
Badah escreveu e publicou no Cultura e Mercado, em parceria com Leonardo Brant, artigo intitulado Arte Patrocinada. O autor levanta mais de 20 questões – entre o texto original e um de seus comentários/resposta – que merecem, cada uma, uma profunda reflexão. Razão pela qual não pretenderei responder nada.
Apenas acrescentarei um pouco de lenha à fogueira, pensando todas as questões do ponto de vista do atual principal mecanismo de financiamento à cultura do nosso país: o patrocínio com incentivo fiscal – mecenato.
Questões:
O que acontece quando a arte se constrói a partir dos estímulos e intenções do patrocinador?
Acompanho os patrocínios culturais e com isso afirmo que esta é a situação menos comum. Ocorre mais nos casos de Fundações ou ações culturais com finalidade social, onde a empresa define diretamente o tipo e formato de arte que deseja desenvolver, investe com pleno domínio da situação, conduzindo mesmo o que vai ser produzido. E todos aplaudem, porque ainda que pese a interferência, parece mais interessante do que deixar crianças e jovens (maioria dos casos de investimento) nas ruas, sem uma atividade. Ninguém reflete muito sobre este direcionamento. Mas no patrocínio a obras de artistas, principalmente os mais renomados, a influência das empresas privadas é menor na produção das obras, nas temáticas abordadas. A questão se dá mais numa forma de censura, como no exemplo citado no texto do Badah, de 2006. O que é mais comum é a dificuldade de se obter um patrocínio em função de um trabalho com temática polêmica ou com materiais e formas inovadores ou provocativos demais. Existe sim uma arte que é produzida para o patrocinador, claro. Empresas solicitam produtos específicos, muitas vezes, para divulgar o seu produto de comercialização. Neste caso temos um caso de arte a serviço da propaganda mesmo. Uma obra produzida por encomenda, que se presta a um fim específico: é arte? Muitos vão dizer que não, que é propaganda, publicidade. Eu defendo que pode ser arte sim. Porque um tema sugerido por uma empresa, ainda que com a finalidade de divulgar seus produtos ou serviços, não pode virar uma obra de arte? Pode sim e com muita qualidade, até. Depende do artista, de até aonde vai o estímulo do patrocinador e seu nível de interferência na produção da obra. A forma como a empresa vai se apropriar da obra e divulgá-la é outra questão importante a ser considerada. Mas a capacidade de refletir sobre a obra me parece o problema maior. O seu consumo como mais um produto é que pode transformá-la em simples objeto…
Qual o limite de subserviência e de liberdade da arte patrocinada?
Existe um jogo de interesses no patrocínio cultural via mecenato. Em geral, artistas e produtores procuram empresas que tenham afinidades com seus “produtos culturais” (e vice-versa, embora o primeiro movimento seja proporcionalmente muito maior). Acredito em jogos com regras claras e transparentes. Não gosto de jogos com interferências de “cartolas”, com cartas marcadas, especialmente por baixo da mesa ou nas mangas. Se a empresa impõe limites claros, de forma transparente (ou seja, assumida publicamente) sobre o que deseja ou não patrocinar e o artista tem uma obra que se encaixa dentro destes limites, estamos jogando uma partida bacana, concordam? O problema é quando artistas se deixam corromper para encaixar suas obras, adaptando-as, para caber nos limites do investimento privado. Ou quando a empresa induz, age de forma velada, conduzindo o artista ao que interessa ao seu negócio, deturpando o sentido original de um trabalho artístico.
Os dois jogos existem e, independente de julgamentos, cada parte tem que saber qual jogo quer jogar. Sempre se pode abandonar a partida no meio, é bom lembrar. Nesta questão, acho que a força está nas mãos dos artistas e produtores. Porém, será que se não abrirem mão de suas propostas e ideias em função de um financiamento, conseguirão expor e divulgar seus trabalhos? E adianta divulgar um trabalho alterado, modificado? Será que a interferência das empresas sempre é negativa? Não seria possível a condução de um patrocínio tornar uma obra ainda melhor ou simplesmente contribuir com a obra?
As leis de incentivo colocam a arte aos pés das corporações?
Esta é uma questão muito debatida, seja em redes que refletem o financiamento à cultura, como o Cultura e Mercado, ou mesmo no Ministério da Cultura, que inclusive alega este problema para querer modificar as leis, mas estranhamente cria um projeto de lei absolutamente desencontrado, que pode piorar mais ainda a questão. O fato é que parece existir um consenso de que as leis de incentivo tornaram a arte subordinada às corporações no Brasil.
Retomando o texto do Badah, que traz exemplos de obras de artes visuais proibidas de serem exibidas por incomodarem seus patrocinadores pelos temas abordados, cito o próprio autor para respondê-lo: “Os dois exemplos (…) expõem uma ferida aberta numa sociedade que financia a arte com dinheiro público por decisão das grandes corporações.” Concordo com o autor. E como podemos resolver isto? A resposta pode ser lugar-comum, mas me parece a única* possível: com um Estado que assuma a sua parte. A partir do momento em que o investimento privado deixe de ser a maior forma de investimento na cultura do país, o que as corporações definirem não representará risco.
* = em tempo: gostaria muito de ser confrontada aqui com outras opções!
O mais grave nisso tudo é que as corporações estão realizando seus investimentos com um recurso que é público! O Estado está deixando a critério do setor privado, que possui interesses específicos, a seleção do que deve ou não receber financiamento com dinheiro que é de todos nós.
Apenas uma observação, finalizando o tema das leis: eu creio que o maior mérito das leis de incentivo à cultura no Brasil será a formação do investimento privado em cultura. Acredito que as corporações entenderam a lição, perceberam a importância e força que a cultura pode ter para seus negócios e vejo nisso um processo educativo mesmo, onde por mais que as leis mudem ou deixem de existir, o investimento não cessará de todo. Pode ser reduzido, mas não acredito na sua extinção. Mas isso é tema para um outro debate…
Estaria a arte subordinada às grandes corporações?
A arte não está subordinada às grandes corporações, no sentido de sua criação. Não acredito que artistas deixem de criar porque não têm patrocínio. Ouso dizer que conheço alguns que pensam que deixaram de criar porque não têm recursos e entoam o discurso do “preciso fazer outra coisa para sobreviver”, mas continuam produzindo arte e cultura, às vezes até sem se dar conta de o estarem fazendo. Pode ser uma visão romântica de que a arte brota e existe independente de qualquer coisa, mas eu acredito nela. Então, não acredito que a arte deixe de ser produzida ou corra riscos, quando falamos da existência da arte em si. Mas no âmbito de sua fruição e difusão, no Brasil, atualmente, minha resposta seria SIM. De que outra forma se consegue fazer uma obra de arte chegar ao público (ou o público chegar a ela), circular pelo país, estar nos meios de comunicação? Reconheço a existência de iniciativas que tentam e conseguem quebrar esta regra (pra citar um exemplo bem básico, a fórmula da “auto-pirataria” que a banda paraense Calypso criou) mas vejo a maior parte da produção artística dependente do apoio das grandes corporações para conseguir seu lugar ao sol. E não entendo ‘lugar ao sol’ como espaço na mídia (ou enriquecimento de artistas) , mas sim, como difusão; alcance público, que é outra coisa bem diferente – e que me parece muito mais importante.
Artistas e curadores têm sua liberdade cerceada por esse sistema?
Sim e não, voltamos à questão do jogo de interesses. Talvez mais não do que sim se pensarmos do ponto de vista da palavra liberdade, de que artistas e curadores estão livres para entrar neste sistema ou não. Por outro lado, podemos dizer que sim, se pensarmos que o artista e o curador que não se adaptam a certas condições dificilmente conseguem financiamento. Penso que é mais difícil se manter fora do jogo; não impossível. Então eu tento concluir que o sistema é injusto, impõe condições, mas artistas e curadores são livres para participar deles ou não.
Existe saída para a situação?
Sim. A questão mais difícil de responder é COMO. Uau! Se eu respondesse esta perguntava ficava rica.
Acho que algumas coisas podem ser propostas com relativa facilidade de execução:
1. o Estado deve investir de fato em cultura, especialmente fomentando iniciativas inovadoras, novos artistas e todas as manifestações culturais cujo apoio privado seja menos provável;
2. as leis de incentivo precisam de uma revisão séria, não aquela atualmente proposta pelo Ministério, mas uma revisão que faça o investimento privado ser uma opção legítima para determinados produtores e artistas e que os demais tenham opções dentro do financiamento estatal (ou seja, esta segunda opção está intrinsecamente ligada à primeira);
3. a reflexão e o debate sobre o assunto devem ser tornados cada vez mais amplos a fim que possa haver uma maior capacidade crítica e participação do público. A sociedade brasileira não participa porque não se reconhece produtora e consumidora de cultura. Cultura e arte, ainda são, para a maioria dos brasileiros, assuntos secundários e supérfluos. A sociedade brasileira não se sente responsável pela sua cultura.
O patrocínio cultural continua sendo a grande saída para o desenvolvimento das expressões artísticas?
Não vejo o patrocínio cultural como “a grande saída para o desenvolvimento de expressões artísticas”. Acho que o investimento privado se dá muito mais no âmbito de expressões artísticas já consagradas, daí ser pouco expressivo no desenvolvimento de novas formas de expressão.
Podemos pensar numa relação de independência e não de conveniência entre as partes?
Acho improvável. A base da relação de investimento através do patrocínio é a relação de interesses, ou seja, a conveniência é o que dá forma ao patrocínio cultural, por mais “bem intencionado”, correto, transparente que seja.
Qual o papel do Poder Público nesse meio?
Deveria ser o de maior investidor, difusor, estimulador da cultura e nunca o de mediador de ações privadas de investimento.
A arte patrocinada estará sempre a mercê do interesse de seus intermediadores (mercado ou estado)?
Penso que um trabalho só será patrocinado se satisfizer o interesse – qualquer que seja – do patrocinador. Em relação ao Estado, penso que deveria ser o inverso: qualquer produto do fazer artístico deveria ter acesso a algum tipo de financiamento que permitisse a sua continuidade, aprofundamento, difusão, compartilhamento… enfim, o Estado deveria poder alcançar toda e qualquer arte. Mas não tenho a ilusão de que isso seria possível. É impossível dar cobertor a todos. Sempre vai haver alguma coisa de fora, acho que é parte também de um processo natural. Mas há que se ampliar o investimento estatal na arte: como fazê-lo de forma desinteressada, ampla?
Como a sociedade pode participar da atribuição de valor à obra de arte? Ou será que a única forma de participar desse processo é cada cidadão do mundo financiar os artistas diretamente? Se eu não tenho uma empresa, ou cargo político, significa que eu jamais poderei participar desse processo? Não tenho dúvida de que a obra de Márcia X é de gosto duvidoso (…). Mas este valor não deveria ser atribuído por toda a sociedade, ou por sua maioria?
A sociedade é quem atribui valor às obras de arte. Elas persistem ou sucumbem porque o público não assiste a uma peça, porque compra um CD, ou até mesmo porque uma empresa boicota uma obra numa exposição. Empresas são partes legítimas da nossa sociedade. Ouso dizer que todos participamos do processo, direta ou indiretamente. Poucos conscientemente. Mas o processo de atribuição de valor – entendo que a pergunta trata do valor não financeiro da obra – passa pela vida de todos, desde o voto até a opção escolhida para o lazer no final de semana. Se a pergunta é se a obra da Marcia deixaria de ser “julgada” por ter sido cortada, sabemos que acabou ficando mais conhecida pelo fato, que acabou chamando mais atenção para a obra. Mas se o corte tivesse sido feito antes da exposição e isso tivesse ficado nos bastidores: neste caso, o julgamento de empresa, curadores e artista não estariam refletindo o da sociedade? Não seria um valor atribuído por uma fatia da sociedade que está ali para esta função? Toda curadoria é uma atribuição de valores às obras de arte? Os curadores representam a sociedade ou apenas interesses comerciais, empresariais ou artísticos?
E ainda que tivéssemos mecanismos para realizar tal feito: Arte de gosto duvidoso não tem o direito de ser patrocinada?
Sim! Tem sim, afinal, quem define o que é bom ou ruim em arte? Gosto se discute, mas não se impõe. Ou pode a força de um patrocínio ser uma forma de imposição de gosto através da mídia e de outros mecanismos que influenciem o “gosto” coletivo?
A obra de arte deve sempre provocar reações alegres e porque não dizer “consumíveis” para ter o direito de ser financiada?
Não! E muitas expressões do fazer artístico que tratam de questões negativas, tristes, conseguem financiamento. Ex: filmes sobre a ditadura; encenações teatrais dramáticas, mesmo que de ficção; músicas de dor de cotovelo…
Até que ponto a obra de arte pode receber o mesmo tratamento de qualquer outro produto cultural?
Estamos separando artes visuais das demais manifestações artísticas? Música, teatro, literatura não são obras de arte? Não são todos obras de arte e, ao mesmo tempo, pela lógica do financiamento à cultura via mecenato, todos produtos culturais? Existe tratamento diferente para obras de artes visuais e demais produtos culturais? Acho que não entendi a pergunta direito.
Como vêem, acabei fazendo mais perguntas do que respondendo às questões levantadas pelo Badah. Minhas respostas são impressões e observações de alguém que aprendeu a trabalhar a cultura dentro da lógica do mecenato – comecei junto com o nascimento da Lei Sarney – mas sempre procurou manter uma reflexão crítica acerca deste mercado. E teve a sorte de poder ver a questão dos dois lados, conhecendo bem os problemas e necessidades de cada parte: como produtora cultural independente, sem “quem indica”, e como gestora de patrocínios em duas das maiores empresas (e patrocinadoras) brasileiras. Mas que, ainda assim, nem que pudesse desenvolver uma tese para cada pergunta, poderia resolver estas questões, tão importantes para a arte e o mercado cultural brasileiro e abertas aqui à contribuição de todos.