Faço uma leitura do livro “A Ascensão da Classe Criativa”, de Richard Florida, aplicada à realidade socioeconômica e cultural do Brasil atual. Trata-se uma obra instigante, que apresenta a economia criativa não como setor econômico, mas como questão de classe. Uma literatura que me influenciou bastante, daquelas que dá força para continuar investindo pelo caminho do empreendedorismo criativo.

Florida é pesquisador das cidades. Tenta compreender porque as empresas estão mudando de cidade em busca dos melhores talentos, o que compreende uma mudança de relação ao que acontecia até muito pouco tempo atrás, quando as pessoas mudavam de lugar em busca de empregos. Para o autor, as empresas estão em busca de talentos, que só florescem em ambientes criativos.

Com seus estudos, muito bem apresentados no livro, ele caracteriza as cidades providas dos 3 Ts: Talento, Tolerância e Tecnologia, como aquelas mais propensas ao florescimento da classe criativa. E, por consequência, esses territórios são mais férteis para a conquista de investimentos, empresas e empregos. Para mim, foi inevitável a tropicalização da análise.

Faz muito sentido compreender a economia criativa como um fenômeno de classe, portanto não somente uma questão econômica, mas sobretudo uma questão política e cultural. Florida acredita que no Brasil a classe criativa corresponde a 18% da população economicamente ativa, enquanto nos EUA esse percentual chega a 38%.

A ascensão da nova classe média brasileira dá sustentação política e econômica ao governo Lula, que consegue se reeleger em meio ao que se apregoa ser “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”: o mensalão, que vai a julgamento este ano no Supremo Tribunal Federal. Mas quem fornece a produção intelectual e simbólica, capaz de compensar o poder avassalador da grande mídia e dos sistemas de manipulação da verdade?

Desconfio, por pura especulação sociológica, que há uma simbiose entre a nova classe média e a classe criativa no Brasil. E isso tem muito a ver com a política cultural baseada na diversidade cultural e no reconhecimento de formas de produção simbólica até então desconhecidas pela ação do Estado. Mas também pelas tecnologias de informação e comunicação, que oferecem novas possibilidades de produção e distribuição de conteúdos simbólicos.

Essa relação precisa evoluir, se consolidar como mercado, ampliando a oferta cultural para a classe C e consolidando um ambiente cada vez mais fértil, amparado por uma nova economia criativa.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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