A municipalização da cultura

É sabido e notório o crescimento da valorização cultural nos grandes centros urbanos, embora sejam conhecidos os obstáculos ainda enfrentados por todos os atores participantes deste mercado, principalmente, para os que sobrevivem da cultura no Brasil. O grande desafio constitui-se na necessidade de se estabelecer uma política cultural para as pequenas cidades.

Analisando a definição de Política Cultural “conjunto de iniciativas de agentes interventores, podendo ser públicos ou privados, na cultura local, objetivando a satisfação das necessidades culturais da população, além de promover o desenvolvimento de suas representações simbólicas traduzidas em promoção, produção, distribuição e uso da cultura, bem como a preservação e divulgação do patrimônio histórico” (LISBOA,1999, p.37) fico pensando sobre essa realidade/ prática no interior do Brasil.

É inquestionável o potencial cultural de diversas cidades do interior do Brasil. Como transformar este potencial em realidade? Artistas certamente não nascem apenas nas capitais. Mas… como descobri-los no interior, como garantir a sua sobrevivência com dignidade a partir de sua arte, e como consequência, como fazer que criem raízes nestas cidades ao invés de irem para os grandes centros?

O que parece é que há todo um problema estrutural, e, ao mesmo tempo, uma falta de informação muito grande por parte de toda a sociedade: empresários, administradores públicos, artistas e produtores culturais.

Retornemos ao conceito de política cultural “agentes interventores, podendo ser públicos ou privados”. Fica evidente neste que é necessário intervir nas questões culturais. Continuar acreditando que a cultura vem do berço e, portanto, o menino que não aprendeu em casa a gostar de arte, jamais gostará, é uma miopia. É um atalho que justifica toda a paralisia desses agentes que poderiam e deveriam estar intervindo.

É necessário, inicialmente, que se coletem dados sobre a realidade cultural. Quem faz? O que faz? Como faz? A partir deste diagnóstico simples, elaborar uma ação que permita duas situações simultâneas. Primeiro, que quem já esteja fazendo cultura possa dar continuidade, de uma maneira mais profissionalizada, com maior apoio dos setores públicos e privados. Segundo, que a sociedade, de uma maneira geral, possa usufruir do produto dos artistas da região. É a promoção. As pessoas têm que conhecer, têm que ter oportunidade de experimentar as sensações proporcionadas pelo produto cultural e artístico.

Um outro ponto que deve ser trabalhado é a questão da valorização da cultura local. Há que se encontrar caminhos de se incentivar a produção cultural nas pessoas. Isso pode ser obtido através de parcerias e de muita força de vontade. Há que se querer fazer.

E aqueles administradores que não estão preocupados em incentivar/ valorizar a cultura na sua localidade, porque acreditam ser mais importante ter a fábrica da empresa X, cabe lembrar que o novo milênio aponta a cultura juntamente com o turismo, como o caminho para geração de emprego e renda para a localidade. As fábricas contam com uma tecnologia avançadíssima que permite contratar o mínimo de mão-de-obra possível. O fazer cultural exige cérebro, pessoas, contato, enfim, exige pessoas com habilidades humanas afloradas.

Para que tudo isso aconteça é preciso haver sintonia, afinação entre administradores públicos, que são os primeiros agentes de mudança, com a classe empresarial e agentes culturais. É preciso debater, discutir, concordar, discordar, rever pontos de inflexão… Enfim, é preciso vontade, energia e muita competência na realização destas ações. Deve ser um trabalho conduzido por pessoas que possuam habilidade técnica e experiência, de maneira que possam buscar soluções que estejam em consonância com os objetivos propostos.

Caso a situação real não seja revista, corre-se o risco do novo modelo de economia – serviços baseados no turismo e cultura, a emergência do terceiro setor-, repetir os erros da Era Industrial, que privilegiou poucos em detrimento de muitos. O novo modelo exige universalismo e não mais especialização como no modelo antigo. Cabe aos administradores culturais um poderoso papel neste novo cenário.

Simone Marília Lisboa é consultora e administradora de empresas. Mestre em Marketing e Planejamento Estratégico pela Universidade Federal de Minas Gerais, autora do livro “Razão e Paixão dos Mercados”, técnica licenciada da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e diretora da Faculdade PROMOVE de Sete Lagoas. E-mail: smlisboa@uai.com.br – Fone: (31) 772-3770

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Simone Lisboa

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