A internet possibilita, em apenas um clicar, que o músico e sua arte passem de locais a globais. Mas, assim como qualquer ferramenta, não funciona sozinha: precisa de um comando que a direcione.
Em um mundo de infinitas possibilidades virtuais, o “cara-a-cara” e o “olho no olho” ainda são fundamentais para gerar terreno confiável para que a comunicação se desenvolva. No mercado de música, as feiras são uma ótima oportunidade de realizar networking. E networking não é só direcionado a vendas – possibilita também o encontro com novos parceiros, além de ser uma fonte constante de informação.
Feiras são, essencialmente, lugares de encontro entre pessoas com interesses em comum. É ali que os profissionais de toda a cadeia de produção de música se reúnem. E é ali que você também deve estar se quer que sua música seja global.
A primeira reflexão que deve ser feita é: o que quero vender? Em que categoria a minha música se encaixa? Lá fora, a música brasileira é uma instituição por si só. Lá, quando se fala nela, diversos estereótipos ainda aparecem, como samba e bossa nova – o que reflete uma visão antiga que há tempos não traduz a diversidade da produção contemporânea.
Por outro lado, a música brasileira também não se enquadra facilmente em categorias como world music – talvez os estilos que envolvam elementos tradicionais ou “exóticos” tenham mais proximidade, mas de forma geral, música brasileira não cabe ali.
E onde ela se encaixa? É claro que “categorizar” um estilo musical é uma forma de limitação. Mas a questão é simplificar: o músico (ou empresário) precisa fazer essa reflexão a respeito de sua música para definir a direção que irá seguir em busca de selos, promotores de festivais, distribuidoras e outros possíveis parceiros.
Outra questão importante é definir quem vai à feira – afinal, trata-se de um investimento alto que inclui no mínimo passagem aérea, hospedagem, alimentação e inscrição na feira.
“O artista nem precisa ir na primeira vez. O foco é entender onde sua música se encaixa e participar de conferências para ficar por dentro das novas tendências do mercado. E isso deve ser feito pelo empresário, que possui visão ampla e estratégica do negócio”, explica David McLoughlin, gerente de relações internacionais do programa Brasil Music Exchange.
Além de espaços para networking, a programação das feiras também oferece normalmente uma série de conferências sobre o mercado da música. Elas são uma ferramenta ideal para mapear os novos caminhos e tendências da indústria.
Um passo de cada vez – McLoughlin também afirma que a participação em feiras só é válida se realizada em médio ou longo prazo. “É a regra dos três anos. No primeiro, você não conhece ninguém e é raro conseguir um retorno financeiro, pois as pessoas não querem arriscar. Já no segundo ano, você já sabe quem são as pessoas chave para encontrar e elas já te reconhecem. Você conquista a confiança delas através da continuidade”, explica.
Há diversos casos de artistas independentes que se apresentaram em showcases para poucas pessoas e entre elas havia o promotor de um festival interessante que o convidou, ou jornalista que escreveu uma matéria que ajudou a fechar outros negócios posteriormente. Ou seja, trata-se de um investimento com muitas possibilidades de retorno financeiro.
Flavio de Abreu, da Scubidu Records, que fica em São Paulo, também é um bom exemplo. Ele participa de feiras internacionais há mais de três anos e já colhe os frutos – só esse ano, fechou turnê com o músico Ricardo Herz na Europa e nos próximos meses vai ser a vez da cantora Anelis Assumpção partir para sua primeira turnê internacional.
“Estivemos na última edição do jazzahead!, na Alemanha, onde apresentamos o showcase do Ricardo Herz Trio, e a receptividade foi excelente”, conta. “Depois do show, fomos abordados por festivais, labels, clubes de jazz, imprensa e outros músicos. O público da feira é organizado, sabe o que quer e adora música brasileira. Definitivamente o Jazzahead passa a ser prioridade no calendário da Scubidu Music”.
“O SXSW 2013 marcou por ser o primeiro show internacional da Gang do Eletro”, lembra Marcel Arêde, da AmpliCriativa, de Belém. “Conseguimos desdobrar em resultados concretos para começar a trabalhar no mercado americano e europeu.”
Planejamento e networking são as palavras chave para que o investimento em feiras dê retorno. Vale, antes de mais nada, investigar qual feira você tem mais interesse e, uma vez definida, checar quais empresas e profissionais do mercado internacional irão participar para focar o seu networking.
“Cada feira tem uma característica diferente, com regras e perfis próprios”, explica McLoughlin. “A BME realiza ações em feiras mais conhecidas como Womex, Midem e SXSW, e, recentemente incluímos outras feiras como jazzahead! e Classical:NEXT. Montamos um espaço onde realizamos reuniões de negócios com profissionais internacionais interessados na música brasileira”, conta.
*David McLoughlin e Flávio de Abreu estarão no Cemec para o curso Mercado Internacional da Música, assinado por Cultura e Mercado em parceria com a BM&A, que acontece de 25 a 28 de agosto. Clique aqui e veja a programação.