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Videocracia, um conceito convergente

Uma nova cultura de participação e cidadania se faz presente nas sociedades contemporâneas a partir da incorporação de instrumentos e práticas de compartilhamento de textos, sons e imagens em movimento no cotidiano das sociedades videocráticas.

Uma democracia cada vez mais costurada a partir de imagens, capaz de construir projetos de poder, derrubar governos e redesenhar uma nova ordem social, participativa. Vale lembrar que essa mesma democracia foi construída a partir dos estímulos gerados pelos meios de comunicação de massa, cuja função extrapola a formação das referências estéticas, a construção das narrativas e a relevância da pauta do mundo atual. A mídia agora serve também de alavanca para projetar os novos produtores audiovisuais e suas imagens, reais ou ficcionais.

A transformação dos processos de mediação no novo milênio é profunda e altera a relação com os mecanismos de controle e participação da sociedade. A TV aberta prevalece desde a década de 50 como o meio predominante para produzir e difundir os mitos sob os quais nos guiamos, reforçando um status quo programado pelos sistemas de poder, que garantem a subsistência desses canais.

A TV reuniu o poder mitológico do cinema com a capacidade de distribuição em massa do rádio, garantindo um lugar de centralidade na construção de sentidos, identidades e projetos políticos das sociedades contemporâneas.

O monopólio da imagem é algo comum no recorte territorial utilizado para a presente pesquisa. A conjugação desse poder local com o presença maciça de Hollywood é algo igualmente recorrente na ibero-américa. O domínio do mercado de salas de cinema continua nas mãos dos grandes conglomerados internacionais, reflexo de um projeto de expansão do Estado norte-americano ainda no entre-guerras. TVs abertas participam ativamente do poder político-econômico dominante local, geralmente com acordos comerciais que garantam a veiculação em massa de material ficcional norte-americano.

A ficção local é subsidiária, via de regra reforça o poder simbólico da cultura dominante e se estabelece como elemento de coesão, identidade e pertencimento. Acomoda e ressignifica o material mitológico, adequando-o a uma realidade local. É o caso das novelas brasileiras, que comumente transformam a zona sul do Rio de Janeiro em um distrito colonizado da cultura de consumo norte-americana.

O jornalismo televisivo segue a mesma lógica. Seu material internacional é fornecido (com edição e análise prontos) por grupos de mídia de poder global, que mostram um ponto de vista muito específico sobre eventos como a invasão do Iraque, os massacres do Afeganistão ou da Faixa de Gaza, ou mesmo a queda do poder no Egito.

O surgimento da TV por assinatura, por cabo ou satélite, alterou um pouco essa configuração, permitindo a ocupação do espaço televisivo de maneira mais agressiva pelos grandes conglomerados internacionais, sobretudo junto à população de maior poder aquisitivo. A sociedade norte-americana consolidou-se ainda mais como referência cultural predominante desse público.

Além do predomínio na grade de programação, eles passaram a garantir a distribuição dos conteúdos, adquirindo empresas de distribuição e infraestrutura de cabo e satélite ao redor do mundo.

A TV Digital serviria como um contra-ataque das TVs abertas e seus conteúdos nacionais, em busca de uma sobrevida de um modelo de negócios à beira da ruína. Mas a realidade da banda larga torna-se algo cada vez mais presente e coloca novos agentes econômicos na batalha pelo controle do espaço simbólico das sociedades contemporâneas.

Empresas produtoras e agregadoras de conteúdo para Internet passam a competir pela atenção e pelo tempo livre dos consumidores. As operadores de telefonia tornam-se potentes distribuidores de conteúdos para mídias móveis e convergentes, colocando o conteúdo na palma da mão dos consumidores.

A reflexão sobre a onipresença das telas na conformação do espaço público, não só em termos de construção do imaginário, mas também na vida econômica e política das sociedades contemporâneas, torna-se cada vez mais necessária, sobretudo nos campos dos estudos culturais, educação, psicologia, sociologia e política, já que influencia a conformação do espaço simbólico individual e coletivo, com efeitos sobre a formação da personalidade, da autonomia do cidadão e de sua capacidade de expressão e participação na sociedade.

O termo “Videocracia” é uma espécie de fusão conceitual entre a “videologia” de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl, a “ecranocracia” de Gilles Lipovetsky e “videocracy”, o documentário de Erick Gandini sobre os efeitos do monopólio audiovisual de Berlusconi na Itália.

A melhor maneira que encontramos para discutir este vasto e complexo assunto foi utilizar o próprio espaço videográfico cibernético e convergente para refletir sobre as dimensões e efeitos do audiovisual sobre a sociedade global no século XXI. O documentário Ctrl-V abre os caminhos para a discussão do fenômeno da convergência como uma evolução natural do negócio audiovisual, fomentado e desenvolvimento como uma potente indústria e acolhido como projeto estratégico do Estado norte-americano, ainda no início do século passado, hoje configurado como uma grande potência conduzida por um oligopólio global.

Não pretendemos com isso apresentar uma visão unilateral desse fenômeno complexo, apresentando-o única e exclusivamente como consequência natural do processo de consolidação do espaço simbólico por esse oligopólio, mas também como oportunidade de desenvolvimento de uma produção independente, diversa e multiprotagonista. Acredito, como Henry Jenkis, autor de Cultura da Convergência, que o futuro do audiovisual se dará pela sobreposição dessas duas realidades.

Leonardo Brant

Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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