Não consegui embarcar hoje cedo para o Rio, onde foi realizada a primeira coletiva de imprensa após o anúncio de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura. Conversei com alguns presentes e com Vitor Ortiz, um dos grandes quadros da cultura no país, anunciado como coordenador do processo transição.

Quem esperava um clima de revanchismo e rivalidade com a atual gestão, em decorrência da “volta por cima” do grupo ligado a Antonio Grassi,  ex-presidente da Funarte, se decepcionou. A ideia é reconhecer os avanços, continuar programas como Cultura Viva (dos Pontos de Cultura), Sistema Nacional de Cultura, e aprimorar sobretudo na gestão e diálogo, considerando a “opinião de todos envolvidos no processo cultural”.

A turma que se despede do MinC teme que propostas com o projeto de Lei do Direito Autoral seja abandonada pela nova Ministra. Ana preferiu cautela em suas colocações. Diz ter opinião pessoal sobre o assunto, mas prefere analisar as propostas, tomar pé da situação e refletir sobre o correto encaminhamento da questão.

Parece que o tempo das frases inconsequentes e do embate ideológico se vai com o fim do mandato de Juca Ferreira. “Sóbria, serena, equilibrada e impessoal”, são as impressões de quem ouviu sua fala. Transversalidade, diálogo, integração com o governo em todas as esferas são as palavras-chave do novo Ministério da Cultura.

Ana de Holanda enxerga o MinC como parte de um desafio maior, do governo Dilma, que precisa encontrar caminhos de consolidação para as classes sociais emergentes. A nova ministra quer ver o MinC no centro da estratégia governamental. “Vamos buscar a inclusão social através das várias áreas de ação do ministério. Vamos buscar o diálogo principalmente com a Educação e áreas sociais. O Ministério da Cultura não é um apêndice. Ele é integrado”, disse.

Pelos relatos que recebi, a transição deve correr em clima amistoso, de companheirismo e colaboração. É o desejo expresso pela nova ministra e sua percepção das conversas mantidas com a atual gestão.

Embora a ministra não seja vinculada a nenhum partido, a primeira mulher ministra da história mostra-se fiel companheira ao grupo de Antonio Grassi, do PT: “é um quadro maravilhoso, com uma capacidade de trabalho e uma liderança muito grande. Gostaria muito de tê-lo comigo. Minha equipe só teria a ganhar”, disse Ana.

Minha vó já dizia: “o mundo é redondo. E dá voltas”.


editor

8Comentários

  • Leonardo Brant, 22 de dezembro de 2010 @ 16:55 Reply

    Foi publicado na Folha de S.Paulo hoje:

    NOVA MINISTRA ESTÁ LIGADA A GRUPO CONTRÁRIO A GILBERTO GIL

    A terça-feira foi de arrumação de gavetas no MinC (Ministério da Cultura). Após a nomeação da cantora Ana de Hollanda para a pasta, na segunda-feira, a equipe de frente do ministério comandado por Juca Ferreira começou a dar por encerrado seu trabalho.

    O núcleo duro do MinC sabe que, dificilmente, será mantido na próxima gestão.

    Mais do que simples mudança de nomes, a substituição levada a cabo por Dilma Rousseff indica, na visão de muita gente ligada à política cultural, uma mudança de curso na pasta.

    Entregue a Gilberto Gil, do PV, no primeiro mandato do presidente Lula, o MinC formou-se a partir do que, na Esplanada, foi chamado de "trauma inicial".

    Em 2003, petistas diretamente envolvidos no programa cultural do partido, como Antonio Grassi e Márcio Meira, não contavam com a chegada de um "verde" a seus domínios. Desde o início, houve conflitos entre os dois grupos –diversos na origem e na ideologia.

    CONSPIRAÇÃO

    No segundo mandato de Lula, o ator Antonio Grassi, acusado de "conspiração", acabou até demitido da Funarte por Gil. A nomeação de Ana, que trabalhava na Funarte e saiu em solidariedade a Grassi, em 2007, é, por isso mesmo, vista como a vitória de parte do grupo que, há oito anos, ficou descontente com a escolha de Lula.

    O petista Celso Frateschi, ex-presidente da Funarte, é um dos que acham que Ana pode significar a retomada do programa original do PT.

    "Não só acho, como espero", diz Frateschi. "O ministério tem, por exemplo, problemas sérios de gestão. Era fundamental a mudança."

    Outro petista historicamente ligado à cultura, Sergio Mamberti, hoje na Funarte, mas integrante dos quadros do MinC há oito anos, tenta apaziguar a situação.

    "A Ana sempre esteve ligada às políticas do ministério e tem plenas condições de dar continuidade à política atual", diz Mamberti. "Além disso, ela é uma indicação do PT, mas não é filiada ao partido. Não partilho dessa ideia de vingança."

    Por Ana Paula Sousa sss://www1.folha.uol.com.br/poder/849340-nova-mi…

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 22 de dezembro de 2010 @ 18:25 Reply

    Leonardo

    O que me preocupa é se Ana Hollanda não conseguir agradar a gregos e troianos que aplaudiram, aqui nesta tribuna, o texto crítico do clone do Julinho da Adelaide. É só verificar abaixo, “O Estado contra a Lei”.

    A pergunta é simples, se Ana não corresponder às expectativas daqueles anônimos que atacaram o MinC naquele período, eles novamente vão utilizar o o clone de Julinho da Adelaide, codinome de Chico Buarque? Aí vira um sanatório geral.

    Vamos lembrar a música de Julinho da Adelaide, “Acorda Amor”, e entender o que pensava ele sobre a patrulha macartista?

    Acorda Amor
    Leonel Paiva – Julinho da Adelaide/1974

    Acorda, amor
    Eu tive um pesadelo agora
    Sonhei que tinha gente lá fora
    Batendo no portão, que aflição
    Era a dura, numa muito escura viatura
    Minha nossa santa criatura
    Chame, chame, chame lá
    Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

    Acorda, amor
    Não é mais pesadelo nada
    Tem gente já no vão de escada
    Fazendo confusão, que aflição
    São os homens
    E eu aqui parado de pijama
    Eu não gosto de passar vexame
    Chame, chame, chame
    Chame o ladrão, chame o ladrão

    Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer
    Mas depois de um ano eu não vindo
    Ponha a roupa de domingo e pode me esquecer

    Acorda, amor
    Que o bicho é brabo e não sossega
    Se você corre o bicho pega
    Se fica não sei não
    Atenção
    Não demora
    Dia desses chega a sua hora
    Não discuta à toa, não reclame
    Clame, chame lá, clame, chame
    Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
    (Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

  • DaniTC, 22 de dezembro de 2010 @ 22:41 Reply

    Me parece ótimo uma ministra da Cultura falar em integração com a educação antes até de assumir a pasta. Ufa! Estou me animando. Sorte pra nós no próximo ano!

  • luis alencar, 25 de dezembro de 2010 @ 11:40 Reply

    Espero que essa tranversalização abranja outras aréas também. Pecisamos trabalhar com setores como as ciências e tecnologias e o t urismo. Vejo o turismo cultural como um segmento inexistente, apesar de ser importantíssimo para a sustentabilidade do nosso patrimônio.

  • Marcia Oliveira, 27 de dezembro de 2010 @ 14:21 Reply

    Que a Educação já abrigava interesses artísticos e culturais que sempre ficaram em ultimo plano mesmo nas áreas de formação intelectual já é conceito antigo. Que a Cultura precisa manter estreito diálogo com a formação ( educacional) e com as áreas sociais é uma proposta que se não for levada a encaminhamento podemos mais uma vez acreditar que este trem mais uma vez passará carregado de boas intenções. E sinceramente delas o inferno anda lotado.

  • sergio sobreira, 30 de dezembro de 2010 @ 17:56 Reply

    Uma política pública eficaz tem que alcançar, articular e integrar duas dimensões da cultura: a antropológica, de sentido mais largo, abrangente, que compreende aspectos conceituais expressos em idéias, valores, conceitos, e a sociológica, de sentido mais aplicado, específico, que compreende aspectos estruturais e operacionais, como por exemplo o atendimento as necessidades da arte. Infelizmente, o que temos visto é uma grande confusão na qual estas dimensões são emboladas, confundidas, alternadas em discursos e práticas, sem que se faça a necessária distinção sobre o que são valores e o que são instrumentos. Em nome de conceitos não se pode desassistir a arte ou eleger formas a serem atendidas em detrimento de outras. Espero que a futura ministra Ana de Holanda não se perca num mar de conceituações e deixe em banho maria a urgência dos que tem fome e sede de arte.

  • Octaviano Moniz, 31 de dezembro de 2010 @ 9:09 Reply

    Estou apostando nela,sobria,nada radical,sem estrelismos,passa o tom certo de quem não quer virar constelação mas uma estrela que ajude a brilhar no Universo.Muito boas as colocações dela em relação a integração com o projeto de Governo e usar a Cultura como vetor de inclusão social.Desejo sorte e nada de “fogo amigo”! Cultura e Educação para diminuirmos as desigualdades sociais e darmos chances iguais a todos os brasileiros!Yes,she can!(esta batido,mas é bom!!!!!!!)
    da Bahia Octaviano-artista multimidia e jornalista

    PS As pessoas que foram e a maioria nem a conheciam me relataram por telefone e email que ficaram encantads!Vamos Brasil…….

  • O que está por trás do auê contra Ana de Hollanda? | From Lady Rasta, 25 de janeiro de 2011 @ 16:01 Reply

    […] remunere corretamente os artistas pela utilização da sua obra. Encontrei vários textos afirmando que a Ministra vai continuar uma série de projetos iniciados na gestão anterior. Também não vi, nas atitudes da Ministra, nada que a desabonasse inicialmente e ela tem recebido […]

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