Arte além da crise

Arte além da crise

Apesar da Copa do Mundo, apesar das eleições, apesar da crise econômica que já se anunciava… o mercado de artes brasileiro teve uma surpreendente continuidade em seu crescimento em 2014. É o que conclui a 4ª Pesquisa Setorial Latitude, desenvolvida pelo Latitude – Platform for Brazilian Art Galleries Abroad, parceria entre a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact) e a Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Foto: Ian MuttooO bom resultado foi atestado por 51% das galerias pesquisadas, com 47% delas registrando aumento na equipe de trabalho. Apenas 14,6% das galerias informaram crescimento negativo. Além disso, não foram relatadas demissões no setor.

“O mercado de artes no Brasil tem se desenvolvido de forma gradual e consistente e não parece tão vulne­rável aos reveses das economia nacional”, afirma Ana Letícia Fialho, pesquisadora responsável pelo levantamento. “A profissio­nalização e a internacionalização das galerias, impulsionadas pelo tra­balho realizado pelo projeto Latitude desde 2007, constituem uma chave importante para que o setor continue em desenvolvimento, se fortaleça e possa enfrentar os desafios impostos pelo contexto nacional e as crescentes oportunidades que se apresentam na esfera internacional.”

As novas galerias, recém-estabelecidas, em geral atestam um crescimento mais expressivo, já que à medida que seus artistas começam a se tornar conhecidos e adquirem valor de mercado, o crescimento pode ir de 0 a 100% em um ano de atividade. Esse fator é o que elevou a média de crescimento de parte do grupo a mais de 40% em 2014 – algumas delas registram aumento superior a 100%.

No entanto, galerias que atuam há mais tempo no mercado também informaram ter crescido mais de 15% no ano passado. “A crise econômica traz boas oportunidades de negócios”, afirmou uma delas. “Quem está no topo da pirâmide econômica não abre mão do seu estilo de vida frente à crise; pode até enfrentar dificuldades em seus negócios e instaurar uma política de austeridade e demissões, mas não muda seus hábitos de consumo”.

De acordo com a conclusão da pesquisa, o posicionamento das galerias no mercado nacional e internacional, o reconhecimento dos artistas e a expansão da base de colecionadores são os fatores que explicam o crescimento mesmo em um ano difícil. “As maiores dificuldades enfrentadas pelas galerias foram, por ordem de importância, a instabilidade econômica do país, a alta carga tributária e, da parte das galerias mais jovens, a dificuldade de acesso aos colecionadores institucionais”, destaca Ana Letícia.

Cerca de 40% das vendas das galerias ocorreram nas feiras de arte. Todas as consultadas participaram de feiras e 80,5% delas estiveram nesses eventos no exterior, um recorde em relação às pesquisas anteriores. Foram 207 participações e uma média de cinco feiras por galeria – em 2013 a média tinha sido de 4,5 feiras por galeria e algumas delas ainda não haviam participado de nenhuma. A SP-Arte, a ArtRio e a ArtBasel Miami Beach foram as mais importantes para a realização de negócios.

No mesmo período, 37,5% das galerias ofereceram apoio à participação de seus artistas
em eventos institucionais internacionais e 29% delas fizeram novas parcerias com galerias estrangeiras. “As feiras têm comitês de seleção e as galerias que se candidatam passam por um rigoroso processo de avaliação, onde cada programa é avaliado”, explica Ana Letícia. “Naturalmente, as mais jovens participam de menos feiras, em geral das nacionais, mas algumas galerias criadas a partir de 2010, como Mendes Wood DM e Jaqueline Martins, já estão inseridas em importantes eventos do circuito internacional, como Frieze.”

Segundo a pesquisadora, o aceite em feiras de prestígio, como Frieze e Art Basel, confere um selo de qualidade e contribui para o reconhecimento da galeria internacionalmente. “Uma maior presença brasileira nas feiras internacionais reflete o reconhecimento que o mercado brasileiro vem alcançando, o que favorece também uma maior visibilidade e circulação dos artistas representados por nossas galerias.”

A proporção entre o mercado brasileiro e o mercado internacional permaneceu a mesma em 2014: 85% e 15% respectivamente, como em 2013 e 2012. Os principais destinos das vendas em 2014 foram Estados Unidos, Colômbia, Reino Unido, Suíça, Espanha e França. A Colômbia, que havia emergido como destino importante na pesquisa anterior, pareceu ter se consolidado, e a Espanha retornou em melhor posição, à frente da França.

Foram vendidas pelo menos 114 obras para 24 instituições internacionais. O Guggenheim de Nova York foi a instituição com maior número de aquisições em 2014. A Tate Modern e o MoMA também se destacaram. Mas o peso dos colecionadores privados brasileiros segue bastante significativo, sendo esses responsáveis por 73% do volume de negócios realizados, enquanto os colecionadores privados estrangeiros, por 16%.

Ana Letícia conta que a observação direta e a pesquisa qualitativa apontam para uma expansão da base de colecionadores, com profissionais liberais, jovens, clientes da mesma geração dos novos galeristas e que acompanham o desenvolvimento dos novos espaços e de jovens artistas.

Expansão – Embora haja produção artística e algumas instituições relevantes fora do eixo Rio-São Paulo, esses outros mercados de arte ainda não são tão desenvolvidos e por isso têm pouca representatividade na pesquisa. No entanto, destacam-se iniciativas como as das galerias Marcelo Guarnieri, de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, e da Bolsa de Arte de Porto Alegre, que abriram filiais na capital paulista.

A galeria Nara Roesler, cuja sede é em São Paulo, abriu em 2014 uma filial no Rio de Janeiro, e a Fortes Vilaça também deve abrir uma filial carioca em 2016. Além disso, algumas galerias estão abrindo um segundo espaço expositivo na mesma cidade, como é o caso da Fortes Vilaça, da Baró e da Mendes Wood, todas na cidade de São Paulo. “Esse é um fenômeno inédito entre as galerias de arte contemporânea do mercado primário, e também um indicador de um otimismo do setor em relação a seu potencial de desenvolvimento”, aponta o relatório final da pesquisa.

Há galerias que trabalham com apenas cinco artistas e outras que chegam a representar 41 nomes. A maioria trabalha em média com 21,5 artistas. A pesquisa abrange, portanto, um universo de quase 900 artistas, número menor do que o apresentado na edição anterior, quando houve um número maior de galerias participantes e a média de artistas representados era de 22,5.

Embora o número total de obras vendidas tenha sido menor do que em 2013 – 5.750 em 2014, contra 6.500 no ano anterior -, 56,1% reajustaram os preços das obras à venda, em média 8,4%: o preço médio das obras comercializadas no mercado primário é de R$ 30, 8 mil, enquanto que em 2013 a média era de R$ 24,5 mil. O preço médio das galerias que movimentaram até R$ 3,6 milhões em 2014 é de R$ 14,3 mil. Já nas que movimentaram acima disso, o preço médio é de R$ 65 mil.

Das 38 galerias que forneceram informações sobre a receita bruta anual, a maioria movimenta até R$ 3,6 milhões ao ano. “Consideradas as respostas das edições anteriores, podemos aferir que o grupo das galerias que movimentam mais de R$ 3,6 milhões está aumentando. O que fica evidente é que há uma concentração de um grande volume de negócios num número menor de galerias que, comparativamente, representam um número maior de artistas, empregam mais pessoas e são responsáveis por grande parte das exportações registradas pelo setor.”

A internacionalização do mercado não deve ser avaliada apenas em relação ao volume de vendas e de exportações e à participação em feiras, mas também considerando fatores como a representação de artistas estrangeiros. Entre as galerias pesquisadas, 75% trabalham com artistas de outros países. Em média, 20% dos artistas representados são de origem estrangeira, exatamente o mesmo percentual observado em 2013. Existem aquelas que não representam nenhum artista internacional e as que têm mais de 50% dos artistas representados de origem estrangeira.

As galerias informaram que 3,5% dos artistas representados entraram no mercado pela primeira vez em 2014. O percentual diminuiu significativamente em relação à 3ª edição da pesquisa, quando as galerias informaram que 15% dos artistas representados estavam entrando no mercado pela primeira vez. Segundo o relatório, esse dado provavelmente está relacionado ao contexto de instabilidade econômica, adverso a riscos e apostas como o de investir em novos artistas que ainda não têm um mercado, e também à necessidade de se investir na construção da carreira dos artistas integrados no ano anterior, o que requer tempo e trabalhar em mais longo prazo.

Em compensação, a mão de obra empregada no setor não sofreu nenhum corte: 47% das galerias aumentaram o número de trabalhadores em 2014 e 53% mantiveram, em 2014, o mesmo número de funcionários que tinham em 2013. Mesmo entre as que atestaram ter tido crescimento negativo em 2014, houve as que informaram ter aumentado a equipe de trabalho no mesmo período, o que pode ser explicado como uma estratégia de se retomar o crescimento investindo-se na contratação de profissionais especializados.

Com relação à remuneração, a maioria paga entre dois e cinco salários mínimos, mas a média salarial varia de acordo com o faturamento da galeria. Naquelas que movimentam mais de R$ 3,6 milhões ao ano, a média é de R$ 9.830; naquelas cujo faturamento é inferior, a média do salário mais alto é de R$ 2.933.

“Talvez o momento atual do país sugira cautela, mas também demanda investimento, inovação e certo otimismo. Esse parece ser o partido de boa parte das galerias pesquisadas, que em 2014 investiram na ampliação dos seus espaços expositivos, na abertura de novas sedes e no aumento de suas equipes”, informa o relatório. No entanto, para Ana Letícia, as vendas para o mercado nacional serão um desafio em 2015. A estratégia deve ser apostar ainda mais na internacionalização.

Clique aqui para acessar a 4ª Pesquisa Setorial Latitude na íntegra.

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