O empresário John Brockman, agente literário de alguns dos mais destacados cientistas escritores do mundo, publicou em 1991 um ensaio intitulado “A Emergência da Terceira Cultura”. Suas reflexões causaram uma sucessão de debates cujas conseqüências e revelações não podem ser ignoradas pelos gestores que consideram seriamente sua missão de criar conhecimento e se manter na vanguarda das mudanças que se sucedem nas relações humanas e nos negócios. Entre 1991 e 1994, Brockman conversou com muitos cientistas envolvidos nas mais avançadas pesquisas dos mais variados campos do conhecimento humano e publicou, em 1995, o livro “A Terceira Cultura: Muito Além da Revolução Científica”.

Não se trata de uma mera antologia sobre descobertas científicas ou teorias sobre cosmologia. É o registro vivo e documental de um novo sistema de conhecimento e a apresentação pessoal dos protagonistas de uma nova visão de mundo que está revolucionando completamente o modo como fazemos cultura. A partir das revelações espantosas feitas pela ciência nas últimas décadas, esses estudiosos conduzem reflexões sobre as mais importantes questões do nosso tempo. Brockman criou uma organização para agrupar esses cientistas e congregou suas manifestações no site da Internet www.edge.org, de onde tiro algumas das análises que se seguem.

“Para chegar ao limite do conhecimento, encontre as pessoas cujas mentes são as mais complexas e sofisticadas, coloque-as juntas numa sala e peça que façam umas às outras as perguntas que estão fazendo a si mesmas”. Esse é o conselho de John Brokman, que ele próprio seguiu à risca, tornando-se por essa simples razão o cronista de um novo e transformador universo cultural que está redefinindo praticamente todas as relações humanas, desde o modo como iremos educar nossos filhos até as escolhas que faremos na compra de tecnologia ou o estilo com que faremos negócios ou arte daqui para a frente. O que estamos testemunhando é muito mais do que uma revolução científica: é o limiar do tempo que chamamos de Era do Conhecimento.

O conceito de duas culturas dominantes na nossa sociedade foi definido em 1959 pelo cientista, escritor e administrador público britânico Charles Percy Snow, Barão de Leicester, no livro “As Duas Culturas”. Snow observou que o mundo cultuava, de um lado, os intelectuais literatos e do outro, os cientistas, que desde Einstein vinham revolucionando o conhecimento do universo. Mas ele notou que os literatos haviam tomado para si com exclusividade o título de intelectuais, como se não houvesse outros seres pensantes fora do seu círculo. A expressão “homem de letras” excluía cientistas como o próprio Albert Einstein, com seus colegas físicos Niels Bohr e Werner Heisenberger, o astrônomo Edwin Hubble e o próprio criador da cibernética, Norbert Wiener.

Snow constatou ainda que, embora escrevessem muitas vezes para o público em geral, influenciando o modo de pensar da sociedade, os cientistas não manifestavam interesse pelas implicações sociais de suas obras. Editores, críticos, jornalistas e outros consumidores e ampliadores de cultura ignoravam o valor e a importância das idéias dos cientistas como frutos de atividade intelectual. Numa segunda edição de As Duas Culturas, em 1963, Lord Snow acrescentou um ensaio no qual sugeria que uma nova cultura, uma “terceira cultura”, iria emergir e fazer frutificar a comunicação entre os intelectuais literatos e os cientistas, para benefício da humanidade.

Não aconteceu exatamente como ele previu, porque os intelectuais literatos continuam ignorando a cultura produzida pelos cientistas, mas uma “terceira cultura” realmente pode ser observada nas livrarias, cinemas, na televisão, na Internet e nas conversações corriqueiras. Os cientistas estão se comunicando diretamente com o público em geral e ignorando os profissionais de mídia, procurando expressar seus pensamentos de uma forma acessível ao público leitor inteligente. Os intelectuais da velha cepa desprezam o fenômeno e dizem que esses livros representam uma anomalia: são comprados mas ninguém os lê. O fato, porém, é que físicos, biólogos, geneticistas, cientistas da computação, jornalistas científicos, psicólogos, antropólogos e outros estudiosos do comportamento humano, e grande número de filósofos científicos, estão traduzindo para a vida real as constatações feitas nos laboratórios. “Esses cientistas e outros pensadores do mundo empírico, através do seu trabalho e do texto expositivo, estão tomando o lugar dos intelectuais tradicionais ao tornar visíveis os mais profundos significados de nossas vidas, redefinindo quem e o que somos”, diz John Brockman.

E o que é que isso tem a ver conosco? Um indivíduo muito pragmático certamente se perguntaria o que uma tese de cosmologia tornada factível por um matemático teria a ver com a anatomia de resultados de uma organização ou um projeto de negócio. Fiel ao perfil conservador que marca a gestão de negócios e organizações dos mais variados tipos, e avesso a especulações filosóficas, é típico do gestor torcer o nariz para questões dessa ordem. Talvez ele também nunca se tenha perguntado quanto do conhecimento científico de ponta se transforma em benefícios para a vida real e, por extensão, quanto desse conhecimento poderia gerar oportunidades para seus projetos. A ponta visível da revolução científica das últimas décadas é a tecnologia, e apenas uma mínima parte dela está embarcada nos processos produtivos que nos tocam diretamente. Com certeza, uma fração ainda menor dessas descobertas informa e instrumentaliza o conhecimento que aplicamos.

Brockman observa que nossa educação mais elaborada, consolidada nos anos 1950 com base em Freud, Marx e o modernismo, já não proporciona qualificação adequada para um indivíduo pensante no início do século XXI. De fato, os pensadores tradicionalistas se revelam claramente reacionários, muitas vezes arrogantes e ignorantes de muitos dos feitos intelectuais do nosso tempo. Sua cultura, que despreza a ciência, é costumeiramente não empírica, recorrente em seus próprios jargões, auto-referente e caracterizada por amontoados de citações, numa espiral de comentários que progressivamente se distancia da realidade, diz o autor.

O alerta do criador de edge.com não pode ser ignorado por quem cria cultura e move a economia, pela simples razão de que todo conhecimento aplicado à gestão se alimenta em uma fonte de cultura. Portanto, investir numa educação que rompa velhas premissas é o passo inicial para criar modelos mentais mais progressistas e evolutivos, e sobre eles fazer brotar uma cultura que valorize a criação contínua e permanente de conhecimento na sociedade. Afinal, não é disso que tratamos aqui, em última instância?

Voltando à emergência da “terceira cultura”, por que é importante atentar para essa forma de criar conhecimento? Porque, sendo referendada por descobertas científicas, pela constatação empírica e por formulações matemáticas inquestionáveis, ela forma uma base muito mais sólida do que a alternativa do livre-pensar. Além disso, ao tomar contato com as verdades mais profundas que o conhecimento humano pode alcançar pela via da razão, os cientistas também obtêm acesso às metáforas essenciais da existência, que são indicadoras de modos sociais mais gratificantes, naturais e respeitosos em relação à humanidade e ao universo. O livre-pensar, o exercício do livre-arbítrio, se torna mais valioso se estiver fundamentado no conhecimento científico e na experiência, rejeitando as ilusões. Por outro lado, o conhecimento científico ganha o status de “terceira cultura” pela disposição de deixar os laboratórios e assumir sua responsabilidade social, trazendo o saber obtido na experimentação como fundamento para uma revolução no modo como nos relacionamos, como lidamos com produção e valores.

Em nenhuma hipótese estamos propondo o fim do livre pensamento ou sua marginalização como prática sem valor. Trata-se apenas da velha e boa questão da relação custo-benefício: exercitado sobre a base de conhecimento real e pragmático, o arbítrio humano certamente serve melhor à humanidade. Vale também reforçar o inverso da moeda: o conhecimento científico ou sua derivação, a tecnologia, com certeza serve melhor ao ser humano quando desenvolvido sobre uma base de respeito à vida. A chamada era digital será uma passagem natural para a era do conhecimento ou um hiato na história da humanidade, dependendo da causa a que servir.

Luciano Martins Costa é jornalista e escritor, autor do livro de contos “Histórias sem Salvaguardas”, do romance “As Razões do Lobo” e do livro de ensaio “Escrever com Criatividade”, sobre o uso da oralidade secundária no desenvolvimento da escrita. Ex-diretor da Amana-Key, Desenvolvimento e Educação, trabalha como consultor de empresas na área de comunicação corporativa. Email: [email protected]

Copyright 2002. Cultura e Mercado. Todos os direitos reservados.

Luciano Martins Costa


editor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *