A concentração de propriedade cruzada dos meios de comunicação de massa afunilam ainda mais os gargalos produtivos da diversidade. No jornal mais assistido do país, cinema é sinônimo de propaganda de filmes parceiros das Organizações Globo e de uma campanha gritante contra a “pirataria”.
O que é da Globo?
Lembro do começo da militância pela democratização da comunicação. O carioca Gustavo Gindre vivia contando uma historinha de uma conversa com um taxista, quando passava pela avenida Jornalista Roberto Marinho, em São Paulo. “Está vendo aquele carro de reportagem? É da Globo”, contava sobre a equipe de reportagem que saia dos estúdios da emissora. “Sabe aqueles jornalistas? São funcionários da Globo”, explicava ao impaciente taxista. “Sabe o canal 5?”. “Já sei, é da Globo”, atravessou o taxista. “Não. O canal é nosso. A Globo tem apenas uma concessão pública de prestar o serviço”.
A pauta de si mesmo
Lá se vão mais de sete anos, quase seis de governo Lula, e pouco impacto tiveram as palavras de Gindre, mas elas nunca foram tão importantes para uma reflexão. O Jornal Nacional de sábado dedicou quase três minutos de seu precioso tempo para falar sobre cinema. Calma, nada de propaganda da diversidade das produções ou um balanço sobre as dificuldades do setor. A reportagem tratou do Festival de Cinema do Rio, mas parece que o JN só conseguiu tempo para pautar os três filmes brasileiros ligados ao mainstream. O filme “Mutum”, baseado no livro “Campo Geral”, de Guimarães Rosa, “O Homem que desafiou o Diabo” e o pirateado “Tropa de Elite” são os destaques do jornal.
Elite cinematográfica
Tropa de Elite merece destaque especial. O filme está circulando há mais de um mês em camelôs e na Internet com uma versão inacabada. Até a Veja dessa semana destacou o filme, que entra em cartaz no dia 12 de outubro. Dirigido por José Padilha, autor do documentário Ônibus 174, a estimativa é que 3 milhões de pessoas já tenham assistido à uma versão semi-acabada. A Grande Família, o maior sucesso entre as produções nacionais neste ano, teve público de 2 milhões de espectadores.
O Fenômeno
A Revista Época explicou porque o filme Tropa de Elite, sobre a guerra entre a polícia e o tráfico no Rio de Janeiro, se tornou um fenômeno antes mesmo de chegar aos cinemas. Mas, o centro do debate deixou de ser a violência policial e partiu para a propriedade intelectual, a pauta de todos os jornalões sobre o festival ou o filme. Segundo a Motion Pictures Association (MPA), que reúne os maiores estúdios cinematográficos do planeta, de cada dez DVDs vendidos no Brasil, seis são piratas.
“Leniência”
“Há quem diga que isso é a democratização da cultura. Para mim, a pirataria propaga a cultura da sonegação fiscal, da corrupção e do crime”, diz Padilha a Veja. E a revista emenda: “É natural que o Ministério da Cultura queira entrar nesse debate. Mas não é admissível que o ministro Gilberto Gil crie ainda mais confusão. Sua posição dúbia, principalmente no que diz respeito à flexibilização do direito autoral, não agrega. Quando um ministro de estado fala sobre o tema demonstrando leniência, desenha-se um quadro de rompimento institucional e de ameaça à lei”.
Pirata do bem
A versão de Tropa que chega aos cinemas no mês que vem teve alterações. É cinco minutos mais longa que a pirata, além de ter correções de som, luz e cor. Estas e outras questões devem render a Tropa de Elite a maior bilheteria brasileira do ano. Distribuído pela Universal, dá para dizer que o que eles chamam de “pirataria” está mais para um bom negócio.
Tipo exportação
O Estado de S.Paulo parece que foi o único que se preocupou com o Market Rio, ação dentro do Festival que tem investido no mercado audiovisual, por meio de debates e seminários que discutem a técnica e o comércio do cinema. Filmes, bem entendido, são obras de arte e produtos comerciais – mesmo o filme mais artístico situa-se num nicho de mercado, formado por cinéfilos, e o que o Market Rio faz é justamente debater as questões ligadas à produção, distribuição e exibição. E a preocupação do momento é a exportação do cinema brasileiro.
O que todo mundo ignorou
Sobre isso, o que todo mundo ignorou, mas o jornal do Senado registrou, foi o ministro da Cultura, Gilberto Gil, entregando na semana passada ao presidente da Comissão de Educação do Senado, Cristovam Buarque (PDT-DF), proposta de emenda ao projeto de Orçamento da União de 2008, para incentivar projetos cinematográficos e audiovisuais. No valor de R$ 100 milhões, a emenda é destinada a promover condições necessárias ao aumento da competitividade da indústria cinematográfica e videográfica nacional, permitindo maior difusão dessa produção no Brasil e no exterior. Além dessa pauta esquecida, Gil esteve também na Câmara e espera 0,9% da União para a gestão do MinC no próximo ano.
Ninguém sentirá falta
O garoto propaganda da Abril, Diogo Mainardi diz que Gil está se preocupando à toa e mandou fechar o Ministério da Cultura. “Economizaremos um baita dinheiro. E ninguém sentirá falta deles. Os lobistas da cultura sempre repetem que o estado precisa financiar arte, literatura, cinema. Precisa nada. Passamos perfeitamente bem sem isso tudo. Se os artistas quiserem, podem tocar sanfona na rua e arrecadar umas moedinhas”, acredita o Dioguinho.
A bola da vez
A bola da vez é a possível adoção do sistema anticópia conhecido como DRM (digital rights management). Diogo Moysés e Oona Castro publicaram no observatório da imprensa um artigo criticando o Ministério das Comunicações e o seu alinhamento à posição dos radiodifusores. Caso venha a fazer parte das normas técnicas do SBTVD, o DRM impedirá o espectador de gravar qualquer programa televisivo.
Enquanto isso, na Alemanha
O Estadão disse em uma pequena nota da agência EFE que a Alemanha resolveu autorizar de vez cópias de CDs e DVDs. O projeto de lei não inclui o pedido do setor de fixar uma porcentagem para compensar eventuais perdas com as reproduções das obras. O Conselho Federal da Alemanha aprovou na semana passada projeto que reforma a lei de propriedade intelectual e libera cópias de CDs e DVDs sem selo de segurança para uso privado no país.
Carlos Gustavo Yoda