Entenda a repercussão causada pelo depoimento de artistas após encontro com Lula, que inseriu o setor cultural no meio da discussão nacional sobre ética
O que era para ser um encontro de artistas com o presidente Lula em torno da sua candidatura à reeleição acabou se transformando em uma polêmica de enorme repercussão na imprensa nacional.
No último dia 21, no Rio de Janeiro, um grupo de cerca de 100 artistas participaram de uma reunião informal com Lula, ocorrida na casa do ministro da Cultura, Gilberto Gil. O objetivo era conversar sobre a atual gestão, a reeleição e a política cultural do governo. Entre os destaques desta última, Lula citou a criação de programas especificos (como o Cultura Viva), o aumento do orçamento do Ministério da Cultura e a quantidade maior de recursos liberados através da Lei Rouanet.
O estopim da polêmica foi uma reportagem do jornal O Globo sobre o encontro, na qual o ator e cineasta Paulo Betti declarou: “Não dá para fazer (política) sem botar a mão na m…” Na mesma matéria, o músico Wagner Tiso afirma: “Não estou preocupado com a ética do PT. Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país.”
A cobertura do encontro pela imprensa também revelou que ao final da reunião, o ator José de Abreu pediu uma homenagem a José Dirceu, José Mentor e José Genoino, três nomes que foram associados ao escândalo do mensalão. Mas para o jornal Folha de S. Paulo, ele reprovou as falas dos colegas: “Eu acho difícil fazer política sem colocar a mão na m…, mas acho que tem que tentar ter mãos beatas”
Já o produtor Luiz Carlos Barreto declarou: “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência. Se o fim é nobre, os fins justificam os meios.” Ele também afirmou:
”O que eu acho inaceitável é roubar. Eu acho que o mensalão é do jogo político, não é roubo.”
As declarações acima, somadas à “homenagem”, causaram um rebuliço em alguns dos principais veículos de mídia do país e uma indignação em boa parte do setor cultural. Em um editorial publicado no dia 26, o jornal O Estado de S. Paulo manifestou forte reação ao caso: “O desfrute real de alguns – e a expectativa de desfrute de outros – de verbas de estatais canalizadas para a Cultura, sob os auspícios do compadrio político, certamente explicará melhor os deprimentes disparates morais desferidos naquele recinto.”
A questão das verbas estatais para a cultura (e das leis de incentivo) também apareceu na coluna de Diogo Mainardi na última edição da revista Veja. Sob o título “O mensalão das artes”, o autor afirma que José de Abreu ganhou muito dinheiro com um patrocínio da Eletrobrás para seu mais recente espetáculo teatral. Mainardi é especialmente incisivo ao falar de Wagner Tiso: “Vi que ele rege a Orquestra da Petrobras, toca no Domingo na Funarte, coordenas as Quintas no BNDES, viaja a Paris a convite do Ministério da Cultura, é mandado a Goiás pelo Ministério do Turismo, apresenta-se no Centro Cultural Banco do Brasil, e pede tudo da Lei Rouanet para gravar um CD comemorativo de sua carreira”.
Com todo o frenesi da mídia, não há um risco de um julgamento equivocado em cima das declarações? O professor da USP Flávio Aguiar, em artigo na Carta Maior, alerta: “Frases descontextualizadas pontuaram os comentários em tomo de indignação ou decepção, como a de que quem faz política acaba tendo que sujar as mãos, que pode ter vários significados, dependendo do contexto em que foi dita”.
Mas segundo a Folha, ao ser procurado pelo veículo, Betti sustentou suas afirmações no encontro e complementou: “Não vamos ser hipócritas: eu acho que não dá pra fazer política sem sujar as mãos. Veja até agora, na história da humanidade.” O editorial do “Estado” rebateu: “Indaguemos agora. Se não dá para fazer política ‘sem sujar as mãos’, dará para fazer Arte sujando a consciência? Muitos dos popularíssimos artistas brasileiros…são modelos de comportamento de uma sociedade em que a massificação da comunicação eletrônica chegou antes do desenvolvimento cultural.”
Tiso, por sua vez, divulgou uma carta intitulada “O vilão sou eu?”, na qual afirma que ao se ver cercado por repórteres na saída do encontro, disse uma frase que escapou do contexto. “A falta de traquejo para enfrentar um batalhão de perguntas – algumas muito agressivas – me fez tropeçar no meu próprio discurso”, ele afirma na carta, onde diz também que não repudia a ética e sim “a manipulação do discurso sobre a ética, proposto pela oposição”. Para ele, o objetivo da polêmica foi atingir Lula e PT.
Em um ano eleitoral marcado por denúncias de corrupção vindas de todos os lados, a questão da ética se tornou o centro de um debate nacional. Mas as articulações de bastidores e o jogo de interesses que privilegia o privado em detrimento do público não parecem se restringir ao governo.
Em 2003, por exemplo, a tentativa do Ministério da Cultura de exigir contrapartidas sociais para os projetos patrocinados por empresas estatais gerou uma reação negativa capitaneada por nomes conhecidos do cinema nacional – como Cacá Diegues e Barreto – que estavam habituados a receberem patrocínio de empresas como a Petrobras. O barulho foi tão grande que o governo voltou atrás na decisão, como ocorreu com outro assunto que também gerou intensa repercussão na imprensa: a criação da Ancinav, que acabou boicotada especialmente pelo setor audiovisual (TV Globo e estúdios norte-americanos incluídos), que acusou o MinC de querer uma regulação autoritária em cima do segmento, uma afirmação negada por outra boa parte do setor cultural (mas com menos poder político).
A área audiovisual parece ser especialmente rápida na formação de lobbies. Neste ano, houve nova confusão em torno do edital do BNDES para a produção de filmes, quando cineastas mais experientes reclamaram que o resultado privilegiava os novatos e quase pediram publicamente a cabeça de Gilberto Gil, que vem defendendo continuamente uma maior pulverização e descentralização de recursos.
Somam-se a esse quadro diversos tipos de acusações: contra empresas que utilizam as leis de incentivo para patrocinarem projetos que interessam apenas às suas estratégias de comunicação; contra produtores culturais que fazem acordos com patrocinadores para que estes recebam de volta o “dinheiro bom” investido; contra editais públicos que selecionam quem tem os melbores contatos; e contra os nem sempre transparentes critérios de avaliação de projetos que tentam receber os benefícios das leis de incentivo à cultura. Para ficar apenas em alguns exemplos.
A crise de ética do Brasil chegou também ao setor cultural?
André Fonseca