“Yes, we can” nós também - Cultura e Mercado

“Yes, we can” nós também

Barak Obama hora desta já deve estar de volta ao seu país. Sua visita nos supreendeu pela cordialidade estampada em cada gesto e o tom afetuoso, a começar pela companhia que trouxe: a mulher, as filhas, a sogra e até a cachorrinha. Nada faria suspeitar que foi daqui mesmo, em meio familiar e fraterno, que ele ordenou o ataque dos caças à Líbia, iniciando mais uma guerra para seu país.

Sua visita nos serviu para conhecermos um pouco mais de nós mesmos. Que somos um povo cordial, já sabemos. Que aceitamos o forasteiro melhor do que o conterrâneo e que valorizamos a cultura de fora em detrimento da que temos, tudo isto também já sabemos. Mas Obama nos atualizou, com aquele seu olhar de quem não olha, mas radiografa e sorri. Nunca ainda neste século 21 tivemos tantas deferências e tantos cuidados com uma só pessoa. Vindo do século passado, chegara a pensar que eu nunca mais veria tantas autoridades brasileiras sem rumo e sem assunto querendo apenas compor paisagem e agradar a uma autoridade de outro país.

O trânsito parou. A agenda da presidenta fechou. Os ministros cancelaram seus afazares. O Brasil se rendeu. Áreas inteiras foram isoladas, sem a intromissão de uma alma. Fronteiras internas foram criadas dentro de nosso próprio país e se alastraram como bolhas, desde o entorno dos locais das cerimônias até o entorno das cidades de seu roteiro. Até mesmo o cartão postal mundial Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi fechado unicamente para o desfrute de Obama. Nestas horas até abrimos mão de dizer que Deus seja brasileiro. Ele é Barak Obama.

Mas de tudo que com o presidente dos Estados Unidos vimos e revimos do nosso Brasil, vou guardar na memória Obama e Dilma pousando para fotos em frente ao ‘Abaporu’, quadro pintado à tinta óleo sobre tela, da paulista de Capivari, Tarsila do Amaral (1886-1973), e que naquele momento entre dois presidentes virou para o mundo o símbolo mais refinado da cultura no nosso país.

E é justo que seja. Tal e qual nossa cultura, o quadro foi vendido a preço de banana para um estrangeiro. Foi oferecido em leilão na cidade de Nova York pelo dublê de corretor e galerista Raul Forbes, quando estava duro, e arrematado pelo milionário argentino Eduardo Constantini, criador do Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), que tem como mantenedora a Fundação Constantini, pela bagatela de R$ 1, 35 milhão.

O quadro foi pintado por Tarsila no ano de 1929, mesmo ano da quebra da Bolsa de Nova York, que deixou pobre a famíla da pintora. Uma ironia que extrapola a história pessoal de uma família, o universo particular da artista e ganha ares históricos e sociais.

O Abaporu é a um só tempo o ícone e a melhor síntese do Movimento Modernista que eclodiu em São Paulo. E é o quadro mais importante já produzido no Brasil. Quando viu a tela, Oswald de Andrade, seu marido, assustou-se e chamou o amigo Raul Bopp. Ficaram olhando a figura e acharam que representava algo excepcional.

A este respeito, conta-nos a própria Tarsila: “(Raul) Bopp foi lá no meu atelier, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: “Isso é como se fosse um selvagem, uma coisa do mato” e Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei ‘Abaporu’, palavra que encontrei no dicionário de Montóia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago (homem que come gente)”.

Segundo sua assessoria, o Abaporu é o quadro preferido da presidenta Dilma Rousseff. Deve ser mesmo. E com folga. Pois para estar ao lado de outros na exposição montada para Barak Obama –e que segue até o dia 5 de maio no Palácio do Planalto, o governo brasileiro topou pagar $ 40 milhões somente pelo seguro da obra. A exposição é alusiva ao Dia Internacional da Mulher e além da obra de Tarsila, conta com trabalhos de Anita Malfatti, Tomi Ohtake, Leda Catunda, Beatriz Milhazes e Carmela Gross, entre outras.

De tudo que Barak Obama viu e ouviu, o mais importante estava latente. E tomara que ele tenha percebido. E com ele, muitos de nós, também. A arte foi criada para ser vista e comunicada, é uma táboa de informação adicional à realidade, que é puramente visual e factual, com a qual lidam os governos.

A arte interage fundamentalmente com sua época, é seu fruto e sua semente. Portanto, ela pode ser o mais vibrante documento de uma história. Tem sido assim desde as ranhuras nas cavernas, passando pela estátuas gregas, os afrescos renascentistas nas igrejas, os retratos da realeza e do baronato, os salões de arte franceses, até chegar às grandes exposições que se transformam em eventos, às bienais, à arte pública nas praças, ao grafite e à virtualidade do século vivente.

Desde sempre, existe este ponto em comum: o público é essencial para que a arte exista. E assim ela se mantém incólume através dos altos e baixos da economia e da política na história: mantém-se límpida, densa, pairando sobre as tendências, coesa e estável, senhora de um desdém para com o presente, pois seu caso é com a perenidade.

Mas sempre aconteceu, também, de o poderio econômico querer retirar a arte de circulação, criando coleções privadas ou de visitação restrita. É cada vez maior o número de colecionadores que guarda a arte em escaninhos velados que são abertos ao seu bel prazer.

Quando os governos se omitem, vem a guilhotina da história e ocorrem graves decapitações na cultura. Tivemos agora mais uma prova, com o Abaporu representando uma lacuna na foto entre os dois presidentes. Ao deixar de adquirir a obra (Raul Forbes a ofereceu ao governo brasileiro durante 6 meses antes de se decidir pela venda em leilão, em 1995), pagamos um preço muito maior. O Abaporu representa hoje uma acefalia na cultura brasileira. E a cegueira dos seus gestores públicos, dos quais estamos orfãos.

Assim como Barak Obama, o homem do ‘yes, we can’ (sim, nos podemos), o Abaporu em breve voltará a sua casa, em Buenos Aires, de onde a visão deste mundo encolhido pela perda de referências culturais, no qual vivemos aqui, é mais distante e mais tolerável.

Os bens culturais podem unir ou esquartejar um destino. Eles são os responsáveis por fazer da população um povo. Viver descompassado com a cultura de seu tempo e lugar é um impasse cruel que se acentua a cada dia, com os governantes trocando-a pelo entretenimento passageiro e asséptico.

De seu posto estrangeiro, o Abaporu permanece indiferente à pobreza de nosso presente, restrito à uma função meramente ilustrativa para os argentinos, mas símbolo de um Brasil que continua prisioneiro de seu colonialismo e sem conseguir dividir com os outros as riquezas de que é o próprio criador. “Yes, we can”, mas quando?

Acessar o conteúdo