Tenho lido artigos, ora por este mesmo Cultura e Mercado, ora por outros veículos, tratando das perspectivas para a cultura face à Copa do Mundo. Na maior parte dos depoimentos de produtores culturais, empreendedores, gestores e artistas, é quase unânime o desânimo e a perspectiva de diminuição de investimentos em 2014, quase sempre atribuída a um direcionamento quase magnético de recursos que normalmente seriam destinados à cultura, para eventos e campanhas relativas à Copa.
Este desânimo, todavia, tem carregado consigo muitos exageros e possíveis erros de diagnóstico. Nos mercados de cultura e entretenimento, há uma carência quase absoluta de indicadores econômicos que apontem tendências e facilitem estimativas e tomadas de decisão. Desta forma, as poucas referências sobre o assunto costumam vir de profissionais que atuam na área e emitem opiniões baseadas no seu dia-a-dia. Ocorre que, em geral, trata-se de um mercado pouco consolidado, e estas opiniões dificilmente refletem o panorama geral do setor, seja por limitação geográfica ou econômica do profissional, seja por impressões pessoais baseadas em uma amostragem muito pequena.
Grande parte do patrocínio privado à cultura no país é realizado com auxílio das leis de incentivo, hoje presentes em quase todas as esferas de governo, que direcionam o investimento de forma que ele esteja necessariamente restrito ao universo da cultura. Assim, se um patrocinador deseja investir na Copa do Mundo usando recursos de incentivo à cultura, ele poderá procurar um projeto de filme, show musical, peça teatral ou exposição de arte, entre outros, sempre de natureza comprovadamente cultural, com um tema relacionado ao evento esportivo. Se, por outro lado, uma empresa desejar realizar investimentos na copa do mundo utilizando-se de recursos próprios, ou a famosa ‘verba de marketing’, ela deverá ser patrocinadora oficial da Fifa ou da CBF para poder usar a marca do evento ou a imagem da seleção brasileira. E essas empresas já fecharam estes contratos há alguns anos, todos sabem quem elas são, e conta-se nos dedos o número de “felizardas”.
O ano de 2014 não é fácil, é bem verdade, com um processo eleitoral à frente e um desempenho do país medido no PIB que indica resultados menores das empresas e portanto menos recursos para reinvestimento, tanto oriundos de incentivos ficais quanto de orçamento direto. A Petrobras, outrora responsável por 50% de todos os recursos de incentivo investidos na cultura no país, encontra-se em um dos períodos mais difíceis de sua história.
Mas é pouco plausível que os investimentos privados na Copa tenham esvaziado os investimentos em cultura e entretenimento. Aliás, as maiores queixas que se tem feito sobre a Copa é justamente a ausência de investimentos privados. Projetos culturais relacionados à Copa ainda são projetos culturais. Ademais, há um grande número de empresas com potencial de investimento em entretenimento e cultura que não faz parte do seleto grupo de patrocinadores oficiais da Copa ou da seleção, e por sua vez estão também tentando manter-se ativas no mercado, vendendo seus produtos e serviços, usando ou não a Copa do Mundo em suas campanhas.
Têm fundamento as incertezas que rondam exibidores e produtores de eventos que dependem da bilheteria para se financiar. No discurso propagado pela FIFA e pelo governo, a Copa traria, com o aumento do turismo local e internacional, um aumento substancial no consumo de cultura. Sendo um pouco mais realista, ainda que a Copa das Confederações tenha apresentado bons resultados de visitação a museus, sítios históricos e shows nas capitais brasileiras, representantes ingleses e sul-africanos que vieram ao Brasil no final de 2013, apontaram que o aumento no consumo de cultura nestes países durante as copas que sediaram não ocorreu além do movimento regular. As diferentes combinações que o calendário de jogos pode assumir dificulta o agendamento de eventos durante o mês do evento. As estreias nesta época poderão ser prejudicadas pela redução da cobertura de mídia que será naturalmente deslocada para a Copa do Mundo no período e o aumento de público com turismo interno e externo ainda é dúvida.
Entretanto, quem mais poderia sofrer com o impacto da Copa é quem está se antecipando e buscando soluções criativas para, na pior das hipóteses, manter o nível de atividade. Grandes produtoras de entretenimento como a Time4Fun e a Aventura estão fazendo parcerias com hotéis, restaurantes, agências de turismo e bureaus apostando no turismo para atrair espectadores. A Embratur criou 2013 um edital para promover projetos de divulgação de festas regionais que acontecem na época da Copa, notadamente as festas juninas, e um edital para promoção de cidades históricas. O Ministério da Cultura anunciou o investimento de R$ 20 milhões através da Petrobras para a modernização de 12 museus brasileiros. Distribuidoras estão mantendo o lançamento de filmes nacionais e estrangeiros apostando que nem tudo é Copa do Mundo.
As maiores reclamações têm vindo justamente de quem, com a blindagem das leis de incentivo, teve oportunidades para captar recursos e atrair investimentos mas não as aproveitou, dando a justificativa de que a culpa é da Copa.