Artistas discutem no Fórum Social Mundial aspectos da relação entre cultura e política. “Na própria função do artista há o político”, diz o francês Marc Le GlatinPor Sílvio Crespo
27/01/2003
O francês Marc Le Gatin, do Theatre des Chelles, e o presidente da Unión de Escritores e Artistas de Cuba, Carlos Martí, discutiram ontem, dia 26, no Fórum Social Mundial, aspectos da relação entre cultura, política, mídia e indústria do entretenimento. Os palestrantes fizeram parte do painel “Cultura e Prática Política”, que contou ainda com a presença de debatedores do Brasil, Estados Unidos, Mali e Filipinas.
Artista e comunidade
A aproximação entre arte e política foi o tema abordado por Le Glatin. Para ele, é preciso que os artisas saibam que a cultura “se reveste de uma dimensão política”. “Alguns dos meus amigos não se interessariam por essa conferência, por abordar o tema da política”, frisou, “mas a relação entre cultura e política deve ser mais debatida”.
O trabalho do artista, para Le Glatin, tem sua dimensão política por consistir em uma “intersecção entre o sujeito, a expressão e a comunidade”. A estreita relação entre o artista e a sociedade, segundo o palestrante, evidencia o fato de que “na sua própria função há o político”.
Pão e circo
Passamos recentemente por um processo de “mutação cultural”, pontua Le Glatin. Para o palestrante, a “indústria do lazer” utiliza a arte em favor das “classes dominantes”. Ao oferecer aqueles seriados, elas “fazem a política do pão e circo”, explicou. E as produções culturais oferecidas por essa indústria são “digestíveis” tanto no Brasil como na Europa, nos Estados Unidos ou na Índia. Glatin sugeriu que se deve “romper a economia da oferta” com obras feitas para serem “intercâmbio e não mercadoria”. “Não é apenas uma relação entre cultura e política, mas a política está contida na cultura. Resistir é criar”.
Ditadura midiática
Outro artista a discorrer sobre a relação entre política e cultura foi Carlos Martí, da Union de Escritores e Artistas de Cuba, para quem as práticas política e cultural “não podem se separar de um objetivo ético”. O centro da sua análise foi o que ele chamou de “ditadura midiática”. Para ele, a mídia, que está nas mãos de grandes conglomerados de comunicação, “pretende formar a consciência” das pessoas.
“A única maneira de ser livre é ser culto”, disse Martí. O palestrante se referiu à penetração da mídia estrangeira no interior de Cuba, e defendeu as intervenções do Estado levadas a cabo pelo presidente cubano Fidel Castro para evitar que o povo tenha sua consciência “manipulada por fetiches pseudo-culturais”. Para se contrapor a essa tendência, “deve-se dar ao artista um papel social”. “Temos que nos opor à avalanche midiática, reafirmar a nossa espiritualidade”.
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