“O termo cultura é polissêmico e qualquer tentativa de emitir uma conceituação simples, tem em si o risco de torná-la reducionista, presunçosa, incompleta e não hegemônica.”
Na apresentação recente de uma peça teatral, em uma cidade do sertão nordestino, chamou-me a atenção o foco do monólogo da atriz, em se explicar no contexto das muitas carências de sua pobre região e que faltavam recursos emergenciais da União para combater os efeitos da seca. É verdade que foi um gesto teatral, mas esclareceu com simplicidade que a cultura de um povo é o modo como ele compreende-se na realidade.
O termo cultura é polissêmico e qualquer tentativa de emitir uma conceituação simples, tem em si o risco de torná-la reducionista, presunçosa e incompleta. Entretanto, aquele pequeno gesto provocou a reflexão sobre as limitações dos projetos de apoio à cultura nacional. Em geral, eles delimitam a sua compreensão de cultura ao sentido diacrônico que vincula o antropológico ao econômico, ora concentrando os esforços e os recursos na cultura da economia, interpretando e fortalecendo os padrões culturais, seus valores, símbolos, crenças, atitudes e mapas morais, ora transformando esses mesmos padrões em matéria-prima da economia da cultura, para a produção de bens e serviços culturais, como música, dança, arte plástica, literatura, artesanato e outros mais.
Fica destacada a necessidade de se abordar a interpretação sincrônica da complexidade sociológica de um povo vinculando-a ao estágio de desenvolvimento em que se encontra aquela sociedade. Isto porque é essa a direção que pode ajustar os temas delicados de pensar o acesso da sociedade à organização das normas e regulações sociais, os processos de conscientização da coletividade e seus efeitos no desenvolvimento, como na inovação tecnológica, na reprodução e na redistribuição dos recursos materiais e imateriais de hoje e na preservação deles amanhã, para as futuras gerações.
Essa complementaridade precisa ser incluída na concepção dos termos de referência para projetos culturais, pois não pode haver desenvolvimento na ausência da participação e do fortalecimento da capacidade de um povo para moldar a sua vida e contar a sua própria história, tal como ele se compreende na realidade. A não ser que se queira a supremacia da visão utilitarista da economia para perpetuar o gesto da cultura da miséria e da mendicância.
José de Moraes Falcão