A Associação Brasileira de Gestão Cultural (ABGC) está comemorando uma década de convênio com a Universidade Cândido Mendes no seu Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais e Sociais.
Pioneiros no Rio de Janeiro – com o primeiro curso de graduação em Produção Cultural oferecido na cidade – e no Brasil – com a primeira pós-graduação em Gestão Cultural do país – os organizadores dão início neste mês à IX turma de seu MBA em Gestão Cultural, com atualização do currículo, diante das novas requisições do cenário cultural nos dias de hoje.
E tem mais novidade: Liliana Magalhães, gestora cultural com ampla atuação no setor em várias regiões do país, que esteve por 9 anos à frente da implantação e superintendência do Santander Cultural em Porto Alegre, assume a vice-presidência da ABGC, com a missão de ampliar as ações empreendedoras da instituição.
Em entrevista ao Cultura e Mercado, a presidente da ABGC e coordenadora acadêmica do MBA em Gestão Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais e Sociais da Universidade Candido Mendes, Kátia de Marco, fala sobre a história e as novidades no curso e a relação entre universidades no que diz respeito à formação acadêmica na área cultural.
Cultura e Mercado – O curso MBA em Gestão Cultural comemora 10 anos em 2012. Quais as principais mudanças vocês identificam neste período no que diz respeito à área no Brasil, e como elas interferiram na evolução do curso?
Kátia de Marco – Quando desenvolvi o currículo do curso em 2002, fundando o Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais e Sociais da UCAM, não havia muitos parâmetros nas pesquisas que realizei quanto a cursos similares nesta área neófita (nenhum no Brasil ainda com a nomenclatura em Gestão Cultural) como um novo saber e nova profissão.
Os cursos regulares aos quais me inspirei foram as pós-graduações já com a nomenclatura de Gestão Cultural oferecidos desde 1999 na Universidade de Barcelona. O termo Gestão Cultural como um novo campo baseado na área de “Administração de Empresas”, foi cunhado pela OEI/Espanha – e ampliava o olhar latinoamericano na dimensão de estudos do que se conhecia como “Arts Management”, das artes para as manifestações culturais em sentido amplo. E propunha o deslocamento de uma metodologia organizacional para a abordagem da cultura como cidadania, desenvolvimento, indústria e negócio. Era de fato algo incipiente e praticamente inédito no Brasil.
No Brasil, na esfera acadêmica, se desenvolviam os segmentos intitulados como “Marketing Cultural” e “Produção Cultural”, na busca de sistematização do conhecimento multidisciplinar que o setor já demandava na época. Assim, como corolário da fundação do ministério da cultura e da instituição do sistema de financiamento público via leis de incentivo, dando o start nos processos de profissionalização e de institucionalização da cultura no país, surgiram o MBA em Gestão Cultural e a Associação Brasileira em Gestão Cultural, em convênio com a Universidade Candido Mendes.
Daí em diante, durante esta década, acompanhamos o ministério capitaneado por Gilberto Gil, com o intuito de desenhar e instaurar uma política de cultura a ser veiculada por inúmeros programas e sistemas, onde a ciência da gestão, pautava a construção das metodologias de pesquisa, capacitação, elaboração, distribuição, monitoramento e formalização destes programas, que implementavam esta nova política (Política Nacional de Museus/2003, I Conferência Nacional de Cultura/ 2005, inaugurando as bases para o Plano Nacional de Cultura, Mais Cultura, Cultura Viva entre outras). Dentro deste universo, aos poucos também extensivo à um percentual crescente de estados e municípios que criavam suas secretarias de cultura e leis de incentivo, desenvolveu-se o foco da gestão em cultura junto à àreas do saber como economia, política, sociologia, museologia, que passam a renovar seus objetos de estudo específicos, diante desta nova visão ampliada da cultura na contemporaneidade.
Acompanhando tantas mudanças neste cenário de profissionalização da cultura no Brasil e na América Latina, nosso curso foi se metamorfoseando para atender a formação deste profissional que passava a ampliar suas possibilidades de atuação em um mercado de trabalho que se aquecia diante de tantas transformações nas maneiras de ver, de fazer, de comunicar e de vender a cultura.
CeM – Qual é a média de alunos do curso (números e perfis profissionais)?
KM – Nas oito turmas implementadas desde então, formamos um universo de cerca de 300 alunos que encontram-se , em boa parte, contribuindo efetivamente para esta ativação da profissionalização dos setores culturais no país. Se nas primeiras turmas recebíamos em grande parte artistas diversos que queriam se capacitar para gerir com mais eficácia as suas carreiras, produtores profissionais que tinham um aprendizado empírico e queriam aprofundar e embasar seus conhecimentos, de tempos para cá, recebemos também, dividindo a cena, profissionais advindos de diversas áreas formativas que percebem a cultura como um campo promissor de intersecão e interação com os seus saberes nas áreas de administração, economia, direito, contabilidade, ciências sociais, museologia, comunicação, etc. Deste modo a pós-graduação vem crescendo em demanda, como uma especialização no campo da cultura, para a atuação de diversas áreas das graduações em gestão, comunicação e artes.
CeM – E como é feito o processo de seleção?
KM – Análise de currículo e entrevista. Mediante o contato direto com o candidato, a ideia é orientá-lo quanto à dimensão da proposta do curso, tirarmos suas dúvidas, conhecermos a sua expectativa e seu perfil de atuação profissional.
CeM – Vocês também promovem turmas exclusivas para empresas e instituições sociais. Como funciona esse programa?
KM – Sim. Estes programas têm uma proposta segmentada em atender os objetivos específicos institucionais e de colaborar com os conteúdos inovadores do campo da Gestão Cultural enquanto conhecimento instrumental para o desenvolvimento e atualização dos quadros funcionais e para a dinamização das práticas das entidades.
CeM – De que maneira as atuais discussões sobre economia criativa devem ser abordadas no curso?
KM – Desde a primeira turma do curso, oferecemos a disciplina de Economia da Cultura, ministrada por professores como Luiz Carlos, Prestes Filho, Ana Carla Fonseca Reis e Arnaldo Deutscher. Como falei, tivemos sempre a autonomia e o objetivo de atualizar sempre os conteúdos e ementas das disciplinas acompanhando os cenários atuais e convidando sempre os melhores especialistas de cada área afim, com o duplo perfil, acadêmico e executivo. Nos dias de hoje, essa disciplina central em nosso currículo circunda os desafios da urbanização integrando a cultura como vetor econômico e social, com a dimensão da cidades criativas, e na dimensão econômica das cadeias produtivas como canal de desenvolvimento, inclusão e sustentabilidade para às artes e à cultura.
CeM – E no que diz respeito às novas tecnologias para a produção cultural?
KM – Também desenvolvemos em nosso currículo desde 2005, com consultoria da Eliane Costa, um módulo inteiro para os conteúdos da Cultura Digital. Vide no CV do curso o VI módulo ” Cultura e Tecnologia”. Neste módulo abordamos a tecnologia da informação, como conteúdo sociológico, instrumento empírico como recurso visual de exibição das produções, de ampliação de audiência, como comunicação corporativa, como área do direito etc.
CeM – Quais outras novidades você destaca para a turma deste ano?
KM – Para esta IX turma promovemos uma reestruturação ampla no currículo. Tanto no que diz respeito à ajustes de carga horária e novos professores, como também à conteúdos novos que se fizeram fundamentais para o aprofundamento em Gestão Cultural na atualidade:
. Gestão de Coleções e Acervos Museais – Cícero de Almeida – IBRAM/UNIRIO
. Programas de Desenvolvimento de Públicos – Liliana Magalhães – ABGC/SOMOS
. Modelagem e Seleção de Projetos – Mariana Várzea – SMU/SEC/RJ
. Gestão de Projetos – Pablo Castellar – OSB
. Gestão de Organizações Sociais – Emanuel de Melo Vieira – SEC/RJ
. Análise de Fundos Alternativos e Cooperação Internacional – Pedro Lessa – CDI
. Pesquisa e Indicadores Culturais – Cristina Lins – IBGE
. Turismo Cultural e Cidades Criativas – Heliana Marinho – SEBRAE
. Tecnologia e Gestão Cultural – Maria Arlete Gonçalves – Oi Futuro
. Gestão e Tecnologia da Informação – Ely Barbosa- UCAM
CeM – Recentemente a ABGC promoveu um estudo que mapeou os cursos de graduação e de pós-graduação na área de produção e gestão em cultura existentes em todo o país. Constatou-se que existem mais de 100 cursos distribuídos por universidades brasileiras. Podemos apontar as características comuns e as principais diferenças entre eles?
KM – Ressinto muito a falta de fóruns nacionais e regionais acerca de pesquisas, estudos de impacto e seminários sobre as nomenclaturas e currículos dos cursos de graduação e de pós-graduação nas áreas de produção, gestão e entretenimento na cultura, que existem desde 1995 no país. As universidades trocam muito pouco entre si quanto à formação acadêmica no setor, e cada uma segue basicamente sua experiência nuclear de maneira mais unilateral. Ao meu ver, caberia ao MinC e ao Ministério da Educação promoverem incentivos para esses encontros de instituições formadoras e promover programas em conjunto com as universidades para que houvesse um termo de referência que pautasse qualitativamente a composição destes currículos tão diversos e, em muito casos, tão pouco fundamentados e aprofundados.