No último sábado, foi publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, um artigo do ator, diretor e coordenador de Artes Cênicas da Secretaria Municipal de Cultura da cidade, Luiz Paulo Vasconcellos, criticando as ações da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac). Vasconcellos afirma, em seu texto, que o projeto de política cultural da atual gestão da Sedac é uma falácia. Chama a limpeza de monumentos e prédios tombados de faxina, o que não seria, para ele, cultura. Confira o texto aqui. A titular da Sedac, Mônica Leal, publica, no próximo sábado, um artigo-resposta no mesmo jornal. A posição de Leal, considerada por alguns setores culturais do estado como extremamente atrelada a interesses políticos, tem uma recepção muito pouco calorosa por parte de alguns membros da classe artística local. Durante a semana, em meio às alfinetadas recebidas pela Sedac, o ator Alexandre Vargas escreveu uma carta aberta à governadora Yeda Crusius pedindo o afastamento da secretária. Confira:

“Senhora Governadora Yeda Crusius,

Sou um artista. Milhões de gaúchos desconhecem o mal que a senhora me tem feito. Não entendo: que ameaça nós, os artistas, poderíamos constituir? A minha arte é o teatro e o teatro é, por força de sua essencialidade, uma arte efêmera. O seu tempo é gerado no ato da representação e, portanto, se esgotaria na duração de uma encenação. Mas ainda que tudo pareça se esgotar em duas ou mais horas, o movimento teatral traz em si a permanência dos tempos. Não é sem razão, senhora governadora, que o teatro é uma arte que se estende por mais de cinco mil anos, absoluta, presente, critica e contemporânea. Como cidadão, faço do meu oficio um instrumento de participação política. Não por uma interposta razão divina, mas por uma vocação que foi sendo cultivada ao longo de 18 anos de prática de trabalho. Como artista, faço a minha participação política dentro do meu oficio, ou seja, fora da filiação partidária.

Com isso, deixo claro que o palco é o meu espaço também político. Na história do nosso Brasil, artistas deste país já foram convocados para um grande futuro e uma grande mudança. As oposições políticas armaram palanques; esses mesmos artistas, preparando o espetáculo, “esquentaram” as multidões nas praças, fortalecendo lideranças ainda não confiantes em si mesmas.

Uma vez fortalecidas, essas lideranças políticas ocuparam o centro dos palanques. Os artistas, cumprida a missão, recuaram. As massas humanas se impuseram. A partir daí, todos nós, irmanados, começamos a construção de um Brasil novo. Depois de tantos anos de arejamento, arduamente sendo construído, passo-a-passo, hoje nós, os artistas do Rio Grande do Sul, vivemos em asfixia.

Pobres de nós que seu governo, senhora governadora Yeda Crusius, despreza, hostiliza e fere, a todos nós artistas. A miséria intelectual do seu governo é a nossa miséria material. Convido a senhora a refletir um pouco sobre a cultura, a arte e as artes do nosso Rio Grande do Sul. Revelo o meu gesto independente de cidadão que deposita sua confiança numa mulher que já foi entusiasmada e me parece consciente. A esse convite gostaria que a senhora governadora respondesse com a mesma limpeza de propósitos. Vejo, na Secretaria de Cultura do seu governo (no meu entender nenhuma outra lhe é superior), permita-me dizer-lhe com todo respeito e confiança, um quadro de morte, nostalgia, demagogia, de perda e degredo.

Gostaria que a senhora entendesse que a melhor maneira dos artistas prestarem seu serviço à cultura do Rio Grande do Sul é exercendo o seu oficio. Portanto, senhora governadora, não atrapalhe o nosso trabalho. É profundamente inquietante e ofensivo para a cultura do Rio Grande do Sul que a senhora mantenha as diretrizes de cultura bem como a atual Secretária de cultura. É preciso nominar e não generalizar. Esta é a razão desta carta. Como muitos outros homens e mulheres de teatro, faço parte, senhora governadora, de um artesanato, de uma classe de trabalhadores, classe sofrida, sobrevivente, de anos e anos de repressão econômica e política e não de uma indústria cultural.

Constrange ver na Secretaria de Cultura a paralisação de toda uma frente de atividades culturais. Ação constrangedora para qualquer regime político. Há de se ter discernimento, senhora governadora! Indigna-nos a perda econômica, o desemprego na área cultural, os projetos adiados pelo seu governo, as rifas dos espaços públicos e acima de tudo a dúvida que a senhora coloca sobre a nossa idoneidade mental e intelectual. Não estamos de acordo com o que a senhora pretende de política de ação cultural.

A população do Rio Grande do Sul outorgou a Sra. Governadora como chefe desse Estado, eleita pelo voto direto, logo, se não estamos de acordo com o que a senhora pretende de política de ação cultural, o governo deve reapresentar uma proposta construída, juntamente com os homens de cultura deste estado, para chegarmos harmoniosamente a um somatório de esforços e resultados.

Gostaria, senhora governadora, que entendesse esta carta não como uma reivindicação de atendimento material. Primeiro e acima de tudo há que se tornar um posicionamento moral e ético. Desejo, como todos os gaúchos, que este Estado dê certo, que se transforme num espaço respeitado.

A cultura, senhora governadora, é uma área delicada. Este estado, que já foi respeitado, não existirá sem que a criatividade de sua população venha para o primeiro plano de atendimento civilizadamente. Exigir qualquer coisa da atual gestão publica de cultura, que tem, em geral, uma crassa ignorância sobre o quadro político e econômico em que sua produção se dá, é produzir um diálogo viciado que só faz legitimar os fazedores de cultura no Rio Grande do Sul.

Os episódios rotineiros da Secretaria de Cultura são reveladores. Muito além da politicagem de praxe ou da proverbial incapacidade de gestão para discernir política cotidiana e partidária da questão cultural e artística. Num contexto mais amplo, o que fica em evidência é o quadro de total desolação de investimentos públicos na cultura. Por outros caminhos, a Secretaria Estadual da Cultura parece condenada à extinção. Essa é a função da Secretária Mônica Leal? Que terríveis perigos nos alertam? Que receios vosso governo me inspira? Infelizmente não é produto de um sonho. São os fatos que alimentam a minha desconfiança.

O Estado do Rio Grande do Sul não consegue dormir. Porque vive sobressaltado por terríveis acontecimentos. E esse temor faz com que eu proclame uma exigência. Uma exigência que tem a ver consigo, Cara Governadora: proceda a demissão da sua Secretária de Cultura, a Sra. Mônica Leal. Exijo mais: que os inspetores do governo, o gabinete de transição ou o Ministério Público fossem enviados à Secretaria de Cultura. O vosso governo, como tudo indica, albergou criminosos sanguinários cujas forças lobistas-politiqueiras massacraram milhares de inocentes, entre eles, eu.

O governo do Rio Grande do Sul é o único do Brasil que regrediu seus investimentos na cultura. Forças retóricas e discursivas do seu governo treinaram e armaram fundamentalistamente a subjetividade dos gaúchos (incluindo uma classe chamada de “elite”) a pretexto de miséria e de um estado quebrado, enquanto milhões de reais são desviados. O seu governo, enquanto pratica as piores atrocidades contra os artistas do Rio Grande do Sul, é apoiado por diversos partidos.

Como tantos outros fantoches, a Secretária de Cultura Mônica Leal foi por vossa vontade conduzida ao poder e concede a inoperância e a paralisia. São verdadeiras ações de terrorismo cultural, postas em prática pela Secretária que devasta a produção cultural desse Estado. A decisão que a Senhora Governadora teima em iniciar poderá libertar-nos de uma marqueteira individualista e demagógica. Estamos todos mais pobres no Rio Grande do Sul com essa Secretária de Cultura. Enfrentamos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e temos menos esperança num futuro do seu governo, pela razão e pela moral.

Se a atual Secretária permanecer nesse cargo e os nossos parlamentares gaúchos não se manifestarem, teremos menos fé na força reguladora da nossa Assembléia Legislativa. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhora governadora, o estado do Rio Grande do Sul não é o governo Yeda Crusius. São milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham. Preocupamo-nos com os males do governo Yeda Crusius que são reais. O que está destruindo massivamente os gaúchos não são só as armas do narcotráfico, o desemprego, a miséria e a violência. São também os seus Secretários de governo. São as sanções brancas que conduzem a uma situação humanitária grave. Em protesto a essas sanções peço a demissão da Secretária de Cultura Mônica Leal. O seu governo, ao abrigar a atual Secretária de Cultura, está destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral. Esse sistema de sanções que se dá pela inoperância, pela passividade, pela retórica demagógica leva à morte. Livrar-nos-emos da Secretária Mônica Leal. Mas continuaremos prisioneiros da lógica dos lobistas políticos e da arrogância.

Não quero que os meus filhos vivam dominados pelo fantasma do medo. Pois eu, pobre ator, tenho um sonho. Sonho que o estado do Rio Grande do Sul possa ser um estado de todos os gaúchos. Porque a maioria da população gaúcha não aprova o governo Yeda Crusius? Porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos, Sra. Governadora!

Somos alvos de terroristas porque vosso governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque somos esquecidos, nós os artistas desta terra. Vosso governo não é aprovado porque faz coisas odiosas: agentes dele vendem o seu próprio povo à miséria intelectual e material.

O povo do Rio Grande do Sul aprendeu a desfrutar de democracia, de liberdade e de direitos humanos. Nós os artistas somos esquecidos e odiados pelo seu governo não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos, mas porque vosso governo nega essas coisas ao nosso povo.

A senhora governadora parece não necessitar de nada para exercer o seu direito de intervenção na Secretaria de Cultura. Intervenção para trocar a atual Secretária Mônica Leal. Intervenção para cobrar resultados. Nós preferíamos vê-la assinar a demissão dela, para conter o efeito estufa que queima os artistas do Rio Grande do Sul. Ao menos gostaríamos de encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e milhões de cidadãos do Rio Grande do Sul não ficaremos convencidos quando a ouvirmos justificar as atitudes amadoras de seus secretários de governo, em especial a Secretária de Cultura.

Não se preocupe, senhora Governadora. A nós, artistas deste estado, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio cego que as vossas sucessivas ações administrativas concedem apoiando esses secretários medíocres. A maior ameaça que pesa sobre o seu governo não é o estado falido, a miséria como a senhora tanto nos aterroriza. Mas é o universo de mentira que se criou em redor dos vossos colegas de trabalho. O perigo não é o novo jeito de governar. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro do Palácio Piratini, esta dentro do seu governo e não é o vice-governador Paulo Feijó.

Receba, senhora governadora Yeda Crusius, este convite à reflexão, e também os meus profundos votos para que o seu governo transforme este estado numa terra realmente abençoada e que, um dia, artistas sejam realmente respeitados. Infelizmente no seu governo, até o atual momento, a carne de mármore e as paixões de bronze de Auguste Rodin não são arte, mas nome de investigação da Policia Federal sobre a fraude milionária e esquema de corrupção e troca de favores enraizadas nas esferas do poder.

Eu gostaria de poder festejar a derrubada da Mônica Leal. E festejar com todos os gaúchos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, cara Governadora Yeda Crusius, nós, os artistas, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Atenciosamente,

Alexandre Vargas, um ator.”


editor

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