Seria este o papel da nova imprensa independente? O de encurtar a mediação entre o fato e o relato? E abandonar o formalismo que, em si, media a notícia? Soprar ao pé do ouvido eletrônico!?
Caro Yoda,
Passei a semana buscando o mote para o Fórum desta edição. Esperando vir. Veio. Não veio. Voltou, fugiu… Salvou-me a carta que me enviaste e que, agora, neste privilegiado espaço público respondo, aproveitando para convidar nossos leitores a participarem desta correspondência.
Pensei em falar da necessidade da convergência entre as políticas públicas de cultura e comunicação, tema do Matterlat na entrevista que você fez. Depois, quis falar como o mesmo Matellart notabilizou-se por explicitar a receita milionária do Walter Disney que enriqueceu ilustrando a cartilha de seu ideário neoliberal e belicoso com patos e ratos, criando um mundo no qual as fantasias não eram nada inocentes. Quis falar de como a indústria cultural vale-se cada vez mais destes ratos e patos e esponjas para gerar mais e mais consumo de seus panfletos doutrinadores para uma sociedade de discurso unitário e comportamento massificado.
Desisti disso tudo e resolvi voltar à proposta original de retomarmos a discussão sobre a diversidade cultural, para preparar e anunciar o debate que nossa cobertura do Seminário Internaconal sobre Diversidade Cultural propiciará.
Depois, enveredei-me por uma reflexão a respeito das escolhas formais que fazemos em nosso jornalismo cotidiano. Perguntava-me se a forma do texto já não seria em si um recorte. Indagava o quanto da forma de nossas reportagens já não indica um raciocínio também formatado em uma lógica que beneficia de alguma maneira o esvaziamento da mensagem. A forma reducionista do jornalismo-padrão não empobreceria as possibilidades de significação dos relatos? A linearidade narrativa, a objetividade no relato, o distanciamento entre o sujeito que noticia e o objeto de sua matéria … tudo isso me soando como uma poderosa e histórica redução a um padrão hegemônico eleito como o único digno de credibilidade.
Perdi-me neste devaneio, pensando no fato de que a parceira deste nosso 100canais, a Carta Maior, foi eleita, com a larga margem de 65% dos votos, a melhor página de hard news pelo Portal Imprensa e a nossa estimada Carta Capital ganhou como a melhor revista semanal de informação, com 75% dos votos.
Foi entre estas divagações e outras propiciadas por um fragmento ainda de Mattelart sobre o alternativo ser o não normativo e o idependente ser o não comprometido que recebi seu relato do firmamento do protocolo de intenções entre o MinC e o BNB para o desenvolvimento da cultura no nordeste. Este que publiquei, nesta edição, a seu pedido, por incomum que pareça e seja, em forma de carta (leia aqui). E eis que se clareou o tema deste fórum. Será apenas uma indagação ao leitor:
Para que você leitor dê credibilidade à informação e a valorize e a retenha e a reproduza e passe a se comportar de acordo com o que ela propõe, é mais fácil se ela vier empacotada no formato padrão e com o sotaque homogeneizado da grande imprensa ou se ela surgir desafiadoramente a despistar seu olhar do que você já supunha encontrar antes mesmo da leitura?
Eis o tema deste Fórum: essa pergunta. Singela, ingênua, mas que deve levar a alguma nossa, ainda que rasa, reflexão! E me veio assim, meu bom Yoda, com o sol já raiando, uns paralelos mais ao sul, em resposta à tua carta remetida do interior do sertão da Paraíba, no meio da madrugada. Uma carta que rompe com os formalismos para abrir espaço para a locução mais direta e menos mediada possível! Com a perniciosa subjetividade subvertendo o monopólio dos veículos sobre o discurso de seus jornalistas! Seria este o papel da nova imprensa independente? O de encurtar a mediação entre o fato e o relato? E abandonar o formalismo que, em si, media a notícia? Soprar ao pé do ouvido eletrônico!? Será uma alternativa ao desfacelameto da credibilidade dos meios de massa?
Abraço,
Eduardo Carvalho
Eduardo Carvalho