
Há pouco tempo escrevi aqui sobre dança e memória; e levantei algumas questões sobre a possibilidade de pensarmos de que maneira a evolução tecnológica poderia nos ajudar a criar novas formas de olhar para a memória, de se preservar a memória. Podemos dizer que hoje, novas maneiras de registrar a dança nos mostram novas maneiras de olhar para a dança e o videodança está aí para provar isso. Pois bem, parece que o cineasta alemão Wim Wenders também está aí para provar isso.
Wim Wenders acaba de rodar um documentário em 3D sobre a Tanztheater Wuppertal, Cia. da coreógrafa alemã Pina Bausch falecida o ano passado.
Wenders declarou: “No futuro, todo documentário será rodado desta forma.” Segundo o cineasta, a tecnologia tridimensional pela primeira vez fará jus às coreografias criadas por Bausch, pois possibilita registrar os movimentos dos bailarinos sobre o palco de uma forma completamente nova, além de lidar com a noção de espaço, crucial para a coreógrafa. “O telespectador terá a oportunidade de ver a coreografia e a dança de Pina Bausch como se estivesse sentado na primeira fila no teatro”.
Há 20 anos, Wenders teve a ideia de fazer um documentário sobre a obra de Bausch, “Mas me dei conta de que a gravação com uma câmera de filme tradicional deixaria algo de lado”, lembra ele. “A tela do filme em duas dimensões não foi capaz de captar nem emocionalmente nem esteticamente o legado de Pina Bausch”.
“O conceito do filme era que a própria Pina nos conduzisse a seu mundo. Foi concebido como um ‘road movie’ no qual a acompanharia a Brasil, Turquia e outros países”, acrescentou.
Pina Bausch faleceu aos 68 anos, cinco dias após ser diagnosticada com câncer no dia 30 de junho de 2009. A inesperada morte da coreógrafa fez com que o cineasta mudasse os planos: “Pina faleceu um mês antes de supostamente começarmos a filmar. Eu perdi o ponto. Só após um tempo percebemos em conjunto com seu grupo, que devíamos à Pina fazer (o filme) de qualquer forma.”
Quatro meses após a morte de Pina Bausch o diretor, então, decidiu se “concentrar nos dançarinos, seus instrumentos” e fora do palco. “Teve que virar um filme sobre trabalho. É algo muito, muito diferente daquilo que teríamos feito juntos.”
“Sou muito grato pela produção do documentário”, disse o francês Dominique Mercy, que dirige a companhia juntamente com o alemão Robert Sturm, que foi assistente artístico de Pina Bausch durante dez anos. “É uma tarefa difícil levar às telas o trabalho de Pina, mas estamos contentes por um cineasta como Wim Wenders ter se encarregado disso”, disse Sturm.
A coreógrafa que sempre declarava: “Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move.” já foi lembrada e homenageada por outros cineastas e diretores além de Wenders:
“Ela sempre me inspirou, nossa amizade era muito intensa, era uma mulher muito feminina e sensual”, comentou o cineasta espanhol Pedro Almodóvar após sua morte. Duas peças de Pina Bausch, Café Müller e Mazurca fogo respectivamente, abrem e fecham o filme Fale com ela.
“O que Pina Bausch conta no palco e na platéia é um teatro que liberta todas as inibições, é festa, jogo, sonho, símbolo, recordação, antecipação, cerimônia. É um conforto que se destrói doce e insidiosamente, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza, todo esse encantamento não acabe jamais e que a vida seja assim” disse o diretor italiano Federico Fellini que a convidou para um papel no filme E la Nave Va.
“A arte não cria um mundo melhor; ela é o que permanece de uma cultura. Ao olharmos para as culturas antigas, sua arte é das poucas coisas que ainda podemos ver e estudar. A influência da obra de Pina será uma das poucas lembranças da arte do século XX”. Declarou o encenador Robert Wilson.
Rodar um documentário em 3D não é fácil, alertou Wenders “Você precisa esquecer tudo o que sabe sobre filmagem porque precisa organizar as tomadas e o processo todo de uma forma muito diferente.”
O documentário em 3D “Pina” será lançado na Alemanha em 2011, a produção vai custar três milhões de euros.
Fontes:
– Veja.com
– CYPRIANO, Fábio. Pina Bausch. São Paulo: Cosac Naify, 2005.