A boa alma má - Cultura e Mercado

A boa alma má

Foto: P.Medina
O espetáculo A Alma Boa de Setsuan, de Bertolt Brecht, que estreou em São Paulo no ano passado, continua fazendo rir e refletir plateias de várias cidades do país. Tendo nos papéis principais Denise Fraga e Ari França, e uma direção segura de Marco Antonio Braz, essa montagem conta com um elenco afinado e muito bem preparado para fazer de um tema tão espinhoso algo engraçado, sem minimizar a sua dimensão filosófica e social.

Três deuses – nessa versão condensados em um único ator, Ari França – descem à Terra, a fim de encontrar uma alma boa e assim salvar o mundo. Após uma longa procura encontram a prostituta Chen Te, na cidade de Setsuan. Certos do sucesso de sua empreitada pagam-lhe então pela hospedagem, uma quantia suficiente para que ela abra um negócio e mude de vida. Aí começa a transformação brusca de seu caráter. Traveste-se de homem, Chui Ta, assume outra personalidade e torna-se dura, insensível, mesquinha e cruel. Trata com rigor os seus empregados e age de maneira torpe para aumentar os seus ganhos.

Brecht escreveu esta parábola em 1941. Acreditava que o homem era bom por natureza e que a maldade demandava um grande esforço.  As relações capitalistas, no entanto, exigem que o homem aja de modo vil e egoísta. Instaura-se então um impasse moral.  Passados quase 70 anos, o texto continua atual e confronta o homem moderno com questões éticas fundamentais para se viver em sociedade. A confiança, a generosidade e a solidariedade seriam para ele a base para a construção de uma nova sociedade. Haveria tempo ainda?

O que torna afinal uma pessoa aparentemente doce e inteligente uma mau caráter implacável, assumindo atitudes calhordas e abjetas? Para Brecht seria a luta insana pelo dinheiro, acionada pela roda do capitalismo, que deteriora as relações e os valores humanos, levando muitas vezes as pessoas a propagarem certos princípios e a agirem de modo contrário. Chen Te era uma mulher adorável e generosa que ao perceber a oportunidade de passar os outros para trás não hesita em mentir e em tentar arrancar deles o pouco que possuíam.

Nascido na Alemanha, Brecht transformou-se numa das personalidades teatrais mais influentes do mundo ocidental. Sua técnica visa a estimular a reflexão, proporcionar diversão e apelar ao bom senso; propõe-se a desnudar o comportamento hipócrita, que fundamenta a nossa ordem social, e mostrar ao espectador, mediante uma encenação lúdica e lógica, as contradições inerentes ao sistema socioeconômico do qual fazemos parte. Somos levados assim a compreender que a história é feita pelas atitudes e decisões de cada indivíduo.

Ao final, muitos espectadores deixam o teatro um pouco incomodados, pois o texto não propõe nenhuma solução para o impasse apresentado. Depois do riso é quase impossível não exercitar o pensamento crítico. Afinal, o que é ser mau caráter? Algo natural e normal no contexto das condutas capitalistas? Ou algo reprovável que deve ser combatido em prol de uma sociedade mais justa e pacífica? Não é tarefa do teatro responder a tais questões. Essa tarefa brechtianamente é do espectador.

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