade e, portanto, reserva umas horinhas para orientação (o que, infelizmente, não me parece que seja a regra).

100canais – Qual a importância do estudo econômico da cultura para a formulação de políticas culturais para um ambiente de diversidade?
Ana Carla –
Em última instância, a economia da cultura explicita como se dá o fluxo de produção, distribuição e consumo de produtos e serviços culturais, onde estão seus problemas e potencialidades – e essa visão é absolutamente fundamental para os gestores de políticas públicas poderem traçar seus objetivos e monitorar o sucesso em atingi-los. Se o objetivo do governo for favorecer um ambiente de diversidade, só será possível de fato concretizá-lo se a produção for diversificada, se houver um modo de distribuir essa produção e se as pessoas estiverem interessadas em fruir essa diversidade. Tome como exemplo o cinema. O que um olhar econômico das relações de mercado revelam? Primeiro, que dadas as circunstâncias do mercado, é virtualmente impossível produzir cinema – e garantir a diversidade do que é produzido – sem alguma forma de subsídio ou financiamento público. Em alguns países, como a França e mesmo a Argentina, esse financiamento vem de um fundo, que pode ter várias fontes de arrecadação: sobre as entradas de cinema, sobre a venda ou o aluguel de fitas e DVDs, sobre o que as redes de televisão faturam com publicidade. Adicionalmente, o filme tem que ser produzido tendo como um de seus objetivos o mercado, inclusive para se viabilizar financeiramente (ao contrário do que ocorre no Brasil).

Segundo, a abordagem econômica comprova que de nada adianta garantir a diversidade da produção, se não houver um modo de garantir sua exibição. Hoje, mais de 80% das salas de cinema do mundo estão nas mãos dos conglomerados transnacionais. Como conseqüência, dezenas de filmes produzidos no Brasil a cada ano não conseguem espaço para serem veiculados nas salas de cinema. Moral da história: para garantir um ambiente de diversidade, as políticas públicas devem corrigir essas distorções de mercado, incentivando a veiculação de filmes nacionais, estimulando sua exibição em canais de televisão, sua distribuição nas videolocadoras e fazendo um contraponto à força da mídia dos blockbusters dos grandes estúdios.

Terceiro, de pouco ajuda garantir a diversidade na produção e em sua distribuição, se o consumidor – ou fruidor cultural – não tiver acesso a essa produção. Da percepção de que os espetáculos culturais são caros demais para estudantes e idosos, surgiu a meia-entrada (que, a meu ver, como conceito está correto). De estudos dando conta que parte da população de vários países não freqüentam museus ou centros culturais porque o horário de abertura ou a rede de transportes era inadequada surgiram extensões do horário, incentivos para ida aos fins de semana e uma reavaliação das linhas de transporte público. Em suma: a economia da cultura oferece um espelho dessas relações de produção, distribuição e consumo, explicita as dificuldades (ou “gargalos”) e as potencialidades de cada setor cultural e oferece um arsenal de instrumentos para resolver as distorções de mercado que estrangulam a diversidade.

100canais – Qual é o desenvolvimento que você coloca que a economia da cultura permite?
Ana Carla –
Dentre um sem-fim de definições de desenvolvimento, eu adoto a do economista indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia. Para Sen, desenvolvimento é a ampliação das liberdades de escolha. Isso põe de ponta-cabeça a visão tradicional, por exemplo, de países desenvolvidos e países em desenvolvimento e requer uma consideração do processo de tomada de decisão, mais do que da decisão final. Um país é politicamente desenvolvido, se as votações forem democráticas? Ou será que não é preciso analisar se o voto que elas fazem é consciente? Uma região é economicamente desenvolvida, se parte das pessoas não tiver a possibilidade de consumir? Um país é culturalmente desenvolvido, se as pessoas não tiverem acesso à sua produção cultural? E agora lhe dou um exemplo mais simples, fechando o foco sobre a economia da cultura e sobre a minha resposta à sua pergunta anterior. Enquanto não houver a conscientização de que as produções e manifestações culturais, além de todos os seus benefícios culturais e sociais (auto-estima, identidade, diversidade, respeito à diferença etc.), trazem também recursos econômicos, colocaremos cada vez mais em risco nossa diversidade.

Basta sair por esse Brasil afora (e obviamente não é uma situação exclusiva nossa), para encontrar centenas de últimos mestres de ofício, sem aprendizes, que são constantemente tentados a abandonar seu ofício e se dedicar a outra profissão, mais “rentável”. Por quê? Porque essa produção não lhe sustenta, não paga as contas. Agora, se a) ele tiver consciência de que aquele seu saber cultural não só tem valor, como tem preço e b) essa produção tiver um canal de distribuição que lhe permita atingir o consumidor cultural na outra ponta, ele poderá sobreviver de sua produção cultural e só deixará de fazê-la se assim o quiser – e não por falta de escolha. Bingo para Sen de novo. Liberdade pressupõe conscientização, conhecimento do processo e de seu papel nele. É aí também que a economia da cultura, ao escancarar esses processos, modelos e relações, pode ajudar – inclusive para fazer com que essa produção encontre seu mercado.

Na outra ponta, vide nossa juventude craque em tecnologias digitais, música sintetizada, animação, que adora trabalhar com isso e não necessariamente seguir as carreiras tradicionais. Estima-se que no Canadá sejam gerados 100 mil empregos, diretos e indiretos, no setor de animação, trazendo a reboque recursos para as cidades, impostos, investimentos. Você acha que, diante dessa cifra, algum jovem que gostaria de seguir essa trilha enfrentará as dificuldades que seu colega enfrenta no Brasil, onde ainda já há a consciência do potencial desse mercado?

Outro ângulo da mesma questão. Desenvolvimento pressupõe uma união entre o social e o econômico. Não dá para achar que basta crescer economicamente para resolver as mazelas sociais (como já vimos nas últimas décadas) e nem é possível desconsiderar o econômico, porque querendo ou não vivemos em uma sociedade capitalista. A grande beleza dos produtos e serviços culturais é que eles navegam ao mesmo tempo por ambas as dimensões, social e econômica, ao transmitirem valor e gerarem impacto econômico. Ou seja, novamente chegamos ao desenvolvimento.

Carlos Gustavo Yoda

Ana Carla Fonseca Reis

Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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